Microtransporte: Entrevista com Onésimo Flores

Nesta entrevista, Marcos Paulo Schlickmann conversa com Onésimo Flores, fundador da Jetty, uma (espécie de) companhia de microtransporte da Cidade do México.

Onésimo Flores (à direita), no CoRe Foro Urbano 2016.
 

Marcos Schlickmann: Obrigado por participar desta entrevista. Para começar, gostaria que você se apresentasse e falasse um pouco sobre como surgiu a Jetty e qual sua ideia por trás deste projeto.

Onésimo Flores: Me chamo Onésimo Flores e sou fundador da Jetty. Tenho PhD em Planejamento Urbano pelo MIT e mestrado em Política Pública em Harvard. Me graduei em Direito pela Universidad Iberoamericana, no México.

O Jetty surgiu como contraponto à abordagem conflitante da regulamentação do transporte público em um lugar como o México, onde você tinha, em um extremo, um serviço de transporte público escasso, muito bem regulado e de baixa qualidade, operado por empresas de vans privadas, informais e artesanais; e em outro, o surgimento dos aplicativos de corrida e táxi, não apenas o Uber, mas vários outros, que desfrutam de muita margem regulatória para estabelecer e cobrar suas tarifas, operar em qualquer lugar, abrir o mercado para pessoas que tivessem tempo livre e veículos à disposição. Então, nesse contexto, a hipótese era que, de certa forma, aplicativos como o Uber tornaram possível padronizar um nível de serviço: as pessoas sabem o que esperar, sabem que alguém será responsabilizado se algo der errado, conhecem o básico da viagem, a maneira como a tarifa é definida, a qualidade do motorista. O nível de informação que os passageiros recebem é padronizado, não importa quem seja o fornecedor dos serviços. Assim, a ideia da Jetty é que possamos fazer algo semelhante para o transporte coletivo, no qual não abrimos mão das economias de escala do uso de veículos maiores, mas damos ao público acesso às melhorias de serviço que são possibilitadas pela tecnologia.

 

MS: Fale um pouco sobre o cenário da mobilidade urbana na Cidade do México: quais são os principais desafios e como e por que você acha que a Jetty era uma opção necessária para os cidadãos dessa grande metrópole?

OF: Na Cidade do México o que existe é um transporte público precário, você tem um serviço público relativamente pequeno e subsidiado que, combinado, movimenta diariamente cerca de 5,5 milhões de viagens; junto com ele, você tem outra rede de transporte público essencialmente privatizada, dirigida por milhares e milhares de empreendedores de pequena escala que enfrentam uma tarifa rigidamente regulamentada: eles não podem cobrar o que querem, qualquer coisa além da tarifa é constantemente renegociada com o governo. Os colectivos, os peseros, as vans… esses caras são realmente a força de trabalho da mobilidade na Cidade do México. Eles realizam quase 12 milhões de viagens todos os dias, mais do que o dobro da rede subsidiada publicamente.

O Jetty começou suas operações em agosto de 2017. (Imagem: Jetty)

Ao longo dos anos, esta rede de operadores de vans realmente salvou a cidade dos congestionamentos. Eles correm sem exigir dinheiro do governo, cobram uma tarifa muito baixa — aproximadamente US$ 0,30 sem integração de tarifa. Apesar da baixa tarifa, eles são capazes de lucrar, e a razão pela qual isso é possível é que aprenderam a economizar em tudo o que é importante para os passageiros: seguro com cobertura questionável, motoristas sobrecarregados, pouca manutenção dos veículos e contínuo adiamento da renovação da frota, levando às vezes os veículos além de seus limites.

Então você tem uma espécie de problema microeconômico, onde os preços são baixos, a demanda é muito alta, mas a qualidade do serviço é tão baixa que qualquer um capaz de pagar por outra alternativa abandona o transporte público para sempre: eles compram uma moto ou carro, pegam um táxi. Então há esse equilíbrio terrível, um transporte coletivo de baixa qualidade e uma pequena minoria de pessoas que está entupindo a rua com carros. A questão é — e aqui é onde entra a operação da Jetty — até que ponto poderíamos criar outro modo de serviço, um ônibus público de alta qualidade, uma van pública de alta qualidade, que realmente se preocupasse com segurança e conforto, ainda mantendo-se como uma opção mais barata que um táxi e Uber.

 

MS: Vans e colectivos são legalizados na Cidade do México?

OF: Na Cidade do México você pode operar as peruas. Os colectivos e vans não são apenas legais, são uma parte vital do sistema de mobilidade pública.

No caso do México, você tem algumas regras que dão a essas vans certo nível de monopólio sobre algumas áreas ou linhas do serviço, mas a única coisa que o governo tem realmente focado, em termos de regulação, é a tarifa. Existe um grande compromisso em ter o serviço onipresente e acessível, e para isso o governo está disposto a comprometer outras características, como segurança, prestação de contas, regularidade e assim por diante, a fim de manter uma tarifa barata não subsidiada. Então, esses caras são regulamentados, mas de uma forma muito negligente e artesanal.

 

MS: Eles têm a permissão de parar em qualquer lugar da cidade?

OF: As vans recebem uma concessão do governo para operar, e devem ter suas rotas de ônibus aprovadas para que possam essencialmente parar em qualquer lugar ao longo delas. No passado se tentou forçar e determinar paradas específicas, mas elas falharam devido ao modelo de negócio, já que o motorista tem um incentivo muito alto para maximizar as receitas. Se os motoristas tiverem que competir contra outras vans que percorrem a mesma rota, eles farão isso da forma mais ágil para maximizar o número de passageiros a bordo. Então cria-se algo que tem sido chamado na América Latina de guerra do centavo: motoristas lutando por passageiros.

Paseo de la Reforma, Cidade do México. (Imagem: Lucy Nieto/Flickr)
 

MS: Falando um pouco sobre o Jetty. Como funciona? Que tipo de veículos você opera? Tudo é feito pelo aplicativo através do celular?

OF: O Jetty é um sistema no qual o passageiro nos diz onde está e para onde quer ir. Com essas informações, nós encontramos a melhor rota e indicamos os pontos mais próximos para embarque e desembarque. De acordo, o cliente faz a reserva de seu assento. Ele também recebe informações da viagem no celular e notificação quando sua van ou ônibus está se aproximando. Ao embarcar, o motorista verifica o bilhete e permitir a entrada. Ao desembarcar, ele terá a oportunidade de avaliar o serviço, tanto o do motorista quanto a experiência geral. E essas informações serão processadas por nós e discutidas com nossos operadores de ônibus. Trabalhamos com proprietários de frotas, por isso não possuímos os veículos nem contratamos os motoristas, mas somos muito mais ativos, no sentido de estabelecermos os padrões: qual apólice de seguro; qual modelo de veículo; qual salário e benefícios o motorista deve ter; qual treinamento e assim por diante.

Todas as pesquisas respondidas pelos passageiros são agregadas e usadas para determinar se devemos lançar novas rotas de ônibus, ajustar a localização de nossos pontos de coleta, aumentar a frequência do serviço e assim por diante. Portanto, mesmo que não sejamos realmente um serviço sob demanda, certamente nosso serviço é mais sob demanda do que o transporte público tradicional.

Nós começamos com vans de 13, 14 e 19 assentos, mas desde então nós expandimos. Para nós a unidade de análise é o assento, não o tipo de veículo, então nós realmente não nos importamos se é um ônibus, uma van ou um táxi. Na verdade, atualmente temos na nossa rede sedans de 4 lugares, vans e também grandes ônibus com 41 lugares.

 

MS: O Jetty é semelhante a empresas de microtransporte como a Bridj de Boston ou a Chariot de San Francisco? Quais são as diferenças e semelhanças? Em termos de operações, o Jetty trabalha com paradas e rotas otimizadas ou fixas?

OF: Somos parecidos com o Bridj ou o Chariot na medida em que temos um aplicativo, usamos tecnologia, pagamentos digitais, mas o contexto faz uma tremenda diferença em termos do que estamos alcançando. Se você olhar qualquer um dos documentos publicados pelo Bridj ou Chariot, perceberá rapidamente que eles nunca alcançaram escala: seus ônibus ficavam vazios a maior parte do tempo e eles estavam realmente lutando para obter rotas de ônibus economicamente viáveis. Isso porque o contexto é importante!

No caso da Cidade do México (e cidades semelhantes), o que você tem é um sistema de trânsito de baixa qualidade, enquanto nos EUA há um sistema de transporte de alta qualidade. Então ao invés de nos chamarmos de uma empresa de microtransporte, eu diria que somos microrreguladores, no sentido em que estamos estabelecendo os padrões que justificam a disposição dos passageiros para pagar uma tarifa mais alta. Então, em certo sentido, somos planejadores, reguladores do serviço, em vez de um operador direto. Administrar um ônibus sofisticado de alto custo no Vale do Silício nem sequer faz alusão ao que estamos tentando fazer na Cidade do México.

A referência mais próxima ao que estamos fazendo está na Índia: existem poucas empresas em Déli tentando fazer algo como nós, a maior delas é a Shuttl e eles se apresentam como agregadores de ônibus. Então não tenho certeza, direi que precisamos descobrir um novo rótulo para o que estamos fazendo, microtransporte certamente não nos define.

 

MS: Quando você comumente cobra pela tarifa? Como você decidiu as áreas para começar a operar?

OF: Nossa tarifa mais barata agora é 25 pesos, o que seria um pouco mais de um dólar. Nossa tarifa média é de cerca de 40 pesos, aproximadamente US$ 2. E a tarifa mais cara agora é um pouco superior a US$ 4, já que é um serviço que usa rodovias com pedágios; ele provavelmente custaria US$ 15 de Uber.

Atualmente o Jetty opera basicamente nas horas de pico, cobrindo principalmente viagens casa–trabalho. Temos pontos de destino muito claros nos 3 distritos comerciais da cidade: Santa Fé, Polanco e o Reforma Corridor.

Comparativo dos transportes. (Imagem: Jetty)
 

MS: O Jetty é uma empresa independente ou faz parte de um operador público ou privado? Em termos legais, qual é a posição da empresa?

OF: Jetty não é uma empresa de operadores de ônibus. Ela tem uma camada tecnológica. A indústria de transporte público da Cidade do México é muito territorial e hesitante em tentar coisas novas, e eles estão na defensiva, especialmente depois de observar o que aconteceu com a indústria de táxi com a chegada do Uber. Então ao invés de nos posicionarmos como uma empresa que substitui as atuais empresas de ônibus, estamos tentando nos colocar como a solução para as companhias que possam estar preocupadas com a possível expansão do Uber para ônibus e minivans nos próximos anos.

 

MS: Você acha que o carro privado é o seu principal concorrente?

OF: Cerca de uma vez por mês nós realizamos uma pesquisa para ouvir nossos passageiros e uma pergunta chave que sempre fazemos é: se o Jetty não estivesse disponível, como você completaria sua última viagem? Cerca de 50% deles respondem que pegariam um táxi, um carro particular ou um Uber.

 

MS: Qual sua opinião sobre o transporte autônomo?

OF: Especialistas falam sobre três revoluções: a revolução do transporte autônomo, a revolução dos veículos elétricos e a revolução das viagens compartilhadas. Assim, por exemplo, no caso específico de veículos autônomos, muito provavelmente você irá usá-lo mais intensamente do que você usa agora. Por exemplo, você vai enviá-lo para pegar uma pizza, você vai enviá-lo para pegar seus filhos depois de deixá-lo em seu escritório. Você provavelmente poderia morar a duas horas de distância do seu escritório e ter essas duas horas como as primeiras duas horas do seu dia, podendo tomar café da manhã, ler o jornal, podendo inclusive ter uma bicicleta dentro do carro ou uma academia, tomar banho. Então se você tem veículos autônomos por si só, o resultado líquido para as cidades seria muito provavelmente negativo, com mais dependência do carro, mais congestionamentos, mais espraiamento da cidade.

A alternativa esperançosa é que tanto o veículo elétrico quanto o autônomo se expandam ao mesmo tempo que o transporte compartilhado. Se pudermos ter ônibus elétricos autônomos e eles se tornarem as principais formas de se locomover pela cidade, em que você clica em um telefone e um veículo chega, não apenas pegando você, mas levando todo mundo que faria o mesmo caminho, você teria algum nível de serviço de transporte compartilhado, com um resultado muito mais positivo, cidades mais densas, de uso misto, mais ecologicamente corretas e assim por diante.

Agora, no México, temos perto de 70.000 pessoas que baixaram o aplicativo da Jetty; nossa rede está crescendo e ainda é pequena em relação às necessidades da cidade. Somente quando tivermos milhões de pessoas compartilhando viagens — com a Jetty ou outras plataformas — o verdadeiro potencial positivo das revoluções autônomas, elétricas e compartilhadas será realmente possível.

 

MS: Qual o futuro da Jetty?

OF:  Estamos tentando provar que pessoas capazes de pagar um táxi ou carro particular podem de fato preferir ir de ônibus ou van se estiverem seguras e confortáveis. Também queremos sobreviver como uma pequena startup, provar aos nossos passageiros, aos nossos operadores e aos nossos investidores que podemos oferecer um serviço financeiramente sustentável e, uma vez que o fizermos, começar a pensar em expansão.

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    Alexandre Santos

    Parabéns pela entrevista. É instigante e ponderada, sem nenhum “cavalo de Tróia” ideológico como por vezes vi aqui no blog.
    Essa linha de inovação para a gestão urbana é essencial para a realidade brasileira.
    Adelante.

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Alexandre,

      Fico feliz que você tenha gostado da entrevista, o Onesimo tem diso muito disponível nas conversas.

      Como editor do site aproveito para perguntar o que você se refere como “cavalo de Tróia ideológico”, e se teria algum exemplo para ilustrar o problema. Tentaremos sempre o melhor trabalho possível, seguindo nossa Linha Editorial: https://caosplanejado.com/sobre-caos-planejado/

      Atenciosamente,
      Anthony

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    Daniel

    Uau, não estou sozinho nesse debate, é sim possível ter uma outra solução para a mobilidade urbana. Quantas mais soluções aparecer, melhor é para o usuário.

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