Burocracias Inclinadas

Se, por um lado, a legislação de rampas durante os anos 60 nos EUA representou uma vitória em termos de acessibilidade, o efeito colateral de suas restrições tem transformado a categoria em uma espécie de Babel arquitetônica.

Congresso Nacional -1960 acessível, 2014 não acessível e de entrada barrada.

Congresso Nacional -1960 acessível, 2014 não acessível e de entrada barrada.

“Tim Nugent é o herói desconhecido da rampa de acessibilidade”. Em sua serie de livros “Elements of Architecture” – que propõe uma narrativa da arquitetura a partir dos elementos usados por todo arquiteto, em qualquer lugar ou época – Koolhaas e seu think tank da Harvard School of Design preferem não gastar tanto tempo em ícones da inclinação como Wright e Niemeyer. Optando por uma perspectiva cujo principal interesse é o conjunto construído – não seus arquitetos – a história deste elemento dedica quase um quarto de suas páginas à biografia de uma pessoa relativamente distante da disciplina, um ativista cujo legado alterou completamente a natureza da rampa, suas possibilidades e seu alcance.

Acessibilidade

“cada vez mais a natureza discriminatória do passado é revelada”… a história foi adaptada em nome da acessibilidade.

A atenção dada a Tim não é aleatória, a legislação criada por ele nos anos 60 (ANSI 117.1) foi guia para os códigos de acessibilidade na Alemanha, Russia e Índia, além de uma serie de outros lugares onde sua referência não é explicitamente citada. A globalização da rampa, através de uma linguagem extremamente universal, é parte de seu legado e resultado direto de sua pesquisa. Nugent também ilustra o papel emblemático desempenhado pela guerra nos caminhos da arquitetura – a aceitação internacional de sua lei está diretamente ligada ao número de veteranos deficientes no período. Graças a ele, construções atualmente podem ter sua idade medida em inclinação.

Congresso Nacional -1960 acessível, 2014 não acessível e de entrada barrada.

Não há dúvida sobre a legislação de acessibilidade ser uma conquista para deficientes físicos. Baixa demanda ligada a difíceis pré-requisitos de espaço tornam a conquista de Nugent – ao menos nessa escala – improvável em um ambiente livre de determinações governamentais. Do ponto de vista espaço construído, entretanto, a legislação – ao menos em sua totalidade restritiva crescente, pois nos 50 anos de sua existência a máxima inclinação permitida diminuiu pela metade – tem dado resultado a várias realidades kafkianas. Elas emergem na relação entre a simplicidade legal e a complexidade característica da diversidade de espaços existentes.

Ao não permitir margem para decisões de bom senso, a lei de rampas – assim como qualquer outra – leva inevitavelmente a decisões de pragmatismo estúpido. A rampa de £40.000 – em uma residência de £95.000 – tem 10 patamares e 60 metros de comprimento. Feita para a casa de Claire Lally ela é apenas o ápice destes excessos. Lelé – arquiteto brasileiro conhecido pela funcionalidade de seus edifícios – escreveu nada mais que o óbvio sobre o fato de suas passarelas não serem acessíveis (legalmente): se pessoas tivessem de caminhar 100 metros para chegar ao outro lado da rua elas simplesmente não usariam o equipamento, pondo em risco a si mesmas.

Rampa

“Nós não estávamos lutando por este monstro de metal.” A rampa construída ocupa totalmente o gramado da casa, com 60m de trajeto.

Somado a isso, a restrição legal imposta sobre qualquer superfície inclinada simplesmente excluiu a categoria do campo do design. Com exceção dos museus de arte contemporânea, as rampas como projeto se tornaram um pensamento pós-arquitetônico, um anexo, “você pode comprar uma prefabricada por 60 euros”. Em sua atual condição de plugin, a rampa permite acesso mas carece de identidade.

Nugent permitiu o acesso a construções, mas sua legislação é um passo atrás no acesso à Arquitetura. Para um deficiente, a experiência de qualidade arquitetônica e urbana ainda é limitada, em grande parte, a superfícies em nível. Escapar desta Babel construtiva é de extrema importância – universalidade de acesso não precisa significar universalidade de código.

 

 

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