Atenas clássica e a importância dos espaços coletivos

Atenas clássica e a importância dos espaços coletivos

O sucesso de Atenas passa tanto pela receptividade com a chegada de mentes brilhantes, como por abrigar um espaço público destinado ao livre pensar.

11 de abril de 2019

Nas aulas de urbanismo, programas de TV, na fala de políticos ou conversando com um cidadão comum, ouvimos a importância da construção e revitalização de espaços públicos para as cidades, como praças, parques, a própria rua, etc. Todavia, outro importante aspecto destes lugares costuma passar despercebido: seu poder para ser um ambiente de troca e amadurecimento de ideias.

Ramanujah, importante matemático indiano do início do século XX, precisou viajar até a Inglaterra para desenvolver seu trabalho junto ao professor Godfrey Harold Hardy, conforme relatado no filme “O Homem que conheceu o infinito”. Ramanujah já tinha uma mente brilhante e dominava a matemática avançada, mas faltava a ele o contato e troca de conhecimento com pessoas que entendessem a sua obra, o que não encontrava em seu pobre povoado na Índia. As condições da Inglaterra no início do século XX foram fundamentais para atrair Ramanujah e tantos outros intelectuais dos cinco cantos do mundo, que contribuíram para o avanço científico nas mais diversas áreas do conhecimento humano.

Muito antes das grandes personalidades nascerem, uma cidade na península grega conseguiu ser a catalizadora de um dos maiores movimentos intelectuais da história e posteriormente berço da Democracia: Atenas. Mas afinal, quais os principais fatores que proporcionaram essa realidade e como sua configuração estimulou este desenvolvimento? Para entender isso, é necessário entender um pouco da civilização grega e da estrutura urbana de Atenas.

 

A cidade de Atenas 

Os gregos construíram uma das civilizações mais avançadas da idade antiga no que diz respeito ao domínio das ciências, arquitetura, política e filosofia. Sua cidade mais conhecida, Atenas, foi lar de grandes realizações, descobertas e invenções, abrigando, para isso, algumas das maiores mentes do mundo antigo, como Platão, Sócrates, Péricles, Sófocles, Aristóteles, entre outros.

Segundo Tucídides, historiador grego e general na Grécia antiga, havia pelo menos 210 mil pessoas livres vivendo em Atenas em 400 a.c.: 40 mil cidadãos, 100 mil não-cidadãos (mulheres, jovens, crianças, entre outros) e mais 70 mil pessoas que pagavam para viver na cidade, mas que não tinham direitos como cidadãos. Por fim, ela ainda contava com um número entre 150 mil a 400 mil escravos.

Atenas, enquanto cidade, era formada pela acrópole, ágora, khora e ástey. A acrópole era o local onde ficavam as edificações públicas e administrativas mais importantes, além do Templo de Atenas, o Parthenon. A ágora ficava abaixo e consistia em um espaço simples, na forma de um quadrilátero, dedicado às reuniões públicas, lazer e ao comércio. O khora correspondia à zona rural, localizado fora das muralhas, e o ástey à zona urbana.

Ágora ateniense em 300 A.C (Fonte: Benévolo, História da cidade)

Boa parte dessas ideias foram amadurecidas e debatidas no principal espaço público da cidade mais influente da Grécia, a ágora. Vários estudiosos do urbanismo, de Benévolo a Munford, destacam a importância da ágora ateniense para a história de Atenas.

Segundo Munford, em seu livro “A história na cidade”, na ágora estava presente a assembleia dos cidadãos, local em que eram discutidos os rumos da cidade, além de conter outros órgãos e espaços para o debate público sobre as questões da sociedade de Atenas. Dessa forma, podemos apontar a ágora como um dos elementos fundamentais para o exercício da democracia ateniense. O espaço também era utilizado pelos grandes filósofos para exercer o livre pensar.

Vale destacar que o espaço era inovador para a época e para a história das cidades, tendo em vista que a maioria dos aglomerados urbanos do mundo antigo não possuíam um local com estas características. As cidades eram, de forma geral, germinadas — em um modelo semelhante às favelas da atualidade — e os espaços livres eram destinados exclusivamente para práticas religiosas e para abrigar os palácios dos imperadores.

Lewis, em seu trabalho intitulado “Rethoric and the architecture of empire in the Athenian Agora” destaca que os gregos entendiam a arquitetura como um elemento de incorporação de ordem política. Com isso, ela serviu ora para impulsionar a democracia ateniense, ora para realçar o poder das suas elites. A retórica — um dos objetivos principais da ágora — foi o motor da vida pública ateniense, no qual debates sobre a realidade política e cultural de Atenas eram realizados, além de outros assuntos como ciências e filosofia.

Além disso, as condições de Atenas enquanto região portuária e aberta ao comércio, possibilitou a aproximação de outras personalidades ilustres do mundo grego. Aristóteles, natural de Estagira, mudou-se para Atenas onde se tornou aluno de Platão. Tal acontecimento seria inimaginável em outra cidade mais fechada a estrangeiros, mesmo no mundo grego, como é o caso de Esparta.

“Qualquer um que aspirasse a ser considerado como educado e culto viajou para Atenas para um período de formação em lógica e retórica, que se tornaram os dois meios aceitos de ensinar filosofia depois de Platão e Isócrates. A cidade estava cheia de estrangeiros ricos, especialmente na ágora.” — Lewis, “Rethoric and the architecture of empire in the Athenian Agora”.

Dessa maneira, estar aberta para o fluxo de ideias e de pessoas foi outro fator fundamental para consolidar Atenas como um dos grandes centros das artes e ciências do mundo antigo.

Escola de Atenas, obra de Rafael Sânzio do século XVI. (Imagem: Wikimedia)

A própria escola de Platão, em que Aristóteles foi aluno, não se tratava de um ambiente construído, como na clássica pintura de Rafael Sânzio, mas consistia em um grupo de sábios e intelectuais que praticavam as suas atividades educacionais ao ar livre, na ágora, o que a torna um elemento fundamental para a criação da filosofia como campo do conhecimento humano do modo como conhecemos hoje. Lewis relata que Platão e Aristóteles, seu aluno, faziam uso da ágora com esta finalidade. Anteriormente, Sócrates, percursor da filosofia, havia feito suas reflexões no mesmo local.

 

Lições e legado da ágora ateniense para os espaços públicos atuais

Rockefeller plaza. (Imagem: Marc Ruaix/Unsplash)

Estamos envoltos de tecnologia, o que facilita a comunicação e a torna quase instantânea. Além disso, é possível enviarmos todos os tipos de arquivos, o que torna o contato físico entre as pessoas facultativo em muitos casos. Todavia, a necessidade do contato físico ainda existe, pois o próprio conceito de cidade está na aglomeração e conexão de pessoas, no qual as cidades devem se apoiar e buscar. A comunicação é efetuada de forma mais satisfatória quando estamos próximos, no mesmo ambiente.

As grandes cidades do mundo sempre foram aquelas que ofereceram as oportunidades para atrair as melhores mentes para crescer tanto no nível econômico quanto no nível sociocultural. Roma, Alexandria e a própria Atenas, na antiguidade. Florença e Gênova, na renascença. Londres e Nova York, nos últimos séculos. E como grandes centros que foram, todas elas apresentavam espaços coletivos — públicos e privados — onde seus cidadãos podiam se reunir com pessoas de interesses comuns — mesmo que com opiniões divergentes — e trocar ideias, aperfeiçoando, ainda que de modo involuntário, sua própria cidade.

Segundo Richard Light, designer de espaços públicos, a ágora ateniense foi perdendo sua função ao longo da história, visto que a sociedade foi mudando ao decorrer do tempo. Todavia, ela pode e deve ser analisada e aproveitada como um exemplo de espaço público que funciona, e profissionais envolvidos com a temática de espaço público devem aproveitar suas potencialidades para o desenvolvimento de espaços contemporâneos, como vem acontecendo em algumas cidades como Atlanta, nos Estados Unidos.

O sucesso de Atenas do mundo antigo passa tanto por ser um local que criou as condições necessárias para a chegada de mentes brilhantes de várias partes do mundo, como por abrigar um espaço público que, por definição, era destinado ao livre pensar. E a ágora, apesar de tão simples, foi capaz de acolher e fomentar o pensamento de algumas das grandes mentes da nossa história, no que configura uma das maiores qualidades que um espaço público pode ter: abrigar o não pensado e, sobretudo, o não planejado.

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