O cultivo de uma cidade espontânea

Como o urbanismo emergente funciona

 

Em uma cidade espontânea tradicional, 100% da superfície é inicialmente uma estrutura em rede, terra aberta. A partir desta superfície, os melhores caminhos são selecionados para se adequar às redes que estão surgindo e o espaço restante é construído progressivamente. Iniciando por uma estrutura territorial completamente aberta, totalmente conectada, o projeto da cidade pode consistir em um processo puramente negativo, colocando impedimentos na construção acima de caminhos importantes. Assim, a estrutura de rua e a hierarquia tornam-se uma estrutura evoluída que corresponde à história de suas redes, e a colocação de edifícios e usos é também uma estrutura evoluída que corresponde aos fluxos de movimento. Ao longo do tempo, esses caminhos são pavimentados e atualizados, e importantes junções de caminhos se tornam o espaço aberto central da cidade. A quadra inicial de uma cidade espontânea pode ser explicada como o restante de um processo fractal de subtração, sendo a parte mais subutilizada da rede espacial sendo removida em cada etapa adicional de feedback até que não sejam possíveis outras subtrações de rede. Com a circulação de pessoas otimizadas, o espaço restante é aumentado com móveis de rua projetados especificamente para multidões, como bancos, paradas de trânsito, murais, quiosques e assim por diante.

Uma cidade emergente igualmente começa com uma estrutura em rede,apesar de ser uma estrutura muito mais sofisticada do que terra aberta. No design moderno, a típica rua de asfalto produz uma rede que se adequa particularmente às redes de automóveis, mas também tem o infeliz efeito colateral de cortar redes de pedestres que normalmente usufruem de toda a superfície em uma cidade espontânea. Como um remédio, estas ruas são equipadas com calçadas que são frequentemente estreitas e desagradáveis (quando não perigosas) para andar, um esforço em traduzir métodos estritos de controle de tráfego para o pedestre. Não é surpreendente que os pedestres sejam tão raros nas cidades modernas mas alguns esforços têm mostrado que as redes de pedestres podem emergir do design moderno. Um exemplo é o deck de três andares do centro empresarial de La Défense, em Paris, que contém estacionamento, além de trilhos regionais e metrô, além de ser uma área pedonal aberta. Nos fins desta estrutura em rede, um processo que gera desenvolvimento espontâneo cria as redes reais da cidade. Como evidenciado pelas multidões presentes nessa superfície e a abundância de lojas de bairro as redes de pedestres funcionam muito bem. O que é mais surpreendente é que as redes de automóveis são pouco utilizadas e algumas estruturas de estacionamento vazias apesar de o bairro ter sido concebido para automóveis.

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(Figura 7. O estilo de projeto “laje pedestre” foi culpado pela falha dos projetos urbanísticos modernistas, mas em La Défense a laje é uma estrutura de trabalho. O incorporador utilizou o da construção espontânea em vez de aplicar o plano arquitetônico completo, permitindo a formação de uma economia local densa)

 

Por conta dos altos custos e outras complexidades envolvidas na produção de redes para sistemas modernos de transporte não é possível praticar um processo puramente negativo e subtrativo de formação de ruas. Porém, a estrutura de rede ainda deve ser uma estrutura evoluída que é produzida com o feedback do desenvolvimento de lote em vez de construir uma grade inteira antes que tenha sido decidido que tamanho de lote é necessário. Ainda mais importante, todas as formas de movimento devem estar em equilíbrio no projeto de rua para que um tipo de estrutura de rede não cortar outro e impedir o processo de formação de rede.

 

O cultivo de uma cidade espontânea

 

Uma vez que uma estrutura de rede está no lugar o processo de formação de rede pode começar.

Os sistemas Wiki mostraram que a liberdade simples de criar não necessariamente produz redes a menos que também exista uma interface simples para esta rede. A internet forneceu um sistema de sites vinculados que poderiam espontaneamente produzir uma enciclopédia por muitos anos antes que o sistema da Wikipedia catalisasse o conhecimento distribuído de milhões de pessoas em um sistema exponencialmente crescente e internamente coerente. Traduzindo os princípios de crowdsourcing para os processos de planejamento, Alexander descreveu no The Oregon Experiment como uma instituição poderia apoiar diretamente o desenvolvimento imobiliário espontâneo de sua cidade fornecendo designers e gerentes para ajudar os indivíduos e perceber o programa que os usuários individuais têm em mente. (Alexander, 1975)

Com a iniciativa de desenvolver novos programas de construção deixados deliberadamente indefinidos e nas mãos dos indivíduos e organizações que desenvolvem as redes socioeconômicas da cidade resta a questão de produzir uma paisagem geométrica, coerente, harmoniosa e distinta. Este objetivo é atingido com processos geradores compartilhados, (Alexander, 2004) e particularmente o assentamento de processos generativos um no outro (também conhecido como uma gramática de forma ou linguagem de forma), como mostrado na figura 8. Não importa quais configurações de espaço são requeridas por qualquer programa de construção individual, se esta configuração é realizada fisicamente pelo mesmo processo de construção como para qualquer outra configuração aleatória, então os dois edifícios realizados vão compartilhar propriedades simétricas e o resultado será uma ordem geométrica harmoniosa. Isto vem sendo empregado em muitos casos pela regulação de materiais de construção, o que cria uma ordem geométrica na escala da textura, mas também se aplica a qualquer outra escala de geometria, como evidenciado pela ordem geométrica criada pelos anúncios em Times Square.

(Figura 8. Três volumes são definidos aleatoriamente no espaço sem se relacionar uns com os outros. Quando uma função de feedback compartilhado é aplicada para transformar esses volumes, os volumes ficam relacionados por estas transformações. A função neste caso é: 1 - Cortar os cantos superiores a metade da altura do volume, 2 - Levantar o centro do telhado)

(Figura 8. Três volumes são definidos aleatoriamente no espaço sem se relacionar uns com os outros. Quando uma função de feedback compartilhado é aplicada para transformar esses volumes, os volumes ficam relacionados por estas transformações. A função neste caso é: 1 – Cortar os cantos superiores a metade da altura do volume, 2 – Levantar o centro do telhado)

 

Definindo os processos de construção em vez de projetos de edifícios fixos, é possível planejar o crescimento futuro sem eliminar o crescimento espontâneo e o feedback. Um desenvolvedor imobiliário que está iniciando um programa de urbanismo emergente pode, então, preparar-se para a construção antes de quaisquer projetos que tenham sido determinados. Construir estruturas de alta tecnologia é uma arte complexa que requer conhecimentos significativos e uma força de trabalho qualificada. O desenvolvedor imobiliário que cria processos de construção adaptáveis que podem ser usados para gerar e realizar planos de construção facilmente e rapidamente fornecerá a mesma espontaneidade que os assentamentos informais alcançam.

Como evidenciado pela popularidade das cidades históricas da Europa, especialmente do Mediterrâneo, como destinos turísticos, há uma enorme e lucrativa demanda a ser suprida a partir de cidades que adotam a geometria de cidades emergentes. Para que isto funcione, entretanto, as indústrias de desenvolvimento e indústrias bancárias devem ser persuadidas da eficácia do projeto do processo em oposição ao planejamento mestre, e as autoridades municipais devem estar dispostas a aprovar o projeto urbano sem configuração fixa. (Alexander, 2004) As questões políticas também criam um obstáculo significativo. Os longos processos de aprovação que um deve percorrer para desenvolver uma nova cidade ou bairro aumentaram significativamente o comprimento dos ciclos de feedback e favoreceram o desenvolvimento em larga escala, além de tornar as pequenas comunidades menos competitivas. Mesmo quando os longos processos de revisão ou de consulta pública podem ser evitados, um desenvolvimento imobiliário tem de cumprir com uma pesada subdivisão e códigos de construção que custam tempo para absorver e compreender e, assim, contribuem para alongar os ciclos de realimentação e tornar o tecido urbano menos adaptável e menos sustentável.

 

Referências

Alexander, Christopher (1975). The Oregon Experiment, Oxford University Press, USA

Alexander, Christopher (2004). The Process of Creating Life, The Nature of Order Vol. 2, Center for Environmental Structure

Salingaros, Nikos (1998). ‘Theory of the Urban Web’, Journal of Urban Design, vol. 3, also in Chapter 1 of PRINCIPLES OF URBAN STRUCTURE, Techne Press, Amsterdam, Holland, 2005.

 

Este artigo foi originalmente publicado no site Emergent Urbanism em 7 de dezembro de 2009. Foi traduzido por Cauê Marques, revisado por Anthony Ling e publicado neste site com autorização do autor. 

  1. José Walker

    Sou engenheiro e urbanista e tenho vivo interesse nas publicações do caosplanejado. Gostaria de receber regularmente cada novo artigo publicado. Agradeço antecipadamente.

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Obrigado, José Walker! Estamos considerando iniciar uma newsletter, vamos tomar a liberdade de adicioná-lo quando for o caso.

      Abs!

      Responder

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