Atratividade urbana e o POA CITE

Tenho escrito pouco, mas pretendo voltar com tudo no mês que vem. Um dos motivos da minha ausência é o meu envolvimento com o POA CITE, um grupo de portoalegrenses formado por empreendedores, administradores, arquitetos, investidores de tecnologia e entusiastas por Porto Alegre que pretende revolucionar a cidade tornando-a mais atraente para reter jovens, criar oportunidades, realizar negócios e inovar.

Fui convocado pelo grupo liderado pelo Jose Cesar Martins cerca de dois meses atrás e, com o convite, me dispus a liderar o grupo de Mobilidade dentro do POA CITE que ainda estava sem responsável. Minha motivação? Ter a oportunidade de ajudar a transformar a cidade “de baixo para cima”, com um grupo qualificado formado pela sociedade civil. Se o governo gostar das nossas ideias, ótimo, mas não partimos de interesses políticos, partimos de resultado.

Semana que vem vamos em uma missão para o Vale do Silício e San Francisco para entender como funciona o ambiente empreendedor de lá. Temos dezenas de reuniões, todas elas já com pauta e objetivos. Não é brincadeira pra tirar fotos nem politicagem, como bem nos lembrou Martins. Nosso grupo se dividirá indo atrás de seus respectivos interesses e vantagens comparativas. Assim, diretamente ligado ao de tema de Mobilidade, visitarei o nosso benchmark SF CITI; a Prefeitura de San Francisco; o projeto de precificação dinâmica de estacionamento público SF Park; a StreetLine, que produz sensores e aplicativos na área de precificação dinâmica; projetos de tecnologia urbana da Kleiner Perkins Caufield & Byers (os caras que investiram no Waze, por exemplo) e ainda aguardo a confirmação da Sidecar, aplicativo de ridesharing que está transformando o sistema de transportes local. Tangenciando o tema de urbanismo e inovação, junto ao resto do grupo conhecerei o AirBNB; o Singularity University, o Center for Design Research de Stanford, a IDEO e finalmente conhecerei em pessoa o pessoal do Seasteading Institute e da Blueseed com quem tenho conversado nos últimos anos.

Porto Alegre precisa desse gás. Como capital do estado a cidade sempre será referência para a população do interior do estado, mas e migrantes de outros estados? E de outros países? Há dois anos saí da cidade para morar em São Paulo já que eu não via a mesma oportunidade de crescer na minha cidade. No meu círculo próximo de conhecidos (da mesma faixa etária) mais de 30 pessoas fizeram o mesmo. Exemplos inversos, jovens migrantes que direcionam-se à capital gaúcha, são raros.

Saldo migratório interno brasileiro [Fonte]

Tudo bem, São Paulo e Rio de Janeiro não apresentam-se mais como os motores migratórios do país, mas suas capitais continuam referência para trabalhos de alto capital humano. Alto custo de vida nesses estados e desenvolvimento de outras regiões mudaram a dinâmica migratória brasileira. Os gaúchos, infelizmente, não tem nem um nem outro. Não é como se o Rio Grande do Sul fosse um ímã populacional no passado e hoje reverte a tendência, ou como Pernambuco e Paraná que estão conseguindo reter mais a população. O estado gaúcho está no grupo dos falidos que sistematicamente perdem habitantes: Maranhão, Rondônia, Alagoas e Paraíba, e as capitais são grandes reflexos destes estados. Florianópolis e Recife estão despontando atraindo startups de tudo lugar, e Porto Alegre?

Em poucos casos a política urbana é relacionada à capacidade de inovação de uma cidade: esquecemos que ela interfere diretamente na sua atratividade migratória pelos preços. Porto Alegre é a 45ª cidade mais cara do mundo para se morar, e com menos da metade da densidade populacional de cidades como Recife, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, sem falar na retenção de talentos, oportunidades de negócio e opções de lazer.

Que trabalha com construção sabe o que é o suplício para aprovar qualquer obra na cidade, seja nas máfias de licenciamento ambiental, as greves municipais ou a própria ineficiência do setor público, patológico nacionalmente. Nosso planejamento urbano é um dos piores do país, onde existe verticalização de baixa altura com recuos enormes, resultando na segunda capital mais verticalizada do país mas de baixa densidade populacional. Basicamente colhemos apenas os prejuízos da verticalização. Enquanto edifícios de mais de 30 andares estão sendo construídos não só em São Paulo, mas em cidades como Ribeirão Preto, Gravataí, Recife e Camboriú (sem falar no projeto mineiro de uma torre de 85 andares), edifícios em Porto Alegre de menos de 20 andares sofrem protestos e são considerados “espigões”, simplesmente por causa de seu tamanho e da quantidade de gente que atrairia para o bairro. Infelizmente onde há possibilidades de novos moradores – imigrantes a nível municipal – há portoalegrenses protestando contra eles, a mesma manifestação irracional de xenofobia.

Pra quem não acredita na teoria do custo de imóveis como limitador, o próprio Vale do Silício é exemplo, que hoje perde empreendedores para a vizinha mais barata e de maior densidade, San Francisco. Artigos relacionando a política urbana e uma possível estagnação futura do Vale do Silício tem pipocado em jornais e blogs nos últimos anos. Mas Porto Alegre obviamente não pode se dar o mesmo luxo do Vale: não temos Stanford, Singularity University, um Googleplex ou o HQ da Apple. No seu conservadorismo extremo, Porto Alegre se tornou anti-imigrantes de forma sistemática, no efeito “bola de neve”. A coesão cultural da cidade pode até trazer regionalismos interessantes, mas alimenta o ego do status quo na falta de diversidade. O Bairrista deveria ser considerado alerta vermelho de uma crise municipal e não motivo de piadas.

Diretamente na questão de Mobilidade, a cidade está sendo cortada com obras de viadutos em pleno século 21, enquanto no resto do país (São PauloRioRecife) os viadutos estão sendo destruídos por serem visivelmente um fracasso para o trânsito com resultados horríveis para a cidade. O planejamento que prejudica a mobilidade basicamente obriga qualquer novo morador a comprar um carro, mais uma barreira de custo para morar na cidade. E enquanto todas as rotas de ônibus podem ser buscadas no Google Maps em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, estamos colando cartazes nas paradas para ver se conseguimos resolver o problema sem tecnologia. Além disso, o sistema restrito de licenças de táxi é um horror, criando motoristas despreocupados com a qualidade do serviço na ausência de opções alternativas do consumidor.

É neste cenário que o CITE surge para tentar mudar, de dentro pra fora, de baixo para cima. Com ou sem migrantes, tentaremos atrai-los de qualquer jeito. Tentaremos incentivar o que chamam de Rainforest, um ecossistema de inovação. Não é uma ação específica sobre um determinado indivíduo ou instituição, mas uma influência em rede que pretende conectar as pessoas certas e criar um ambiente propício para a emergência de grupos inovadores, não necessariamente no radar ou ao alcance do CITE.

Assim, convido aqueles que se interessarem pelo projeto como um todo a participarem das discussões na página do CITE. Para quem quiser contribuir com questões de mobilidade (principalmente mas não restritas à área de tecnologia) ou se tiver dicas ou contatos de gente de San Francisco/Vale ligados à essa área, por favor deixe um reply ou mande um e-mail para [email protected] Além disso, quem estiver entusiasmado com a ideia para colaborar positivamente com a transformação da cidade será bem vindo ao grupo!

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