Planejar onde quase não há regulação urbana: lições da Guiné-Bissau
Como se planeja um território onde praticamente não há legislação? A resposta curta é: com todos os outros recursos que existem.
Sou contra o vidro fumê não por uma questão de estética ou por ele diminuir a visibilidade para os motoristas. É por uma questão de humanidade.
2 de dezembro de 2014Antes que me atirem pedras, quero deixar bem claro que sei que o vidro fumê é importante para a segurança — tanto para as pessoas, quanto para o carro — e que, numa cidade como a nossa, nunca é demais se precaver.
Porém, mesmo com essa grande vantagem, ainda sou contra o vidro fumê. E não por uma questão de estética ou por ele diminuir a visibilidade para os motoristas. É por uma questão de humanidade.
O vidro fumê impede que as pessoas se olhem. Quando paramos numa sinaleira e olhamos para o lado, o que vemos? Um vidro preto. Não sabemos quem está atrás dele, não sabemos se é uma pessoa feliz, triste, velha, jovem, homem, mulher. Nada. Quando sofremos uma barbeiragem, o mesmo acontece. Não sabemos se a pessoa se sente mal por ter feito ou se está rindo da gente atrás de um vidro escuro. E fica até mais fácil ser barbeiro, já que o vidro esconde até a vergonha de quem faz uma linda maneteada.
A real é que o vidro fumê acaba com o já pequeno contato humano existente no trânsito, tornando-o apenas um amontoado de carros, em vez de um grupo de pessoas. Não temos como sentir empatia por um veículo sem vida, que solta fumaça e tira nosso espaço na rua. Sem pessoas, é exatamente assim que o trânsito é visto.
Andar de carro está cada vez mais caótico e isso não vai melhorar de um dia para o outro. Mesmo com um número crescente de pessoas trocando seus automóveis por outros meios de transporte (go bikes!), o número de veículos nas ruas de Porto Alegre vai continuar alto por um bom tempo, restando a nós fazer o que está ao nosso alcance para deixar o trânsito um pouquinho melhor, mais humano.
Abaixo o vidro fumê!
Artigo publicado originalmente na revista VOID nº 93
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e dinâmicas.
Quero apoiarComo se planeja um território onde praticamente não há legislação? A resposta curta é: com todos os outros recursos que existem.
Com uma ocupação urbana dispersa, priorizando carros e empurrando moradores para longe do centro, a capital planejada tem erros que custam caro para todos.
Confira a nossa conversa com a arquiteta e urbanista Ana Jayme, presidente do IPPUC, em Curitiba.
Uma equipe de pesquisadores identificou oito cidades “fora do radar” que estão liderando uma transformação local na mobilidade ativa — e uma lista de estratégias que outras comunidades podem e devem copiar.
Entenda como a legislação urbana transformou um balneário em skyline.
Propostas inspiradas na Times Square, tentando usar a publicidade como uma forma de revitalizar áreas centrais, estão se proliferando nas cidades brasileiras. Mas há uma interpretação equivocada do motivo do sucesso da Times Square nova-iorquina.
Ao longo dos últimos 100 anos, o espaço urbano moldou-se para os carros em detrimento das pessoas. A Teoria Geral da Caminhabilidade, de Jeff Speck, ajuda a enxergar por que caminhar é, muitas vezes, um ato de resistência — e como isso pode ser revertido.
Teresina tem quase 40 parques, mas o problema não é a quantidade. Entre mobilidade precária, manutenção insuficiente e tentativas de privatização, o desafio é transformar áreas verdes em espaços públicos vivos e acessíveis.
A Avenida Leitão da Silva é muito mais que um corredor viário em Vitória: é um espelho das escolhas urbanas que moldaram a cidade, revelando como decisões históricas de planejamento urbano podem transformar uma via em fronteira social.
Dito isso, concordo com todos os seus argumentos contra o vidro fumê. É realmente impressionante o quanto deixamos de nos comunicar no trânsito em virtude disso. Deixo de dar preferência num entroncamento se não consigo “ler” nos olhos do outro motorista sua intenção. E, entre motoristas de carros de vidro claro (como o meu), é impressionante como a relação no trânsito fica muito mais civilizada, damos mais preferência ao outro etc.
> quero deixar bem claro que sei que o vidro fumê é importante para a segurança
Aí é que está, Luciano: essa premissa é falsa. Assim como os muros altos das casas, o vidro fumê não aumenta a segurança, apenas a “sensação de segurança”. Duas amigas já tiveram seus vidros escuros quebrados por alguém que buscava uma bolsa sobre o banco de passageiro. Por quê? Há em psicologia um fenômeno chamado “compensação de risco”. Quando nos sentimos mais seguros pela “invisibilidade”, baixamos nossa guarda, e alguns de nós acabam colocando itens de valor convenientemente sobre o banco, supostamente protegidos pela invisibilidade. Só que, para o ladrão, custa muito pouco arriscar ver se há alguma coisa lá. A maioria dos vidros quebrados de veículo que vejo na rua são fumê (na verdade, praticamente todos). Afinal, se seu vidro é transparente, automaticamente você não “dá mole” e não deixa nada de valor exposto. Os meninos do farol encostam a cara no vidro e dão aquela sondada — sim, isso é bastante incômodo –, mas não encontram nada e vão embora. Também já soube de um caso em que, durante um sequestro relâmpago, o veículo do sequestrado parou no farol ao lado de uma viatura de polícia, mas os policiais não enxergavam nada através do vidro fumê e o sequestro prosseguiu. Os vidros escurecidos fornecem privacidade, isso é certo. Mas privacidade não é segurança. Muito pelo contrário, eu acrescentaria: se eu estivesse em uma situação de perigo, gostaria que todo mundo me visse. De maneira similar, os muros altos impedem a “vigilância comunitária” e, uma vez invadida sua casa, ladrões podem passar o fim de semana com sua família sem serem importunados. Em algumas cidades que visitei no exterior, as janelas das casas não possuem cortina. A gente vê quase tudo o que se passa lá dentro. O ladrão também. Mas também a polícia, os vizinhos, os pedestres…
Vivemos numa democracia e portanto cada um pode expressar sua opinião, seja ela qual for…fui até o final do artigo pra ver se encontrava alguma coisa que desse sentido ao artigo, mas minha conclusão é que foi escrito por uma pessoa totalmente egoísta e provavelmente fofoqueira, que ignora os benefícios do aumento de segurança e da melhoria do ar interno do veiculo que sofre menos impacto dos raios solares… e pra que isso? Pra ela poder olhar dentro do carro dos outros, pra bisbilhotar…ah, tenha paciência…
Por qual motivo devemos ter contato social a todo momento? É difícil deixar as pessoas no seu canto? Coisa chata, como antissocial eu não quero ninguém me encarando, dando sorrisinho, tchauzinho, vai pra inferno, me erra!