A Amazon cobra caro por suas novas sedes

Nova York, Arligton e Nashville foram as cidades escolhidas para receber a Amazon. (Foto por King of Hearts)

No final de 2017, a Amazon começou a buscar uma nova cidade para chamar de sua, onde instalaria a segunda sede da empresa, batizada de HQ2 – a primeira fica em Seattle, nos Estados Unidos. Se o tamanho da empreitada já seria notável, a novidade foi como a empresa conduziu o processo: criou uma competição (ou guerra, como disse o New York Times) para escolher entre municípios da América do Norte – Estados Unidos, Canadá e México.

Entre as mais de duzentas interessadas, ao invés de uma única vencedora, como era esperado inicialmente, no último dia 13 de novembro a gigante online anunciou a escolha de Nova York (mais precisamente, o bairro de Long Island City) e Arligton, no estado de Virgínia, na região metropolitana de Washington DC., a capital do país – em outras palavras, o coração do lobby norte-americano. A empresa também abrirá um centro menor, focado em operações, em Nashville, no Tennessee.

Para as duas principais, a empresa promete cinco bilhões de dólares em investimentos (algo como R$ 20 bilhões) e até cinquenta mil novos empregos diretos altamente remunerados (em média, salários de R$ 40 mil por mês). Pra ter noção do quão grande é isso: o investimento previsto pela Prefeitura de São Paulo para 2018 é menos de R$ 6 bilhões.

É evidente que qualquer prefeito gostaria de ser o culpado por “gerar” tantos empregos. Mas, na verdade, o termo mais exato seria “comprar” empregos. E pagar caro: a Amazon diz que cada novo posto de trabalho custará cerca de cinquenta mil dólares aos cofres públicos. Parece bastante, mas cálculos de think tanks especializados detalham que, na ponta do lápis, esse valor pode chegar a mais de US$ 112 mil em Nova York, por exemplo. No total, são quase US$ 5 bilhões, praticamente o investimento prometido pela empresa. Ou seja, como muitos pesquisadores têm dito, na melhor das hipóteses é um jogo de soma zero.

Mas deve ser pior. Como ocorre na grande maioria dos casos, estudos mostram que o custo de benefícios fiscais para empresas supera em muito o retorno em geração de emprego e renda. E, se não fosse o bastante, provavelmente esses salários nem irão para trabalhadores locais – causando uma espécie transferência de renda de dentro para fora das cidades – ou nem serão novos, eles simplesmente mudarão de CNPJ (considerando o estoque de mão de obra local fixo no curto prazo), prejudicando outras empresas.

Neste sentido, a guerra entre cidades é também entre as empresas. Logo, a concorrência é prejudicada quando um competidor tem vantagens externas sobre outro. Benefícios fiscais, como é o caso, desnivelam a competição.


Quando quem ganha é o amigo do rei, todos perdem. Por isso, ter escolhido a cidade da Casa Branca e do Congresso é expectativa de benesses públicas ainda maiores.


Além do prejuízo financeiro para os pagadores de impostos e para a competição no mercado, perde a cidade como um todo. E os primeiros prejudicados serão os vizinhos das novas sedes – no caso de Nova York, moradores do maior conjunto habitacional dos Estados Unidos. Salários mais altos elevam também os preços na região, a começar pelos imóveis, como já vem ocorrendo, causando a famosa gentrificação. Mais gente na região, por sua vez, piora o trânsito local, pressionando o transporte público.

Mas, então, qual seria a alternativa? Se o objetivo é promover o desenvolvimento econômico e social, ao invés de colocar bilhões no bolso de uma única empresa – e, principalmente, o seu fundador, Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo! – melhor seria usar esse esforço financeiro e intelectual para melhorar o ambiente de inovação como um todo, incentivando negócios a crescerem, o que de fato faria a diferença no longo prazo, como mostram os dados. Formar e atrair talentos, principalmente nas áreas de tecnologia, é fundamental (e parte dos motivos para a Amazon ter escolhido essas cidades), mas há iniciativas de curto prazo que ajudam o ecossistema empreendedor local, como reduzir a burocracia.

O fato de nenhuma cidade no Vale do Silício, o lugar mais empreendedor do mundo, ter estado entre as cotadas para uma nova sede também tem a ver com isso. Lá as empresas já nascem e crescem, não precisam importar. É muito mais difícil criar um ecossistema que promova o empreendedorismo como acontece na Califórnia, mas é muito mais duradouro – e talvez seja até mais barato! Em favor disso, inclusive, centenas de urbanistas e economistas, entre eles Richard Florida e Edward Glaeser, haviam feito um manisfesto para que as cidades se recusassem a dar incentivos fiscais para a Amazon (a lógica vale para quase qualquer empresa, na verdade) e competissem pelo que realmente importa no ecossistema empreendedor. Não adiantou.

Esse momento ficará marcado na história do urbanismo e do desenvolvimento econômico no mundo. O futuro dirá se essas cidades levaram, mas não ganharam, como muitos têm dito. A Amazon, com certeza, já venceu – e não deu nenhum desconto.


João Melhado é economista, Mestrando em Administração Pública, com foco em Política Urbana, pela Universidade de Columbia.

  1. edu

    Comentário genérico que não se debruçou nas contrapartidas dos 2 lados. Dizer que a soma é zero é só uma.opiniao. um economista com mestrado em administração pública deveria primeiro pesquisar os fatos e depois opinar. O assunto é bom , mas a abordagem e sobretudo fraca e sectaria

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  2. João Melhado

    Olá, Edu, muito obrigado pelo comentário!
    Diversos economistas muito mais experientes têm se debruçado sobre o assunto e apresentam argumentos similares, os quais procurei retratar no artigo (em links).
    Por ora, há poucos fatos concretos sobre os efeitos da chegada da Amazon às cidades. Então, restam principalmente prognósticos, opiniões baseadas em casos passados – que, em geral, deram pouco resultado.
    Mesmo quando considerados contrapartidas além das citadas – investimentos e geração de empregos, principalmente – estudos mostram que os resultados desse tipo de incentivo fiscal são irrisórios, quando não negativos.
    Este artigo resume bem os efeitos dessas políticas: https://www.citylab.com/equity/2018/05/why-do-politicians-waste-so-much-money-on-corporate-incentives/561149/
    Por fim, parece-me importante salientar as consequências negativas, normalmente escondidas nas altas expectativas geradas pelos políticos. A frustação costuma ser grande.
    Abraços e obrigado novamente!

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