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Queremos sim a “copacabanização” das cidades
Imagem: Rogerio Cardeman.

Queremos sim a “copacabanização” das cidades

Copacabana, onde as ruas dão na praia, onde as calçadas são largas e o comércio no térreo é abundante, não deve ser demonizada mas sim servir de exemplo.

4 de abril de 2022

Quando comecei o mestrado, em 2008, escolhi o bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, como objeto de estudo. Uma das motivações era saber que a literatura que citava o bairro tinha um discurso quase imaginário, um “achismo”. Não havia textos que entrassem nas questões da morfologia e da construção da sua paisagem. Em sua maioria, os livros se debruçavam somente em sua história.

Um dos “achismos” era a ocupação exacerbada, sem espaços livres, causando desconforto à população do bairro. Após levantar a área de todos os edifícios do local, considerando só os lotes privados, cheguei a uma taxa de ocupação líquida de apenas 53%. Muitos destes espaços estavam escondidos dentro das quadras. Ou seja, caía por terra um dos argumentos para desqualificar a ocupação do bairro.

Vista aérea do interior das quadras
Os espaços livres intraquadras trazem qualidade à forma urbana do bairro e aos moradores. (Imagem: Rogerio Cardeman)

Na época, conversei informalmente com diversos moradores sobre a diferença entre morar de frente ou de fundos e o que achavam do bairro. A maioria preferia morar de fundos para os espaços livres existentes, e nenhum cogitava sair do bairro. Diziam: “aqui eu tenho tudo perto, é muito confortável”.

Acreditei que tinha contribuído para melhorar o entendimento do bairro, especialmente entre a comunidade de arquitetos e urbanistas. No entanto, durante a discussão do Plano Diretor da cidade do Rio de Janeiro, neste ano de 2022, me deparei com a palavra “copacabanização”. Era a primeira vez que ouvia esse termo, e se referia a transformar partes da cidade em áreas densas e verticalizadas. Isso era dito de forma pejorativa e desqualificante em termos de modelo urbanístico.

Bom, eu afirmo que quero a “copacabanização” das cidades.

Muito se fala dentro do urbanismo sobre cidades compactas, menos dispersas, mais densas, onde podemos encontrar próximo, em um percurso relativamente curto, diversos usos como comércio e serviços, moradia e lazer. É possível chamar também de cidade de usos mistos. Sabemos que os espaços urbanos que mais reconhecemos por sua vitalidade têm esses atributos.

Onde, na cidade do Rio de Janeiro, temos estações de metrô, lazer, trabalho, comércio e moradia para diversas faixas de renda? Copacabana possui quatro estações de metrô, praças e praia, além de um uso misto rico em diversidade. Há inclusive edifícios em que parte é residência e parte é serviço, convivendo juntos sem separação de circulações — o que é proibido para novas edificações. Temos moradias de vários tipos, desde quitinetes até os grandes apartamentos, onde a população de diversas faixas de renda convive no espaço público de forma democrática.

É claro que, como todo Plano, o de Copacabana tem seus erros. O aumento do gabarito em dois pavimentos, em 1956, trouxe a sensação de enclausuramento em algumas ruas. Além disso, a não continuidade da implantação dos pavimentos térreos em pilotis atrapalhou a circulação de ar pelas quadras. Deveríamos sim cuidar melhor do bairro, que está muito maltratado, com calçadas esburacadas e sujas, e o mobiliário urbano destruído.

Mas é difícil acreditar que usem esse termo para desqualificar um espaço urbano que deveria ser exaltado. Deveríamos sim ocupar e adensar os espaços vazios que ainda existem ali, completando seu perfil edilício e sua forma urbana. Deveríamos usar o bairro de Copacabana como objeto de estudo do que deu certo e errado, e não desqualificá-lo com palavras sem sentido, sem pesquisa e sem propósito.

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COMENTÁRIOS

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  • Eu entendi a parte do texto aonde é citado a praticidade de se ter tudo perto de você, sem precisar pegar um carro para fazer uma simples compra. Onde se tem lazer, comércio, transporte tudo perto de você. Leiam o texto por gentileza antes de comentar galera!

  • O uso misto de edificações sem dúvida é uma virtude, pois torna o dia a dia muito mais prático e faz a região muito mais viva. Mas Copacabana é adensada demais por conta do gabarito muito alto dos prédios. E a falta de espaçamento entre eles não permite circulação de ar. Além disso, faltam ciclovias no bairro. Por isso tudo, acho que é um local que deve ser estudado, mas seus problemas devem ser observados pra não exportar os vários erros que aconteceram ali.

  • Infelizmente o papel aceita tudo, até teses de mestrado que pretendendo demonstrar erudição apenas mostram falta de juízo e bom senso. Como já dizia um filósofo alemão,há mais de 200 anos, todo absurdo tem seu porta voz… A ocupação urbanística de Copacabana eh um exemplo do que deve ser evitado, apenas beneficia a especulação imobiliária.

    • Copacabana e bairros similares são o melhor dos mundos em termos de ocupação, não à toa permanecem valorizados e quem mora lá dificilmente sai. A vitalidade e praticidade são sim coisas que devem ser copiadas. Moro em Icaraí, Niterói, e o modelo do bairro é similar ao carioca, e não por acaso, lar de quase um quarto dos niteroienses. Sim deveria ser copiado e espalhado pela cidade e modelos como o da Barra deveriam ser enterrados.

  • Infelizmente o que mais prejudicou Copacabana foi justamente a chegada do metrô. Quando não havia dificilmente alguém que mora nos subúrbios ou na baixada fluminense vinham, a não ser que fosse por lazer na praia e ainda assim com restrições por causas da distância, que só era acessível vindo de ônibus ou carro. Um trabalhador que morasse no subúrbio dificilmente se aventurava a trabalhar no bairro por causa da distância. No máximo até o centro da cidade. Portanto o bairro sem a vinda de todos os moradores da cidade era praticamente dos seus habitantes. O bairro era mais selecionado e tranquilo. Agora com a vinda do metrô vem tudo quanto é tipo de gente trazendo para o bairro cracudos, mendigos, ladrões, marginais e o bairro se vulgarizou.

    • Tá me parecendo um comentário discriminatório contra o povo mais humilde que precisa também ter uma visão do que pode alcançar para ter uma vida mais satisfatória, sob o ponto de vista econômico, pelo menos!Cheio de preconceito, este comentário , daqui a pouco vai propor a construção do Muro da Pavuna!

  • Como turista paulistano, gosto bastante de Copacabana pela diversidade de ocupações que mencionou.
    Infelizmente a AV. Nossa Sra de Copacabana destoa nesse cenário pelo trânsito intenso, poluição pelos ônibus e calçadas estreitas.
    Uma revitalização dessa artéria traria muitos benefícios a cidade como um todo: ampliação das calçadas, ciclovia, transporte público elétrico e restrições aos automóveis.

  • Copacabana e um bairro abandonado, com calçadas imundas de pedras portuguesa soltas (nem em Portugal se usa essa droga de piso) cheio de padrão, morador de rua, vazamentos de esgoto etc, deviam estar preocupados e arrumar esse pardieiro que querer fazer da cidade igual

  • Nos últimos 30, 40 anos, o que vemos é que, gradativamente, nada do RJ pode ser exportado para o país. Nenhum conceito. Atualmente, chegamos ao ponto em que a deterioração gradual do estado e de sua corrompida e corrupta capital atingiu o patamar onde absolutamente nada pode ser exportado, seja ideia, seja comportamento. A começar pela ingovernabilidade total que presenciamos sempre que olhamos as coisas do estado. Para quem criou a “Lei de Gerson”, nada surpreende o que vemos hoje. Comércio de rua e calçada larga… talvez seja necessário aos articulistas percorrer mais o país. Talve, também, seja necessário ver o mapa de saneamento básico das cidades brasileiras, recém editado. Para começar a querer sair do “Caos Planejado” (ou apenas caos), já é um bom começo.

  • Copacabana, um bairro decadente, onde a prostituição, tráfico de drogas, assaltos e toda sorte de crimes são praticados diuturnamente. Como pode alguém em sã consciência desejar isso como modelo a ser seguido?
    Longe da fama conquistada outrora, hoje, nada resta daquilo que lhe rendeu a fama e o título de “Princesinha do Mar”.
    Longe disso, Copacabana tornou-se um arremedo sem graça da graça que outrora teve.

  • Sou de Florianópolis, adora passear no Rio e me hospedar em Copacabana. Um bairro que te muitos défice, mas parece que está sempre em festa. Os políticos que tem que revitalizar os espaços. Dando manutenção e fazendo melhorias e trabalhar mais na segurança. Amo Copacabana!!!💙💙💙💙

  • Muito bem colocado. Mas vejo que existe uma urgência em reestruturar o bairro. Já está sim obsoleto, pois conforme você destaca, esse bairro é denso, com multi-uso mas não tem ciclovias segregadas, pontos de ônibus confortáveis. além da ausência de um planejamento viário para a descarga dos produtos para os comerciantes., causando um intenso transito.

  • Copacabana tem diversos prédios com péssima qualidade de vida, fundos escuros e sem circulação de ar. Há, ainda, muitos prédios sem qualquer vaga de estacionamento, prejudicando a perspectiva do automóvel. O carro é um maximizador das liberdades individuais e sem carro, não há liberdade plena. Para piorar, Copacabana se tornou um desastre na segurança pública. Em outras palavras, o Caos. Cidade boa é uma cidade diversa plural. Uma grande Copacabana faria do Rio mais pobre.

    • 1) Eu considero, sinceramente, que FELIZ É O RIO de ter bairros tão diferentes como a Barra e Copacabana. Fica ao gosto do cliente as opções.

      2) Morar na Barra também DIVERSAS VANTAGENS que Copacabana não tem. Exemplos? Uma oferta de vagas MUITO MAIOR em prédios comerciais, residenciais, etc. Outra vantagem? Os condomínios tem mais espaço ao livre. Vista ampla! Circulação de ar! Natureza! Muitos com quadras de esporte.

      Idealizar Copacabana é furada. Tem coisa até melhor na própria Zona Sul, como o Leblon, com suas calçadas mais bonitas e um gabarito mais baixo.

      • Copacabana ficou muito abandonada sem ordem pública da a impressão que o tráfico de drogas domina a região

    • Prezados Rogério e David,
      Sou admirador do trabalho de vocês, que provocam sempre discussões produtivas.
      Mas vamos combinar, como disse o Gabriel, nem Copa nem Barra, Leblon!
      Brincadeiras à parte, vejo que o maior problema é cada época ter sempre um modelo, um paradigma a ser seguido. Antes o rodoviarismo total, agora a copacabanização redimida. Não pode ter um meio termo não?
      Liberdade de escolha, e também de possibilidades econômicas, e de etapas de vida, pra cada família.
      Copacabana, inversamente à Barra, pode ser ruim pra crianças, boa pra adolescentes, menos pra idade adulta e ótima pra idosos.
      Não há como negar que, num Leblon, com densidade um pouco menor, temos uma urbanidade mais adequada, o que faz com que se torne um bairro mais valorizado, gerando um círculo virtuoso.

      • Bruno, meu entendimento a partir do texto do Rogerio é que a urbanidade no modelo de Copacabana é que é escasso nas nossas cidades, por isso a sua defesa, não necessariamente uma receita para todos. Se alguém quiser a vida em baixa densidade ela é muito abundante, seja no Recreio, seja em Vargem Grande, seja na zona rural, seja no interior do estado do RJ. É a vida urbana, em densidades e até mesmo alturas maiores, que normalmente é restrita no desenvolvimento urbano das nossas cidades, tornando essa opção menos disponível.

        • Anthony, concordo plenamente. Só vejo que a crítica mais contundente a Copacabana é pelo excesso de densidade, e os problemas que disso decorrem. O Rogério avaliou em 53%, o que é bastante como média, considerando o todo do bairro.
          Será que tanta densidade é o ideal? Para uns sim, outros não. O discurso atual pela cidade compacta, plural, diversa e democrática pode às vezes passar a ideia que aquela que não seja isso, ou que ofereça pouco disso, não é boa. A diversidade da cidade deve ser também o que você colocou, oferecer às pessoas os modelos que elas desejam para cada momento da vida. Minha observação foi só no sentido que antes Copa era ruim e Barra era boa, hoje pode ser o contrário, quando a cidade, na sua pluralidade, pode e deve contemplar diversos padrões.