As previsões erraram sobre a decadência do Centro de São Paulo

Avenida São João, no Centro de São Paulo: desordem ou dinamismo? Foto: Diego Torres Silvestre @ Flickr

Avenida São João, no Centro de São Paulo: desordem ou dinamismo? Foto: Diego Torres Silvestre @ Flickr

Andar pelo centro de São Paulo é uma experiência, no mínimo, interessante. Por suas ruas pontilhadas por lojas e restaurantes de todo tipo de oferta e origem, é improvável andar por elas sem ouvir alguma língua estrangeira – dentre as mais de 70 nacionalidades presentes na região – convivendo aparentemente de forma harmônica com as comunidades brasileiras. Pela noite, o trânsito de pessoas por suas calçadas continua, com diferentes níveis sociais e preferências reunindo-se e misturando-se nos diversos bares, teatros, centros culturais e boates, e entre as praças que aparecem aqui e ali entre os fluxos, os cortiços antigos reformados e os terraços dos prédios.

Nos idos dos anos 70, 80 e 90, era comum abrir os jornais paulistanos e se deparar com notícias que demonstravam a paulatina decadência do centro de São Paulo. Ao ler textos de analistas e urbanistas da época – que referenciavam-se no declínio dos núcleos urbanos nos Estados Unidos, com sua intensa suburbanização – não era raro encontrar atestados de falência, que urgiam para o poder público intervir fortemente para evitar que “o centro torne-se terra sem lei, dos zumbis da droga e do crime” – parafraseando um editorial presente na Folha de S. Paulo em 1989, onde um pulso firme seria necessário em todas as esferas.

Desde então, a imagem do centro persiste como a de um lugar perigoso, feio e até inapropriado para uma vivência adequada.


“Pois o tempo passou e, embora inegavelmente ainda com diversos edifícios em estado de má conservação e com a problemática da droga evidente em algumas ruas, o Centro vive atualmente um processo de resgate intenso.”


Pois o tempo passou e, embora inegavelmente ainda com diversos edifícios em estado de má conservação e com a problemática da droga evidente em algumas ruas, o Centro vive atualmente um processo de resgate intenso. Ele é motivado por um setor jovem de classe média-alta, que pressiona os preços para cima e que aguçou o olhar dos incorporadores da cidade. Agora, é comum nos jornais a presença de lançamentos de novas “oportunidades” em alguns humildes metros quadrados próximo a “tudo que São Paulo pode oferecer”.

E o que seria “tudo” isso? Se ainda hoje é comum ouvir termos como “desorganizado”, “sujo”, e “desordenado” para descrever a região central da capital paulista, estes argumentos pouco resistem ao convívio mais intensivo ou ao olhar mais aguçado. Embora certamente atrativos como a oportunidade de toda a semana conhecer a culinária de um país diferente sejam relevantes para seu retorno triunfal, o Centro, em toda esta pluralidade que exala, reflete um papel importantíssimo da metrópole e que, em última análise, parece explicar sua atratividade de hoje.

Historicamente, é polo receptor dos que na cidade chegavam desde que se constituiu. Acompanhando os eixos férreos, onde também estavam as novas indústrias (e seus donos), erguiam-se habitações mistas, em padrão determinado pela evolução das atividades adjacentes. A “elite” então emergente do Brasil, surgida do café e da indústria, se misturou com os trabalhadores de suas atividades por boa parte do século XIX, ao longo dos trilhos. A região é, ainda hoje, o maior entreposto de calçados, cereais, tecidos, equipamentos para motos ou computadores, brinquedos – entre outros – da América Latina. Junte a isso as tantas atividades culturais, iniciativas espontâneas e experiências culturais inerentes à região numa vivacidade que desafia o senso comum.  Isto propiciou, em parte, uma mistura social que até hoje perdura, mas não explica porque ela ocorreu.

O principal motivo reside na alta quantidade de moradias de aluguel, que aqueceria o mercado imobiliário acompanhando as transformações radicais na cidade e transformando o padrão provinciano no fim do século XIX para uma cidade diversa social e economicamente no inicio da década de 20, um período de apenas 20 anos. Até os anos 40, de acordo com compilação de estudos de Lúcio Kowarick em Viver em Risco, 80% dos moradores da cidade eram inquilinos, o que resultou em uma miscelânea de habitações para diversas classes sociais e tamanhos de família – e viabilizava a moradia no local para famílias mais pobres.

Houveram intervenções do poder público que, no afã das crescentes receitas e mesmo por financiado por famílias ricas, construiu monumentos, museus e praças, bem como avenidas e imitações dos bulevares parisienses, sendo o Vale do Anhangabaú exemplo disso. O controle de aluguéis implementado durante a Era Vargas acabou com a viabilidade econômica das moradias de aluguel, acabando com essa oferta de noite para o dia e gerando mais de quatro mil ações de despejo em seis meses. Felizmente, no caso de São Paulo, sua vertiginosa expansão orgânica podou anseios de alguns prefeitos que pretendiam destruir e construir novamente, de acordo com uma idéia pré-concebida de estética apoiada em diretrizes modernistas das “novas cidades”, ao longo do século XX.

Centro de São Paulo. Densidade, proximidade e diversidade de moradias e espaços, em uso misto e à nível da calçada. Imagem: Autor.

Centro de São Paulo. Densidade, proximidade e diversidade de moradias e espaços, em uso misto e à nível da calçada.
Imagem: Autor.

A cidade aspirava para cima e teve verticalização intensa na região central, erguendo-se edifícios hoje icônicos como o Sampaio Moreira (1924) ou o Martinelli (1929). Os edifícios, tanto de moradia como os comerciais, situavam-se junto à calçada, sem recuos e com comércio no térreo. O resultado é uma moradia conveniente, onde que serviços básicos (ou exóticos) estão a distância de alguns passos dos apartamentos, característica que se tornaria incomum nas cidades brasileiras após serem aplicadas exigências de recuos e zoneamentos restritivos que virariam regra e não exceção, especialmente a partir dos anos 50 e 60.

Com pouca regulação sobre os prédios, sem os recuos obrigatórios, coeficientes de construção e incentivos a deixar espaços vazios ou usados como garagem no térreo, o centro cresceu desordenado e ficou como está hoje, então, certo?

Talvez seja exatamente isso que o impulsionou: o ritmo que São Paulo tomou no inicio do século XX se refletiu num centro que cresceu de forma rápida, vertical e eficiente – no sentido que cada espaço é aproveitado, ou para uma praça ou para um edifício. Esta construção, respondendo à demanda do crescimento em um momento de maior liberdade para tal, potencializou e enraizou um padrão que foi a tônica do que viria a ser a cidade como metrópole cosmopolita e dinâmica. O comércio floresceu em diferentes formatos e tipos e, devido a densidade, possibilitou que novos empreendedores e núcleos comerciais fossem se instalando e se prosperando – ou falhando, mas ao menos podendo.

Um imigrante nigeriano recém chegado consegue abrir um barzinho no Morumbi, praticamente a antítese do Centro? E, se abrir, quais as chances de dar certo? Muito além do aluguel acessível, no Centro este empreendedor é beneficiado pela alta densidade demográfica (que permite escala), pelo fluxo de pedestres em calçadas vivas, por uma estrutura que convida a vida “a pé”, por moradores heterogêneos e abertos à novidades – por todos os motivos que fazem da cidade uma cidade, e que explicam o dinamismo econômico evidente na região.

Mesmo que rígidas regras de tombamento, que visam determinar a preservação de patrimônio histórico, tenham engessado seu tecido urbano, afastando a iniciativa privada e reprimindo a oferta imobiliária, e com a realoação dos investimentos municipais para outras regiões, provocando o desbando de empresas e moradores de classes média e alta para as zonas Oeste e Sul, o Centro persiste como o mais diversificado e acessível pólo de oportunidades. Desde os inúmeros e criativos vendedores ambulantes – de chiclete até pomada “milagrosa” – até restaurantes novos nigerianos, armênios ou sul-coreanos que toda semana pipocam pelas ruas, a verdade é que para novidades, em geral, ainda recorre-se ao centro.

Minhocão: seria a solução para problemas de planos mirabolantes mais planos mirabolantes? Foto: Daniel Mitsuo @ Flickr

Minhocão: seria a solução para problemas de planos mirabolantes mais planos mirabolantes? Foto: Daniel Mitsuo @ Flickr

Logo, as evidências e a sua evolução histórica parecem indicar o contrário do sugerido por urbanistas que urgem para a necessidade de intervenções. No caso do centro, ações “de cima-para-baixo”, em diferentes momentos no tempo, pareceram contribuir mais para a saída que para a expansão e melhora das condições no centro. A construção de grandes avenidas e dos anéis de tráfego potencializaram o fluxo para as regiões periféricas ao centro – como a Tiradentes, a “readequação” do Vale do Anhangabaú, mais tarde, o Elevado Costa e Silva (o famigerado Minhocão). Ainda que muitos destes investimentos visavam “embelezar” e “requalificar” o centro, na prática eles agiriam contra a expansão e evolução orgânicos da região, resultando na visível decadência verificada ao longo da década de 70 e 80. Como muito da literatura recente sobre cidades sugere, intervenções radicais acabaram destruindo os potenciais urbanos, potencializando segregação e minando os mecanismos dinâmicos sociais e econômicos. O centro de São Paulo manteve seu potencial apesar destas, não devido à elas.

Um forte indício contrário ao teor das intervenções, que apontavam para o esvaziamento habitacional do centro como irreversível, foi a recente e espontânea reversão do movimento populacional ao centro. Ainda que tomado por um alto índice de prédios ociosos e por restrições que artificialmente interromperam sua oferta como moradia, como as próprias leis de tombamento ou as proibições de garagens no Centro, alienando o perverso mas atual modal de transporte, o Centro voltou com força: de acordo com o IBGE, entre 2001 e 2010 houve crescimento populacional de cerca de 1,5% ao ano – quase o dobro da taxa do município como um todo.


Um forte indício contrário ao teor das intervenções, que apontavam para o esvaziamento habitacional do centro como irreversível, foi a recente e espontânea reversão do movimento populacional ao centro.


Se muitos apontam para a gentrificação, a substituição de moradores mais pobres por mais ricos, como principal causa desse aumento, o Seade mostra um cenário diferente, com o Índice de Vulnerabilidade Social melhorando, refletindo melhora social, e não mera transformação, e o IBGE reporta um forte influxo misto de famílias desde até 3 salários mínimos até entre 7 e 9 salários para a região, o que aponta também para uma maior pluralidade nos cortes sociais. Este retorno é novamente apontado por especialistas como motivado pela conveniência, proximidade com empregos e eixos concentrados de transporte de alta capacidade.

Isso provocou um olhar mais “carinhoso” pela iniciativa privada, refletindo o dinamismo revigorado do centro paulistano na revitalização e transformação da antiga sede da Light em um centro comercial, a profusão de novas lojas na Santa Ifigênia e centro cultural Red Bull Station. A proximidade e a pluralidade faz do centro local ideal para disseminar estas oportunidades, seja por meio do contato do cotidiano em redes sociais autoconstruídas ou por questões básicas como não haver necessidade de trajetos longos pendulares entre casa e trabalho.

O anunciado “fim” do centro de São Paulo, baseado na decadência e desordem alegados – cuja salvação só viria por meio de algum mirabolante plano da cartola de um mágico estadista – nada mais reflete que uma ótica estética exclusivista, segregadora e elitista, imiscuída na opinião pública como “óbvio”, mas evocando a eugenia e o higienismo, de empurrar os tipos sociais que não se enquadram (o pobre, o drogado, o diferente) para baixo do tapete.

O centro e a cidade já tiveram suas doses cavalares de remédios frutos desta visão, e os problemas não foram solucionados – pelo contrário, novas doenças criadas. Para o bem da cidade, o tempo – e a vontade dos tantos que ali iniciam sua vida na cidade – tratou de refutar estas tortas miopias.

  1. Miguel Torres

    Ótimo texto, realmente inspirado. Só achei que o autor pecou por não ter mencionado o papel das incorporadoras no tal crescimento virtuoso – se hoje tão atacadas, em essência elas foram e continuam a ser peça fundamental ao tal dinamismo que o Centro exibe. E, se em parcerias equilibradas e sustentáveis com a iniciativa privada, pode-se chegar a um desenvolvimento interessante para toda a cidade, sem truques.

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    • Luiz Eduardo Peixoto

      Luiz Eduardo Peixoto

      Olá Miguel, obrigado pelo comentário! Eu não dei muito enfoque às incorporadoras porque elas se enquadrariam na iniciativa privada como um todo, como comentei no texto; acredito sim ser essencial o papel destas para o dinamismo econômico e ser um erro grasso de muitas administrações de as verem como as culpadas pela alta dos preços em imóveis – especialmente no caso de São Paulo, onde os dados e a revisão histórica indicam para uma razão centrada na demanda reprimida, por vezes artificialmente por meio de zoneamentos e leis restritivas, como procuro abordar um pouco no texto.
      Sobre parcerias, acho que podem ser frutíferas sim, em teoria – o problema é que, em larga escala, tendem a sufocar a livre iniciativa e prejudicam a dinâmica local, dado que resultam em intervenções de um plano único que não obedece nem se adequa aos mecanismos de mercado. Ademais, muitas vezes são capturadas em benefício de um ou outro agente (ou conjunto de agentes) imiscuído na máquina pública, resultando em uma política pública de benefício duvidoso.

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  2. Renato

    Parabéns pelo texto.

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  3. Marcella Moraes

    Belo texto!!! 🙂 Me espanta o quanto o centro é criticado , quando na verdade ele é essa profusão incrível de pessoas, lugares, diversidade, pluralidade e um verdadeiro oásis em meio a aridez que São Paulo pode sugerir para alguns…

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  4. Paulo M

    A questão disso tudo é a luta entre a utopia branca e conservadora contra o não tão utópico assim: imigrantes africanos e asiáticos, nordestinos, pobres, homossexuais e “tudo o que não presta” no linguajar das classes mais ricas, essas classes cheias de pessoas “boazinhas”, “cristãs” e profundamente avessas ao que não é o espelho de si mesmas.

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