Precisamos curar nossa dependência do carro
A urbanização brasileira foi marcada por um protagonismo do automóvel, negligenciando pedestres, ciclistas e o transporte coletivo. Isso precisa mudar.
A pedestrianização pode trazer benefícios econômicos, sociais e urbanos, como comprovam exemplos de sucesso em diferentes cidades.
23 de setembro de 2024Pedestrianização é o processo de tornar uma rua ou uma parte da cidade em uma área de circulação exclusiva de pedestres, onde a passagem de veículos não é permitida.
O termo surgiu após a ascensão do rodoviarismo na segunda metade do século 20, no qual a expansão do uso dos automóveis individuais levou a um planejamento urbano que muitas vezes focava na circulação e no espaço dos veículos, e não dos pedestres ou ciclistas. Apesar disso, já nesse período os planejadores urbanos não negavam o valor econômico de uma área de circulação exclusiva de pedestres em centros comerciais, por exemplo.
Dentro dessa lógica, foram construídos projetos como o Kalamazoo Mall, de 1959, um shopping aberto e “pedestrianizado” nos EUA que originalmente teria um imenso estacionamento ao seu redor. O arquiteto austríaco Victor Gruen se inspirou nas cidades europeias para propor essa zona de pedestres. A ideia era que os frequentadores do local chegassem até lá de carro, mas usufruíssem do espaço a pé, o que é muito mais agradável (e uma experiência agradável faz com que o consumo seja maior).

Até hoje essa lógica é comumente reproduzida em outlets e parques de diversões, por exemplo. É uma ideia um tanto contraditória, afinal, o shopping reproduz as características espaciais que os centros urbanos de cidades caminháveis já têm, mas o ato de planejar uma cidade na qual as pessoas acessam espaços como esse apenas de carro, inviabiliza isso. Por isso, a pedestrianização hoje não é vista como uma estratégia isolada, como no caso desse tipo de projeto, mas como parte de um modelo de cidade que busca priorizar a mobilidade ativa, combatendo o protagonismo do carro.
Leia mais: Por que é urgente defender a mobilidade para pedestres na agenda política?

A preocupação em viabilizar espaços públicos dentro da cidade nos quais o pedestre tenha conforto e liberdade para circular é apresentada em obras que hoje são indispensáveis nos estudos de urbanismo, como “Cidades para pessoas”, de Jan Gehl, e “Morte e Vida de Grandes Cidades”, de Jane Jacobs. Ambos os autores criticam o tipo de planejamento urbano anterior, centrado no automóvel. E ambas as obras servem como base para iniciativas de pedestrianização por todo o mundo atualmente.
Hoje, com vários exemplos de execução em diferentes locais e contextos, é possível comprovar que a pedestrianização pode ser positiva para as cidades de várias formas, especialmente quando aliada a um urbanismo denso e diverso. Vejamos alguns desses exemplos.
A famosa Times Square, em Nova York, foi alvo de um processo de pedestrianização que se tornou um dos mais conhecidos no mundo. Com um projeto piloto iniciado em 2009, a proposta se apoiou no dado de que a Times Square tinha um público de 70 pedestres para cada 10 carros, apesar do congestionamento de veículos chamar mais atenção e ocupar boa parte do espaço. Era preciso equilibrar as prioridades.
Após o experimento de fechar a via para carros, as receitas das empresas da Times Square cresceram 71%, como relata Janette Sadik-Khan, secretária de transportes de Nova York na época. Diante dos fatos, ficou claro que a pedestrianização deveria se tornar definitiva.
Leia mais: Carros vs. Pedestres: Entrevista exclusiva com Janette Sadik-Khan


Quando nos deparamos com exemplos como Amsterdã e Copenhagen, cidades que se destacam pelo uso massivo da mobilidade a pé e de bicicleta, um argumento comum é que essas cidades só são assim porque tiveram condições espaciais e históricas mais favoráveis. Porém, é preciso lembrar que houve uma época em que os automóveis também dominavam as ruas dessas cidades. E foi nesse contexto que Stroget, a principal rua de Copenhagen, foi pedestrianizada em 1962.
Começando também como um experimento, a pedestrianização da rua gerou muito debate a respeito dos efeitos negativos que a retirada dos carros poderia ter no comércio local. Mas a estratégia provou ser um verdadeiro sucesso, e foi pioneira numa onda de transformações na cidade, como relata o urbanista dinamarquês Jan Gehl em “Cidades para pessoas”. Entre 1968 e 1996, houve um aumento de 400% nas atividades de permanência das pessoas na rua, e o número de pedestres aumentou em 35% apenas no primeiro ano da mudança.

A Rua XV de Novembro em Curitiba, conhecida como Rua das Flores, teve seu processo de pedestrianização idealizado por Jaime Lerner, prefeito da cidade na época e que se tornou um dos principais urbanistas brasileiros. O projeto foi implantado em 1972 com a intenção de diminuir a importância dada aos carros nas ruas e aumentar o conforto dos pedestres. Ela foi a primeira grande via pública que se tornou exclusiva para pedestres no Brasil.
Inicialmente, a repercussão da iniciativa também foi negativa. Porém, à medida que os efeitos positivos da pedestrianização eram notados, com o aumento da circulação de pessoas e do número de lojas, bares e cafés, a ideia ganhava força. Hoje, a Rua das Flores é um dos principais locais da cidade e virou, inclusive, um ponto turístico.

Outro exemplo brasileiro de pedestrianização é o calçadão da chamada Primeira Quadra, no centro da cidade de Santa Maria. A rua foi fechada para carros pela primeira vez em 1978 e o projeto teve como inspiração a iniciativa de Jaime Lerner em Curitiba.
Entre os comerciantes locais, a ideia dividiu opiniões. “Os jornais da época registraram a opinião de alguns lojistas, em geral favoráveis à obra, mas com receio do aparecimento de “marginais”, “pivetes” e “elementos inconvenientes entre a freguesia”, atraídos pela aglomeração de consumidores, semelhante ao que estava sendo divulgado sobre outros calçadões brasileiros.” Nessa narrativa, também fica evidente o caráter segregador do planejamento focado no carro particular.

Como nos outros casos, a pedestrianização da Primeira Quadra em Santa Maria se mostrou positiva tanto para comerciantes quanto para usuários. O local se consolidou como um importante espaço de encontro de pessoas, e a rua é hoje um dos pontos mais valorizados da cidade, como relatado no documentário “1ª Quadra”.
Leia mais: Ruas para pedestres
Assim, a pedestrianização se prova uma estratégia que pode ter sucesso não só no urbanismo e na mobilidade, mas também agregando um valor social e econômico aos espaços públicos.
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e dinâmicas.
Quero apoiarA urbanização brasileira foi marcada por um protagonismo do automóvel, negligenciando pedestres, ciclistas e o transporte coletivo. Isso precisa mudar.
Estudo nos EUA conclui que o número de ciclistas é 1,8 vezes maior em ciclovias protegidas do que em ciclovias padrão e 4,3 maior do que em trechos sem ciclovias.
Confira quais foram os episódios mais ouvidos do podcast Caos Planejado em 2025.
Publicamos mais de 150 colunas no Caos Planejado ao longo do ano. Confira quais foram as mais lidas de cada colunista!
Confira quais foram os artigos mais acessados de 2025 no Caos Planejado!
Como as unidades habitacionais novas e caras de hoje se tornam as moradias acessíveis de amanhã.
Entendendo o que esse conceito realmente significa a partir de diferentes perspectivas.
Confira a nossa conversa com o pesquisador e gestor Santiago Uribe sobre o papel do urbanismo social na cidade de Medellín.
A ausência de assistência técnica de projeto e acompanhamento das reformas no desenho inicial do Programa Reforma Casa Brasil ameaça o potencial transformador da nova política do governo federal, lançada em outubro.
Adorei a ideia da pedestrização. Seria muito interessante e produtiva nas cidades do Brasil , pequenas ou grandes.