A rua na constituição do espaço urbano
Imagem: Rogerio Cardeman.

A rua na constituição do espaço urbano

As ruas são o espaço livre público. Dificilmente percebemos, mas é através delas que nos apropriamos da cidade, onde a sensação do caminhar acontece.

29 de outubro de 2019

Muitos autores abordam a importância da rua para a vitalidade no espaço urbano. As ruas são o espaço livre público, normalmente cercado de edifícios e que conformam este espaço. Raramente percebemos, mas é deste espaço livre que nos apropriamos da cidade, onde a sensação do caminhar acontece.

Segundo Aldo Rossi, a rua é o elemento urbano de maior permanência na cidade e por isso a importância dela no contexto urbano, pois a cidade muitas vezes muda seu perfil edilício mantendo as dimensões e aspectos formais originais das ruas, que podem ou não mudar de função. Nesta relação entre a rua e o edifício, se faz importante abordar os conceitos de Ashihara sobre a relação dimensional entre a largura da rua e a altura dos edifícios em parâmetros numéricos e espaciais, transformando-se em variáveis que conotam qualidades ambientais distintas. Também é importante destacar nessa análise a contribuição de Nestor Goulart dos Reis Filho ao analisar a constituição tradicional do traçado das cidades brasileiras, resultantes da lógica de traçado português, e as modificações introduzidas pelo urbanismo moderno ao romper com essa estrutura.

Para Jane Jacobs, ao afastar os edifícios das calçadas ou isolar com gradeamento, estamos criando espaços distintos entre público e privado. Para a autora, quanto mais utilização tivermos nas edificações, mais movimento teremos nestas, criando assim, uma vitalidade neste espaço.

Venturi descreve como se constituíam as edificações (cassinos) localizadas na Las Vegas Strip. Ele compara estas edificações com os grande supermercados que projetavam os estacionamentos na parte frontal dos lotes e grandes letreiros luminosos, no limite da rua, que indicavam o que existia ali. Estas quadras, muito extensas, afastavam os pedestres e frequentadores das ruas que se deslocavam preferencialmente de carro. Para Venturi a cidade de Las Vegas era a cidade da percepção do carro, do espalhamento urbano e a cidade dos sinais.

Las Vegas Strip. (Imagem: Skeeze/Pixabay)

Em diferentes cidades do mundo, do Brasil, e em áreas da própria cidade do Rio de Janeiro, encontramos distintas relações entre as ruas e as edificações que as configuram. As diferenças ocorrem tanto pela diversidade cultural e socioeconômica observada entre as cidades, como entre locais de uma mesma cidade.

A prática de fotografar diversas ruas para observar a relação entre o espaço construído e o espaço livre se tornou uma ferramenta de análise sobre a construção da paisagem urbana nas cidades visitadas, e material de comparação com as cidades que abordamos em nossos textos. Abaixo abordaremos aspectos de algumas cidades e áreas visitadas.

Em Hong Kong, na Ásia, podemos perceber o convívio entre edifícios novos, com gabarito acima de 50 pavimentos e edifícios mais antigos com até 15 pavimentos. No entanto, os novos edifícios são erguidos no alinhamento das ruas já existentes, mantendo a largura dos logradouros. As construções em Hong Kong evoluíram, durante muitas décadas, da base conceitual da “shop-house”, o sobrado junto à calçada que tinha uma loja no andar térreo e uma residência no andar superior. Tal modelo evoluiu ao longo do tempo para grandes edifícios no formato “base-torre”, com torres altas afastadas das suas divisas mas com embasamentos comerciais que, por sua vez, tentam manter a relação próxima com a rua. O escalonamento de tal modelo em Hong Kong pode ter tido efeitos adversos: quando edifícios passam a ter 50 pavimentos com embasamentos comerciais de 5 ou 6 andares, a escala de tais empreendimentos às vezes se volta para seu interior, onde os embasamentos se tornam shopping centers centrados em si mesmo ao invés de abertos para a rua.

Hong Kong. (Imagem: Anthony Ling)

Em Pequim a dicotomia entre a velha China, representada pelas construções tradicionais nas áreas centrais, e a cidade de megaempreendimentos em regiões planejadas em áreas mais periféricas, como o novo parque olímpico e o Central Business District, que embora chamado de “central”, se localiza entre o terceiro e o quarto anel viário. Encontramos aqui uma cidade com dois tipos diferentes de relação entre rua e edifício. O primeiro tipo de relação se dá nas hutongs, áreas residenciais tradicionais da cidade, onde as casas das famílias de maior poder aquisitivo se desenvolveram no entorno da Cidade Proibida, com edificações totalmente periféricas ao lote e totalmente voltadas para os pátios internos dos mesmos. Apesar da largura das vias na maioria das vezes não ser elevada nestas áreas, a sensação não é de clausura. Os hutongs até hoje funcionam como comunidades horizontais, onde os espaços públicos internos funcionam como extensões das residências, ou então áreas condominiais fazendo uma analogia à realidade brasileira. Este é um dos motivos, por exemplo, pelo qual ainda é possível ver moradores saindo de suas casas de pijama em meio a estas comunidades.

Hutong em Pequim. (Imagem: Anthony Ling)

O segundo tipo de relação entre a rua e as edificações em Pequim refere-se a avenidas de grandes dimensões, com larguras em torno de 60 a 70 metros, decorrentes do arrasamento, ocorrido no século XX, da tradicional estrutura urbana e que demoliu grande parte dos hutongs para abertura de novas vias. Nessas avenidas os edifícios de gabaritos mais elevados, construídos no século XX de forma isolada no lote, não se relacionam de forma direta com a rua, e foram implantados para transmitir a sensação de monumentalidade.

Grandes avenidas de Pequim. (Imagem: Anthony Ling)

Em Tóquio, apesar da visão internacional da cidade como um mar de arranha-céus, a grande maioria da sua urbanização é de baixa altura, com terrenos pequenos e ruas estreitas, resultado de uma urbanização que já era pujante mais de um século atrás, quando a antiga Edo já atingia um milhão de habitantes. Diferente do Brasil, que foca os recuos na tentativa normalmente frustrada de gerar habitabilidade nas edificações, a legislação de Tóquio foca em manter a iluminação nos espaços públicos, restringindo a altura das edificações a partir desse princípio. Tóquio mantém uma estrutura urbana extremamente diversificada, aliado a ruas que são, em grande parte, espaços compartilhados onde pedestres, carros e ciclistas utilizam o mesmo espaço, sem diferenciação de nível entre calçadas e via de tráfego motorizado.

A cidade de Londres, além das questões sociais, econômicas e culturais, se diferencia morfologicamente das cidades anteriores pela estruturação do tecido urbano que leva a uma população residente distribuída de forma mais uniforme em seu território. Tendo como ponto alto a quantidade de parques e incidência de praças e jardins internos às quadras, as edificações em bairros residenciais em sua maioria se relacionam de forma direta com os espaços livres circundantes, mantendo uma relação de equilíbrio. Nesses bairros, os edifícios residenciais de gabarito mais elevado não passam em sua maioria de cinco pavimentos e há uma grande quantidade de pequenos prédios, tipo townhouses, de até três pavimentos. Mesmo o edifício Shard, o mais alto da União Europeia, tem uma relação direta com a rua, e apesar de afinar em direção ao seu topo, como uma pirâmide, tem poucos recuos das suas divisas na sua base.

Shard, em Londres, o edifício mais alto da Europa. (Imagem: TeeFarm/Pixabay)

As cidades americanas, em geral, tem como característica duas situações: nos subúrbios encontramos ruas largas com edificações afastadas do alinhamento e uma predominância do uso do carro. Legislações locais exigem tamanhos mínimos de lotes gigantescos, assim como a exigência de recuos amplos (principalmente frontais, caracterizando o “lawn” americano) assim como o zoneamento exclusivamente residencial dentro dos subúrbios. O comércio quase sempre se localiza em pequenos e grandes shoppings com estacionamento na frente, os chamados “strip malls”. Nas áreas centrais dessas cidades podemos perceber que os edifícios se alinham à rua e propiciam uma relação mais próxima entre espaço público e privado. Isso ocorre tanto em cidades grandes, como Los Angeles e Chicago, como em pequenas como Santa Bárbara. Diferente do imaginário de muitos, grandes cidades intensamente urbanizadas como Nova York ou San Francisco são exceções no padrão de urbanização americano de forma geral, onde a maioria da população vive em zonas residenciais suburbanas.

Na cidade do Rio de Janeiro existem diversas situações encontradas em que podemos observar relações distintas, e a maior parte dos parâmetros urbanísticos vigentes na cidade não faz menção direta à relação entre as dimensões das ruas e os gabaritos de altura permitidos para as edificações. A construção da cidade se deu, em sua grande maioria, pela sucessão de edificações feitas em lotes que originalmente serviam a casas, e que com o passar do tempo e mudanças da legislação foram sendo demolidas e edificadas com o novo gabarito. Isso pode ser percebido em bairros mais tradicionais como Copacabana. Porém em áreas de expansão mais recente, como em Vargem Grande na Baixada de Jacarepaguá, a forma urbana também é resultado do seu perfil fundiário que vem do lote agrícola, com mais de 10 mil metros quadrados, o que possibilitou a construção de condomínios residenciais afastados do alinhamento da rua e cercados por muros, o que tira a função de caminhabilidade para o pedestre, visto que todo o lazer e alguns serviços se encontram dentro desses condomínios. Não existe praça pública e raramente encontra-se comércio local. Como mostra o estudo de Netto, Vargas e Saboya, a exigência de afastamentos frontais e laterais em cidades brasileiras está diretamente relacionada à caminhabilidade e à presença de pedestres nas ruas da cidade.

Vargem Grande. (Imagem: Rogerio Cardeman)

A urbanização brasileira a partir da década de 60, após a inauguração de Brasília e junto ao grande salto de urbanização da sociedade brasileira, tanto verticalizou suas estruturas existentes com edificações isoladas nos terrenos, com usos voltados para seu interior e não para a rua, assim como urbanizou grandes áreas periféricas, ora em condomínios, ora loteamentos unifamiliares, em uma tropicalização do modelo suburbano americano.
A diversidade ao caminhar nas ruas das cidades do Brasil e do mundo é o que nos instiga a querer conhecê-las e nos apropriarmos delas. Ao estudá-las não queremos ter uma fórmula perfeita para a constituição da forma urbana mas sim princípios que possam ser aplicados em cada situação, lembrando sempre que cada cidade tem ainda uma contribuição social e cultural que as distingue e se reflete no espaço urbano.

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  • Sou super fã de revitalização de espaços públicos, infelizmente aqui no Brasil ainda estamos engatinhando. Cinema ao ar livre, feiras, e parklets, é uma ótima opção para o comércio público e interação social.

  • Uma pergunta: qual é o peso do fator “segurança pública” na determinação do padrão brasileiro de urbanização, que prioriza as construções cercadas por muros em detrimento da fachada ativa? Em um país com taxa de 70 mil homicídios por ano, como convencer as incorporadoras e os clientes a voltar suas atividades comerciais e de lazer para fora do lote, na calçada, na rua, onde a bandidagem está a espreita, em vez de para dentro do próprio lote, no conforto e segurança (mesmo que psicológica) que os muros podem proporcionar?