Jefferson e a anti-urbanização estadunidense

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“O Curso do Império: O Estado Selvagem”, Thoma Cole. Imagem: Wikimedia Commons

No decorrer da primeira metade do século XIX, a emergente nação estadunidense começava a consolidar-se como uma referência de progresso no cenário internacional. Fortemente marcada por sua independência da Europa e com a possibilidade de expansão às terras virgens do oeste, os Estados Unidos viria a desenvolver uma visão particular sobre a natureza da virtude e perversão humana intimamente relacionada com a dicotomia entre o campo e a cidade.

O espirito da época

A pintura que ilustra a capa deste artigo é a primeira de uma série composta por cinco telas pintadas por Thomas Cole em 1836 chamada “O Curso do Império”. As obras ilustram a ascensão e queda de uma civilização ocidental que emerge da natureza selvagem, percorre uma gloriosa expansão, até, finalmente, mergulhar no caos.

Thomas Cole foi um dos maiores expoentes do romantismo americano. Nascido na Inglaterra, migrou com sua família para os Estados Unidos aos 17 anos. O pintor, fortemente influenciado pelas paisagens naturais do vasto território dos Estados Unidos, representou, em suas telas, cenários idílicos que contrastam com a realidade terrena das cidades e imagens urbanas.

Ao publicar sua série de pinturas, Cole citou o Canto IV de Lord Byron de sua obra “As Peregrinações de Childe Harold”. O poema descreve as viagens e reflexões de um jovem insatisfeito com o mundo, desiludido com a vida de prazer e deleite, enquanto aprecia a paisagem da terra estrangeira por onde viaja:

“Essa é a moral de todos os contos humanos;

Não é nada mais que o mesmo ensaio usual do passado.

Em primeiro lugar a liberdade e a gloria – quando isso falha,

A riqueza, o vicio, a corrupção – a barbárie ao final.

E a historia, com todos seus vastos volumes,

Não possui mais que uma única página…

As telas, expostas ao longo do texto, refletem uma evolução progressiva da generalização que Cole considerava quase inevitável. A sociedade do inicio do século XIX cultivava uma interpretação um tanto platônica do desenvolvimento da história, onde a estabilidade e o progresso estavam constantemente ameaçados pela vil corrupção escondida em cada esquina, esperando, apenas, sua oportunidade no desvio mais sútil.

O romanticismo pastoril é o “leitmotiv” (motivo principal) do movimento, no qual os agricultores da época ergueram sua bandeira de moral e ordem diante do caótico cenário urbano que o vício e a decadência aparentavam promover.

Jefferson o Arquiteto, Jefferson o Político, Jefferson o Fundador

Um dos maiores exponentes desta filosofia foi o célebre Thomas Jefferson. Jefferson não apenas exerceu uma presença politica importante durante a revolução e fundação dos Estados Unidos, mas também dedicou bastantes esforços no seu desenvolvimento como arquiteto.

Estando bem alinhado com a idiossincrasia americana, Jefferson desenvolveu um estilo arquitetônico que levaria seu nome e que caracterizou-se por tomar a essência do classicismo europeu para, então, despojá-lo de suas maiores ostentações. Utilizando uma mentalidade mais pragmática e modesta, edifícios como Monticelli e a Rotunda constituíram joias do repertório Jeffersoniano que combinava o abundante tijolo estadunidense, a inexperiente mão de obra americana e a simplicidade prática do “apremiante” novo continente.

Porém, sua profissão não viria a ser irrelevante para sua carreira política. A visão arquitetônica e urbanística que possuía do mundo influenciaria seriamente a importância do entorno construído como forjador da cultura.

“Acredito que nossos governos permanecerão virtuosos por muitos séculos; sempre e quando sejamos principalmente agrícolas; e isso sucederá enquanto haja terras a ocupar em qualquer parte da América. Quando nos pilharmos uns sobre os outros, como na Europa, nos tornaremos corruptos como na Europa.” (Jefferson 1787)


“Para Thomas Jefferson, as cidades eram um fiel expoente da corrupção europeia.”


Para Thomas Jefferson, as cidades eram um fiel expoente da corrupção europeia. Assim como nas pinturas de Cole, as urbes eram o cenário central da consolidação e corrupção dos expansivos impérios europeus dos quais a novata nação havia se tornado independente ao custo de uma sangrenta revolução.

Em harmonia com suas ideias e a necessidade de povoar o território – além dos benefícios econômicos que isso representaria – Jefferson promoveu a Ordenança da Terra de 1785, com a qual o Estado obtinha recursos por meio da venda de terras virgens do oeste americano, permitindo, ao mesmo tempo, aumentar a arrecadação e consolidar a ocupação do território de maneira agrária.

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“O Curso do Império: Destruição”, Thoma Cole. Imagem: Wikimedia Commons

O prejuízo da anti-urbanização

“Vejo a grandes cidades tão nocivas à moral, à saúde e às liberdades dos homens. “(Jefferson, The Southern literary messenger 1837)

Jefferson via nas cidades um reflexo da caída de Roma. O Império Romano testemunhou a natureza de sua civilização degradar-se nas mãos do crescimento de sua capital. Os excessos libertinos da capital romana estavam impresso na memória do ocidente como um reflexo das origens da decadência do império, e para Jefferson compunham o motor principal da corrupção.

Para Thomas Jefferson, “A multidão das grandes cidades agrega tanto apoio ao governo puro como as chagas ao fortalecimento do corpo humano.” (Notes on the State of Virginia, 1954), Porém o “fundador” cometeu um erro de interpretação. Em sua urgência por evitar o fracasso do experimento americano, tentou identificar as causas principais da degradação cultural que impulsionava os estados europeus a converterem-se em impérios ditatoriais. Assim, confundia a natureza urbana com cenário forçado das capitais estatais.

Quando Jefferson, igualmente a Thomas Cole, pensava na “cidade”, via a grandeza pomposa e a extravagância estatal das capitais imperiais como Roma. Contudo, estas sempre consistiram exemplos, não do espirito urbano, mas, sim, da vontade cenográfica e da estrutura social imposta pelos estados com o fim de erguer um grande monumento arquitetônico-urbanístico à sua própria glória.

Felizmente, a perspectiva histórica nos permite perceber a diferença entre a natureza da cidade e a natureza da “capital”: a urbe é a expressão espontânea da construção coletiva de milhares de indivíduos livres; a capital é a materialização do ego despótico do leviatã. A origem da construção, corrupção e caída da civilização como império não reside nas cidades como tais; o “curso do império” não é o “curso das cidades”, senão o curso de suas capitais.

Este artigo foi originalmente publicado no site Centro Schumpeter em 27 de maio de 2015. Foi traduzido por Antônio Renner, revisado por Anthony Ling e publicado neste site com autorização do autor.

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