Entre Manhattan e Gotham: amor e ódio pelo arranha céu

Indiferença por prédios altos não é comum. Há aqueles que os consideram essenciais, sinais de desenvolvimento, a matéria-prima do skyline, o resultado do poder do homem sobre a terra e sobre os recursos naturais. Mas também há aqueles que os odeiam, com críticas poderosas sobre seu impacto urbano e ambiental, expondo suas externalidades negativas no espaço construído. Também lembro daqueles que são favoráveis apenas no discurso, ficando furiosos quando um é anunciado ao lado da sua casa ou se uma torre acaba bloqueando sua vista para a cidade ou mesmo para o céu. Batizados por muitos como “espigões” no singular acabam se tornando “selvas de pedra” no plural, com uma conotação longe de ser positiva. Assim, alguns mitos devem ser quebrados em relação à verticalização.

Fonte imagem: http://densityatlas.org/measuring/metrics.shtml

Esquema mostrando variação da área construída contra a sua
ocupação do terreno

Ilusão de densidade

A verticalização das cidades normalmente está relacionada à noção de aumento de densidade demográfica, que as pessoas tendem a encarar de forma negativa (dediquei uma postagem inteira sobre o tema). No entanto, nem sempre isso acontece: a perda de densidade ao aumentar a altura dos prédios é um fenômeno relativamente comum, normalmente desconhecido por não-arquitetos urbanistas. Quando municípios dão liberdade para construir para cima normalmente eles restringem as laterais, exigindo afastamentos obrigatórios das divisas do terreno. Essa simples variação volumétrica pode causar impactos gritantes no quesito área construída e, assim, densidade. Além disso, a mudança na característica dos moradores junto à essas novas construções, como a substituição de famílias que moravam em casas por casais que moram em grandes apartamentos, acabam provocando a diminuição da densidade do bairro. Este é o caso recente e emblemático da Vila Madalena, em São Paulo, que perdeu população nos últimos 10 anos mesmo com o boom imobiliário do bairro.

Sombra

Além das questões de densidade populacional, o objeto construído do arranha-céu também é visto negativamente por muitos daqueles que se preocupam com o meio ambiente. Permitir a verticalização para estas pessoas significa ir em direção à transformar a cidade em Gotham, um lugar onde o Sol pára de brilhar, com ruas escuras, úmidas e tristes. Verticalizar sem afastamentos laterais seria um erro ainda mais preocupante para aqueles com receio aos arranha-céus, criando a legítima “parede de concreto”.

Na história do urbanismo, o contato com a luz do Sol tem um papel central, desde a concepção das cidades-jardim, passando pela cidade radiante de Corbusier e a Brasília Lúcio Costa, chegando nas políticas públicas mais recentes de restrição de alturas e de afastamentos dos prédios das divisas, tanto laterais como de frente e de fundos. Apesar de ser um atributo importante para o conforto urbano, a raiz destas ideias vem de consequências negativas muito mais extremas do que hoje sabemos.

Manhattan vs. Gotham

Manhattan vs. Gotham

Os urbanistas sanitaristas do passado se baseavam na teoria da miasma, a noção de que o “ar ruim” era o que levava consigo as doenças e os males para a saúde dos habitantes. Além das limitações de altura, para mitigar a miasma em ambientes internos também era exigido, por exemplo, pés direitos de, no mínimo, 4,5m de altura, permitindo ventilação e radiação solar suficiente. Há algumas décadas já se sabe que apesar de existir algumas doenças que passam pelo ar, não podem ser carregadas pelas ruas da cidade através dos ventos, e que o Sol não é a cura nem a prevenção para os vírus mais conhecidos. Sabemos, por exemplo, que maioria das pessoas tem condições de ser saudáveis morando em pequenos apartamentos pouco ensolarados (até mesmo no subsolo, lembrando os “demi sous-sol” parisienses), e que Manhattan está longe de ser Gotham. Morar num cubículo ou caminhar pelas ruas do bairro com os maiores paredões de aço, concreto e vidro certamente pode ter sensações subjetivas negativas para muitos, mas não são grandes ameaças à nossa saúde física como alguns ainda imaginam.

O problema da sombra é agravado quando se permite verticalizar terrenos pontuais de bairros que possuem baixa altura, tendo sempre uma repercussão negativa dos moradores ao redor: o caso do “espigão da Cidade Baixa” retratado pelo blog não aos espigões. No entanto, se todos os terrenos tivessem a mesma liberdade de construir, provavelmente muitos deles venderiam seus terrenos, então valorizados, e as construções gradualmente cresceriam de forma mais harmônica, com menos conflitos na vizinhança já que todos teriam as mesmas regras.

Apartamento no sub-solo parisiense: um atento à salubridade e à  dignidade humana para o planejamento brasileiro

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Redução da “caminhabilidade”

A ideia de que edifícios altos prejudicam o trânsito de pedestres também está relacionada não à altura dos prédios em si, mas à forma que a verticalização foi feita no Brasil. No Rio, durante muitos anos a regulamentação dizia que se o térreo do edifício tiver apenas acessos (uma adaptação extremamente mal feita do modernismo corbusiano), este andar não entrava na contagem de pavimentos, o que resultava em edifícios com gabaritos mais altos e calçadas menos interessantes. São Paulo também possui legislação parecida, não contabilizando como área construída os andares térreo que tiverem apenas os acessos de escadas e elevadores à torre. A legislação também dita que o afastamento das divisas, tanto no Rio quanto em outras capitais brasileiras, permite uma maior verticalização: para o pedestre, vazios entre os prédios torna toda caminhada o dobro ou o triplo da distância, além de muito menos interessante já que se caminha junto à grades ao invés de serviços e lojas. Não é o mesmo que ocorreu em Manhattan que, com edifícios sem recuos laterais ou frontais na sua maioria, foi eleita a melhor cidade para se caminhar de todo EUA.

Ditadura

Professores e alunos de faculdades de arquitetura e urbanismo foram historicamente críticos ao período da ditadura militar brasileiras. No âmbito urbanístico, os prefeitos apontados pelo regime deram continuidade às teorias urbanas modernistas que foram oficialmente inauguradas no Brasil com a construção de Brasília – uma aliança entre JK e Niemeyer (que paradoxalmente é apoiado pelas faculdade de Arquitetura). Assim, desde a década de 60 acadêmicos do urbanismo disseminam (de forma bastante correta, ao meu ver) a noção de que as formas de urbanismo implementadas na época – que perduram até hoje – é destrutiva para as cidades. No entanto, a verticalização das nossas cidades fez parte deste pacote: o espírito desenvolvimentista dos prefeitos apontados pelos generais (como as reformas viárias de Thompson Flores, em Porto Alegre) se traduziu nas cidades na forma de torres altas: prédios altos é um sinal de grandeza e um retrato “de primeiro mundo”.

Mas é importante percebermos o contexto de como foi implementada esta verticalização: bairros sendo transformados da noite para o dia por canetaços sem a infraestrutura necessária para acompanhar as mudanças, grandes proprietários de terra e investidores imobiliários obtendo informações privilegiadas antes destes canetaços (muitas vezes influenciando as próprias decisões), manutenção de ilhas de baixa densidade para elites nas regiões centrais das metrópoles, incentivos a afastamentos obrigatórios e a manutenção do zoneamento de atividades e o surto rodoviarista não só intermunicipal como intramunicipal, com túneis e viadutos que cada vez mais incentivaram o transporte ao transporte via automóvel individual. Todos estes fatores, aliados à precepção negativa associada às demais atrocidades da ditadura, associam a verticalização – a transformação formal urbana mais explícita – com os problemas urbanos resultantes. Esta visão simplista também afeta a opinião daqueles que se consideram “à direita” do espectro político, que normalmente apoiam a verticalização de qualquer forma, já que seria uma forma de tomar uma posição contra “a esquerda”.

E lá fora?
Para evitar o alastramento das metrópoles, permitindo que os moradores das periferias habitarem os centros e evitando a destruição de áreas ambientais protegidas junto às cidades, cidades globais como Londres e Nova Iorque têm decidido por voltar às políticas de verticalização. O New York Times reporta que o prefeito Bloomberg está fazendo um plano para permitir um novo crescimento da região de Midtown Manhattan, e o Telegraph informa que novas incorporações estão transformando o skyline de Londres. Renzo Piano, ao ser criticado pela “cidade vertical” que é o seu projeto do Shard, em Londres, retruca que a torre de vidro é cerca de 10x mais eficiente em termos energéticos que uma pequena cidade na periferia, e que a visão contrária de tentar limitar o crescimento da cidade é puro romantismo. Falando sobre o arranha-céu (que, por sinal, tem apenas 48 vagas de garagem, ao contrário de cerca de 1500+ que seriam exigidas em São Paulo), Richard Rogers, seu parceiro no projeto do Centre Pompidou, em Paris, o defende com bom humor relevante: “é muito mais sustentável andar de elevador do que dirigir um carro“.

Assim, ao que percebo, maioria da raiva direcionada ao fato de um edifício ser alto vem da parte intuitiva e emocional do nosso cérebro que, por relacionar à fatores ruins diferentes da altura por si só, ressalta mais pontos negativos que positivos. Sim, arranha-céus são impactantes nas cidades, geram tráfego para determinados bairros e afetam o ambiente. Mas construídos responsavelmente me parecem ser uma solução menos impactante quando consideramos a cidade como um todo, impedindo o alastramento das manchas urbanas, o aumento das distâncias e dos preços dos imóveis e, principalmente, o exclusão da população nas periferias, uma das características mais marcantes da metrópole brasileira contemporânea.

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