Automóveis e o campus universitário

Foto por @angello_pro.

Desde que em meados de 2015 os shoppings de Salvador passaram a cobrar pelo uso do estacionamento em suas dependências, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) passou a ser provavelmente o único polo gerador de tráfego entre o Farol da Barra e a avenida Paralela que oferece esse serviço com gratuidade integral. Um polo gerador de tráfego é um equipamento urbano que, sendo destino de trânsito de um número considerável de pessoas, através de veículos coletivos ou individuais, gera impactos ambientais, econômicos e sociais, medidos a partir da capacidade efetiva da malha viária que o atende e as características dos modais de transporte que são utilizados.

O caso da UFBA é exemplar: tendo dobrado o número de estudantes nos últimos quinze anos, situada em bairros predominantemente residenciais, atualmente fortemente adensados sem terem sofrido nenhuma alteração na capacidade de suas vias, a universidade responde por uma parcela substancial do volume de tráfego, por meio de carros ou ônibus, na avenida Ademar de Barros, em Ondina, nas ruas Caetano Moura, na Federação, Araújo Pinho e Basílio da Gama, no Canela, ou mesmo nas avenidas Garibaldi e Vale do Canela.

O momento da cobrança pelo uso do estacionamento dos shoppings coincide com uma mudança nos modos de locomoção na cidade: são abertas as linhas de metrô, os aplicativos de transporte revolucionaram o serviço tradicionalmente oferecido pelos táxis ao ampliar exponencialmente a capacidade, há mais gente usando a bicicleta em um território cujo adensamento construtivo limita radicalmente a estratégia de ampliação de vias. Ainda que não se tenha feito a opção impopular pelo pedágio urbano, é evidente que a cidade está atenta à necessidade de se limitar o emprego do automóvel individual como meio de transporte.

Nesse quadro urbano geral, a UFBA começa a destoar, perfilando-se como uma incentivadora do uso do transporte individual, ao oferecer gratuitamente uma área de 5,5 ha destinada pura e simplesmente a estacionamentos. Essas áreas praticamente não têm outros usos durante todo o ano e consomem verbas em forma de manutenção (jardins e iluminação) e pessoal (limpeza, portaria e segurança). Será que ainda faz sentido destinar uma parte do solo e dos escassos recursos da universidade para o estacionamento de automóveis? Como instituição de produção de conhecimento, compromissada criticamente com os valores da coletividade, ela não deveria servir de exemplo e apresentar à cidade uma proposta de uso do solo que avance na perspectiva da melhoria da qualidade de vida, ao menos como exemplo ao minimizar os impactos sobre sua vizinhança?


A partir de um levantamento no Google Earth, somadas as áreas hoje destinadas a estacionamento no campus do Canela – da Escola de Belas Artes à Faculdade de Direito – e no campus de Ondina – da Faculdade de Ciências Humanas até a de Arquitetura –, chega-se a um valor aproximado de 55.500m² ou 2.200 vagas de veículos. E isso sem considerar o efetivo uso da faixa ao longo das calçadas, em toda a extensão das ruas internas ao campus, também como área de estacionamento.


Se estipularmos, bem realisticamente, que cada uma destas vagas é usada por dois ou três veículos por dia, por um período de 9 ou 10 meses por ano, e considerando que a universidade poderia cobrar pelo uso da vaga o valor exato de uma passagem de ônibus, ou seja, R$ 3,40, garantindo assim a escolha do meio de transporte ao seu estudante, funcionário ou professor sem qualquer prejuízo financeiro, uma vez que esse seria o valor de custo básico para o estudante ir e vir à universidade usufruindo da meia passagem, a universidade teria à disposição um montante anual entre R$ 4 e 5 milhões.

Esses valores, feito obviamente um detalhado estudo de viabilidade, deveriam ter condição não somente de cobrir a manutenção dessas áreas de estacionamento, senão deveriam financiar a médio e longo prazo um plano alternativo de mobilidade, que viesse a ter como meta a minimização do impacto do tráfego de veículo automotor, tornando cada vez menos atrativo o deslocamento até a universidade através de automóveis: por exemplo, medidas como planos inclinados, bicicletários, qualificação contínua da malha para pedestres, levariam a universidade a dar continuidade a ações como a que transformou em praça uma grande área do campus de Ondina, diante da Biblioteca Central, que antes era usada para estacionamento. Trata-se, portanto, de avaliar e dar continuidade a aspectos dessa intervenção tão bem sucedida. Ao final, mais espaço de convívio e recuperação de áreas verdes são exatamente o tipo de resultado com o qual a universidade pode demonstrar à sociedade sua função social.

Da mesma forma que outros serviços que hoje já são regulamentados através de processo de licitação, como é o caso das cantinas ou da segurança, a administração das áreas de estacionamento pode muito bem seguir este modelo de contratação. Mesmo o RU, o restaurante universitário, é administrado nessa modalidade. O RU aliás deveria ser a medida exata da discussão sobre as vagas de estacionamento: se o estudante, em alimentação subsidiada pela universidade, paga R$ 2,50 por uma refeição, porque a universidade deveria subsidiar integralmente, como faz hoje, em uma cidade muito densa e com sérios problemas de tráfego, o serviço de disponibilizar estacionamento de veículos individuais automotores para seus estudantes, funcionários e professores?

Texto publicado originalmente no Teatro Nu em 30 de novembro de 2017.

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    1. Octávio

      Uso carro porque é mais barato que ônibus. Se o ônibus fosse de qualidade e mais barato, não iria pra Unicamp de carro. Cobrar uma taxa dessas, como ele propõe pra ufba, só aumentaria o custo de vida dos que poderiam pagar esse estacionamento e pioraria ainda mais a lotação dos ônibus. Esse artigo na verdade me parece atender aos interesses daqueles mesmos que desejam privatizar a Universidade Pública. Só tenho a lamentar por esse desserviço.

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      • Gustavo

        Erro é querer que a população de baixa renda pague pra que você faça um caro curso superior, e pague ainda o estacionamento pro teu carro. Quer sombra também? Em tempo: considerando todos os custos do automóvel – combustível, manutenção, seguro, lavagens, documentação – de fato é mais caro que o ônibus, ou uber, independente do trajeto que faça.

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    2. Anônimo

      Você vive num mundo de ilusão, a universidade não consegue fazer nada com os recursos que tem imagina se cobrar pelo estacionamento. Além de que, não tem regulação boara tal ideia.

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