Comunidade Mínima Viável: Lean Startup para Cidades

Recentemente fui entrevistado pelo Zachary Caceres do Startup Cities Institute sobre questões urbanas envolvendo novas cidades, cidades startup incorporadas do zero.

Como a metodologia de Lean Startup se aplica à criação de uma comunidade? Qual deve ser o tamanho de uma Cidade Startup, e o que deve ser planejado? Como organizar uma “Comunidade Mínima Viável”, o Produto Mínimo Viável aplicado à cidades? Como permitir que a cidade encontre seu “product-market fit” e se adapte à necessidades dos moradores assim como startups fazem com aplicativos de celular?

Tentei responder essas questões de forma acessível e direta. Espero que gostem e aguardo comentários sobre o tema abordado. O link para a entrevista original, em inglês, está aqui.

Para quem tiver mais interesse sobre o assunto, tenho desenvolvido o tema de forma mais detalhada nessa página específica do site sobre o assunto, escrita em inglês dado que a implementação e interesse por Cidades Startup tem escala mundial.

Durante o “Startup Cities Weekend 2013”, evento recente da SCI, os participantes apresentaram diversas novas ideias em urbanismo e governança municipal. Nós sentamos com um dos participantes, o arquiteto Anthony Ling, para discutirmos suas ideias de “Comunidade Mínima Viável”.

SCI: Anthony, você conduziu uma iniciativa no mais recente Startup Cities Weekend para analisar designs urbanos para novas cidades. Você poderia compartilhar um pouco de como foi sua experiência no evento?

AL: A minha ideia de discutir planejamento urbano em Cidades Startup foi a mais votada para ter um espaço de trabalho durante o seminário. Isso me permitiu discutir questões fundamentais de planejamento urbano envolvendo Cidades Startup com vários outros participantes.

O principal desafio foi a decisão de qual a quantidade de planejamento que deve ser feita: a cidade inteira deve ser planejada desde o começo? Ou ela deve depender inteiramente de seu crescimento espontâneo, através de vários incorporadores responsáveis por construção e infraestrutura? Qual é a quantidade ideal de regulamentação e planejamento urbano? Esses foram os nossos principais questionamentos durante o evento.

SCI: Durante o fim de semana, você elaborou uma idéia chamada de “Comunidade Mínima Viável”. O que seria isso?

AL: A Comunidade Mínima Viável é uma adaptação direta do conceito já aplicado às cidades conhecido como Minimum Viable Product (MVP), ou “Produto Mínimo Viável”. O MVP é um dos mais importantes conceitos criados pela metodologia do Lean Startup, um recente, mas já popular, método para criar companhias e produtos partindo do zero.

Eu diria que a ideia fundamental do MVP é que é necessário ouvir com cuidado e constantemente aos seus clientes e que você na verdade sabe muito pouco sobre as demandas destes, tendo então que buscar como supri-las e saber como a tecnologia e a competição mudarão as coisas no futuro.

Se isso estiver certo, então não há motivo para se gastar recursos criando um produto já completo e finalizado. Ao invés disso, você faz um Produto Mínimo Viável para ser testado pelos primeiros clientes e consumidores. Você então gradualmente vai polindo e iterando seu produto de acordo com as necessidades dos clientes e a situação atual do mercado.

Isso me levou a conclusão de que a situação não deve ser diferente para as cidades. É só olharmos para nossos cidadãos como sendo os nossos clientes e para a cidade que queremos criar como o nosso produto. Daí o nome: Comunidade Mínima Viável.

SCI: Então, que tipo de elementos uma Comunidade Mínima Viável teria? Como um planejador conseguiria as informações do que o cidadão-cliente precisa?

AL: Que tipo de infraestrutura uma comunidade precisa para se sustentar? Podemos começar pensando sobre os básicos como moradia, espaço comercial, áreas abertas e recreacionais, educação, saúde e segurança. Esses estão freqüentemente presentes em planejamento imobiliários e de moradia.

Há outros serviços e estabelecimentos que também são importantes, mas isso dependerá de onde a comunidade está localizada e se eles já estão sendo oferecidos por comunidades próximas. Alguns exemplos seriam instalações de tratamento de lixo (reciclagem, incineração ou depósitos), uma estação de energia elétrica, um terminal viário e/ou rodoviário e hotéis executivos, que seguidamente servem também como espaços para eventos.

A parte difícil é saber o tamanho de cada parte do programa, e é nisso que o desenvolvedor deve focar sua busca por informação. Parte da informação deve vir do mercado imobiliário atual, como a oferta existente, velocidade das vendas e taxas de ocupação e de vacância. Governos locais próximos e instituições também costumam obter dados sobre as demandas mais importantes dos cidadãos, mas nem sempre eles têm precisão na informação obtida.

Pensando de acordo com a metodologia Lean Startup, depois de uma pesquisa primária, o desenvolvedor provavelmente teria que “sair para rua” ele mesmo: fazer suas próprias pesquisas e falar com outros desenvolvedores e instituições funcionando nas áreas vizinhas para identificar a demanda do cidadão alvo.

Criar ou usar uma já existente plataforma online para permitir que cidadãos e potenciais cidadãos participem na geração dessa informação também é uma opção interessante, e pode até se tornar uma ferramenta permanente para administração da cidade depois que a “Comunidade Mínima Viável” estiver funcionando.

SCI: Depois que se tiver toda essa informação, o mantra do Lean Startup se vira “iterar, iterar, iterar”. Isso não é muito difícil em um website ou app, mas como isso poderia funcionar em uma comunidade? Não seriam necessárias diversas mudanças politicas e administrativas?

AL: Como eu disse antes, uma Cidade Startup – ou qualquer cidade, na verdade – deve se desenvolver por mudanças graduais. Esse é o conceito da “Comunidade Mínima Viável”. A mudança é boa porque demandas, tecnologia, e até mesmo o clima mudam com o tempo, e a cidade deve se adaptar e também mudar. Na prática, esses passos graduais de construção da cidade são a real e efetiva iteração do desenvolvimento do mercado imobiliário.

Explico: empresas do mercado imobiliário normalmente procuram por nichos de mercado: áreas comerciais, residenciais, moradia acessível, infraestrutura e loteamento, etc. Cada tipo de projeto possui diferentes tecnologias de construção, estratégias de marketing e fluxo de caixa, o que faz com que as empresas tendam a se especializar. Isso significa que a iteração é feita por cada companhia, projeto por projeto, construção por construção, constantemente redefinindo estratégias com base em erros do passado e erros feitos pelos seus competidores.

Uma comunidade em crescimento funcionaria da mesma forma, com talvez algumas centenas de empresas fazendo projetos de infraestrutura de bairros e zonas e outras milhares fazendo o mesmo em construções individuais. Muitas cidades britânicas durante a revolução industrial cresceram inteiramente dessa forma, iterando e adaptando seu crescimento construção por construção.

Dessa forma há uma mudança constante no ambiente urbano. Uma cidade precisa disso, mas é algo a ser feito de forma gradual e de baixo para cima.

SCI: Interessante. No fim das contas, essa metodologia diz para que se procure pelo product-market fit (sincronia do produto com o mercado), certo? Depois dele encontrado, você deve expandir, como você está dizendo. Mas o product-market fit parece ser muito mais fácil de definir para um app do que para uma comunidade!

Qual a proposta de valor de uma comunidade? Cidades Startup deveriam tentar se especializar como um app de celular faria, encontrando seus próprios nichos institucionais e de serviço para seus cidadãos-clientes?

AL: Eu penso que aqui a comparação com software fica começa a ficar complicada. É difícil de comparar com um app, porque uma cidade nunca vai ser um produto finalizado com uma única função. Seria melhor dizer que apps seriam como construções individuais em nossa cidade, criadas por pequenos grupos de arquitetos, engenheiros e empreendedores.

Poderíamos tentar comparar a cidade com um sistema operacional, mas eles também são plataformas fechadas onde alguns tipos de apps não funcionam. Melhor seria dizer que os sistemas operacionais seriam como nossos bairros planejados, ou projetos de loteamentos, onde há certas regras a serem seguidas para fazer nossos apps – ou construções – compatíveis. Como eu disse anteriormente, você pode ter um product-market fit para aqueles tipos de projetos junto da Comunidade Mínima Viável, mas parece ser difícil – e até mesmo contraprodutivo – de escolher um deles para toda a cidade a longo prazo.

Se quisermos comparar cidades com software, eu diria que a melhor aproximação não seria com um sistema operacional ou app, mas sim com a própria internet: o plano de fundo conectando tudo que acontece. Nesse sentido, a cidade – assim como a internet – é uma plataforma aberta para relacionamento entre humanos, mas construída através de matéria-prima ao invés de impulsos elétricos de bits e bytes.

SCI: Obrigado, Anthony.

 

AL: Obrigado.

 

 

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