Como Seoul pode inspirar Porto Alegre a transformar o Arroio Dilúvio

Arrio sul-coreano é referência do grupo “Eu quero o Arroio Dilvio Despoluído e Limpo”: pedestres às margens, arranha-céus ao fundo.

Arrio sul-coreano é referência do grupo “Eu quero o Arroio Dilvio Despoluído e Limpo”: pedestres às margens, arranha-céus ao fundo.

Recentemente, em Porto Alegre, um movimento de pessoas engajadas com o espaço público finalmente começou a defender uma utilização alternativa do Arrio Dilúvío ao esgoto aberto que ele é hoje. A principal referência para sua reforma (que constantemente aparece no meu Facebook sendo compartilhada por alguém) é o Cheonggyecheon, um pequeno rio urbano de Seoul. A obra basicamente removeu a avenida que passava sobre ele, que o escondia, e construiu calçadas e espaços para passagem e permanência de pedestres em suas margens, criando um verdadeiro parque linear urbano.

Porém, não podemos esquecer algumas diferenças essenciais entre a capital gaúcha e a capital coreana. Um dos principais motivos que faz o Cheonggyecheon ser movimentado – além da sua qualidade espacial – é a densidade demográfica de Seoul, uma das cidades mais povoadas do mundo com 17000 hab/km2. Para se ter ideia, os bairros adjacentes ao Arrio Dilúvio, considerando a região Partenon do Orçamento Participativo, tem por volta de 8000 hab/km². Já o distrito de Dongdaemun, principal bairro por onde passa o arroio Cheonggyecheon, tem impressionantes 24000 hab/km2 – o triplo da situação em Porto Alegre. Claro que os visitantes e usuários do arroio sul-coreano também vem de outros bairros, mas os números são de outra escala: lá o arroio recebe cerca de 64000 visitantes por dia, basicamente o equivalente ao bairro da Azenha e do Partenon somados circulando à beira do rio.

Seoul é um caso urbanístico interessante já que, junto com este tipo de reforma urbana, recentemente alteraram a permissão de construir de um equivalente a um índice de aproveitamento de 3 (área construída total de três vezes a área do terreno) para 10, próximo ao que acontece Manhattan. Na Av. Ipiranga este índice de aproveitamento gira em torno de 1,9 segundo o Plano Diretor de Porto Alegre.

Permitir a aglomeração de pessoas e atividades resulta na menor dependência do automóvel para se locomover, e esta foi a alternativa usada por Seoul na sua reforma urbana, permitindo que obras públicas como a do Arroio Cheonggyecheon sejam bem utilizadas. Se o Arroio Dilúvio for revitalizado dentro da situação urbana atual de Porto Alegre, com índices de aproveitamento e densidades baixos, as margens seriam reconstruídas para serem inutilizadas, já que pouquíssimos pedestres atravessariam a movimentada Av. Ipiranga para passearem sozinhos à beira do rio.

Eu também sou favorável à reforma do Dilúvio, mas outras mudanças também devem acompanhar para que ela se torne viável. Inclusive, a venda de potencial construtivo poderia servir como forma de financiamento para viabilizar a obra, já que Porto Alegre certamente dependeria de repasses federais adicionais para executá-la.

  1. Anonymous

    Fantástico este posto parabéns!

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