Trânsito na cidade medieval

Pintura de Chester, Inglaterra por Louise Wayner. Foto: Wikipedia Commons.

Pintura de Chester, Inglaterra por Louise Wayner. Foto: Wikipedia Commons.

A cidade medieval era vista como um lugar lotado e efervescente, com pessoas, cavalos, carroças e carruagens se deslocando para todos os lados. Como em nossa cidade moderna, isso levaria a problemas inevitáveis de tráfego.

Em seu livro “Street Life in Medieval England”, G.T. Salusbury dedica um capítulo inteiro a problemas de trânsito medievais. Desde obstruções nas vias até acidentes entre carroças, revelam que as autoridades locais se mantinham ocupados lidando com alívio ao congestionamento nas ruas.

Talvez o problema mais comum fosse o aparentemente infinito esforço ao qual as autoridades urbanas se dedicavam garantindo que seus residentes não bloqueariam as vias. Esses problemas poderiam ser pequenos – como alguém deixar materiais de construção nas vias, ou um mercador decidindo espalhar seus produtos pelo caminho, mas prefeitos de cidades medievais costumavam acrescentar novas leis para lidar com essas situações. Se você vendesse roupas velhas em Bristol, deveria mantê-las em seus braços, e se fosse um mercador de feno em Northampton, poderia somente carregá-lo sobre sua cabeça até que o vendesse.

Lidar com congestionamento foi, provavelmente, o motivo do aumento de regulações sobre os mercados de rua no final da Idade Média. As cidades passavam leis dizendo onde e quando mercados poderiam operar, quão grandes as barracas dos mercadores poderiam ser, e até garantir que certas pessoas não poderiam passar por lá em determinados horários. Salusbury explica, “nem todas as regulações eram resultados conscientes de uma política de controle de tráfego, mas todas ajudaram de alguma maneira a assegurar uma solução para o problema de lotação nas vias, e afetaram igualmente o tráfego sobre rodas e de pedestres.”


“Lidar com congestionamento foi, provavelmente, o motivo do aumento de regulações sobre os mercados de rua no final da Idade Média.”


O poder público também tinha que controlar os proprietários que queriam expandir suas residências, frequentemente invadindo espaços das vias adjacentes. Ao perceber que ruas estreitas seriam impedidas, prefeitos e vereadores determinavam que proprietários não procedessem com seus planos de expansão e, em alguns casos, que demolissem partes da edificação. Os esforços para barrar essas expansões significaram até mesmo contrariar o rei – durante o ano de 1312, o Rei Eduardo II escreveu para a cidade de Londres que gostaria de expandir uma de suas casas. O prefeito e oficiais responderam, negando o pedido. Entre as diversas razões, citaram “que carroças com o costume de carregar lenha no cais Castle Baynard têm o hábito de passar por aquele local, como trajeto comum; portanto, se sobrepusessem construções, aquelas mesmas carroças, ao se encontrarem ali, não seriam capazes de passar por causa da largura da via insuficiente”. Como se não fosse suficiente, acrescentaram, “se acontecesse de a Rainha ter que passar nessa via com sua carruagem, tal edificação poderia ser um empecilho, ou ao ter que virar a carruagem, ou no caso de coincidir com outra carruagem por ali”.

Outro problema para as autoridades locais era o hábito de residentes de manter animais e deixá-los soltos pelas vias. Os mais problemáticos entre esses eram os porcos – seus donos costumavam deixá-los para fora, sabendo que iriam revirar os lixos por comida, mas levariam também a mais desordem nas vias, às vezes até derrubando outras pessoas. O poder público em toda a Inglaterra buscava meios de parar com essa prática, com Londres e outras cidades emitindo ordens para sacrificar automaticamente porcos que fossem encontrados vagando pelas ruas – e caso o proprietário quisesse recuperar seus restos, deveria pagar quatro pence. Outras cidades também tinham regras para que cachorros ficassem em correntes ou coleiras. Carroças ou carrinhos poderiam ser outro problema de tráfego na Idade Média, a começar pelo fato de muitos terem rodas revestidas em ferro, que danificavam o calçamento das vias. Esses muitas vezes eram banidos. Em ocasiões, haveria limites de quantas carroças poderiam circular em determinada área ou atravessar os portões das cidades, pois muitas pessoas reclamavam que havia muitos deles.

Outro problema era que carroças andavam rápido demais. No que parece ser a primeira legislação de limite de velocidade, a cidade de Londres incluiu essa lei em suas regras do século 15, o Liber Albus: “nenhum condutor deve dirigir sua carroça descarregada mais rapidamente do que quando carregada; para evitar riscos e reclamações, sob pena de pagar quarenta pence à Câmara, ou ter seu corpo submetido à prisão sob vontade do Prefeito.”

Enquanto raramente vemos menção de má condução na Idade Média, há casos reportados de pessoas mortas em acidentes. Em um caso de Londres em 1336, “dois condutores levando duas carroças vazias para fora da cidade impondo velocidade a seus cavalos, quando as rodas de um dos carros colapsaram”. O carro caiu sobre Agnes de Cicestre, a matando. Em outro caso, também de Londres, Ralph de Mymmes, um garoto de 12 anos, dirigia uma carroça com cascos cheios de água, sendo puxado por dois cavalos quando uma de suas rodas atingiu um garoto de sete anos chamado John Stolere, que sentava na via para se relaxar. John morreu na hora, e Ralph fugiu deixando o carro e seus cavalos para trás.

Salusbury conclui:

“Uma pesquisa sobre regulações viárias medievais pode gerar uma imagem de muito alvoroço e confusão, de barulho e poeira e movimento confinado, na qual todos os esforços de oficiais locais nunca conseguiria deixá-las mais ordenadas, limpas e livres para deslocamentos, mas essa imagem tem um tom notavelmente rural, e há algo sobre os próprios riscos do tráfego que o fazem mais humano e agradável do que qualquer visão de uma via movimentada dos dias atuais, onde apesar do asfalto, sinalização, códigos e decoro, os nervos estão sempre tensos e mortes chegam como um criminoso metálico.”

Este artigo foi originalmente publicado no site Medievalists.net em 19 de janeiro de 2016. Foi traduzido por Lucas Magalhães, revisado por Anthony Ling e publicado neste site com a autorização do autor.

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