A solução de Elon Musk para o trânsito é sua pior ideia até agora

Túneis da Boring Company ilustrados pela Nicole Rossi, leitora e parceira do Caos Planejado.

Para quem ainda não o conhece, Elon Musk é o empreendedor-estrela por trás de empresas como Tesla Motors, que fabrica carros elétricos, SolarCity, que instala e gerencia sistemas de energia solar para edificações, e SpaceX, a mais ambiciosa de todas, que fabrica foguetes e tem a pretensão de, nas palavras de Musk, “tornar a humanidade uma espécie interplanetária”.

Sua mais nova empresa, The Boring Company (“boring” significa tanto “perfurar” quanto “chato” em inglês), pretende cavar túneis como uma forma de diminuir o trânsito nos centros urbanos.

A ideia se tornou pública pelo Twitter no final do ano passado, quando ele postou “O trânsito está me deixando louco. Vou construir uma máquina de escavar túneis e começar a cavar…” (tradução livre).

Musk detalhou melhor o seu plano na sua última TED Talk, em abril de 2017. A meta é criar uma rede tridimensional de túneis, que transportaria automóveis por toda a cidade. Carros entrariam nos túneis através de elevadores, evitando grandes trincheiras e desapropriações urbanas. Dentro dos túneis, carros andariam sobre plataformas móveis com seus motores desligados. Tal formato, segundo Musk, permitiria a construção de túneis com diâmetros significativamente menores, o que diminuiria os custos de construção e viabilizaria tal projeto ambicioso. O sistema também permitiria um transporte mais rápido e mais seguro que o trânsito em túneis convencionais.

Algumas das primeiras perguntas que surgem são relacionadas à viabilidade técnica e burocrática. Tecnicamente a ideia parece possível, mas pode demorar anos e ser muito mais custosa do que o previsto por Musk. Escavações em meios urbanos atualmente requerem autorizações municipais e privadas para evitar interferências com lençóis freáticos, fundações de edificações e infraestruturas subterrâneas existentes e, em muitos casos, fragmentos arqueológicos que são encontrados ao longo do caminho. Em seu TED Talk, Musk argumenta que ele pode iniciar a escavação sem que ninguém identifique por onde ela está passando, usando como exemplo as redes de túneis secretos criadas pela Al Quaeda no Afeganistão. No entanto, ao se confrontar com a primeira destas interferências — o que certamente vai ocorrer em algum momento — ou quando ele quiser efetivamente cobrar pelo uso da rede, passando por fiscalizações municipais, sua rede inevitavelmente terá que enfrentar custos legais pela escavação irregular.

Outra questão levantada por urbanistas e especialistas em mobilidade urbana é a da demanda induzida: assim como com o alargamento de vias, se você construir uma rede eficiente de túneis todos vão querer usar, induzindo mais pessoas a usarem o sistema e gerando congestionamento outra vez. Musk responde que, no subsolo, 40 camadas sobrepostas de túneis seriam suficientes para aliviar qualquer quantia de congestão. Do ponto de vista de modelo de negócio, também seria possível cobrar facilmente pelo acesso à rede de túneis, controlando a demanda através de preços.

No entanto, na minha opinião, a ideia de Musk cai em um equívoco ainda pior, relacionado à falta de entendimento do quê congestionamento significa e de por que ele existe.

A nova ideia de Musk pode ser uma tentativa de garantir o futuro de sua principal empresa, Tesla Motors. (Imagem: NVIDIA Corporation/Creative Commons)

São dois os principais motivos pelos quais temos congestionamento: o primeiro é o incentivo histórico ao uso do automóvel individual em grandes cidades. Na maior parte das grandes cidades isso se manifestou, entre outros fatores, pelo investimento pesado em rodovias, pela priorização do automóvel sobre o pedestre em ambientes urbanos, pelo zoneamento de atividades, pelo incentivo à compra de residências suburbanas, pela limitação da área construída em regiões centrais, pela obrigatoriedade de construir vagas de estacionamento em empreendimentos, e pelo oferecimento gratuito de vagas de estacionamento em áreas públicas. Uma cidade com túneis, vias largas e altas velocidades, onde é difícil até mesmo atravessar a rua, é danosa para trânsito de pedestres, o que por sua vez inibe o uso de qualquer outro modo de transporte diferente do automóvel. Assim, o primeiro grande motivo do congestionamento é a priorização artificial do uso do automóvel no ambiente urbano.

O segundo grande motivo pelo qual cidades são congestionadas é que, dada essa realidade, não há nenhum tipo de controle sobre a demanda de veículos em operação em determinado momento ou via. As cidades são planejadas para sermos dependentes do automóvel individual, e ruas são oferecidas gratuitamente aos motoristas, que basicamente são subsidiados por todos aqueles que não andam de carro. Na maioria das cidades brasileiras, por exemplo, apenas cerca de um terço dos deslocamentos são realizados por automóvel, uma minoria no contexto da cidade como um todo. Ao permitir a utilização generalizada e irrestrita do sistema viário, motoristas caem na “tragédia dos comuns”, e vias se tornam escassas em vários momentos do dia.

Outro desafio enfrentado pela solução proposta por Musk é o da adoção em massa dos carros autônomos, que dirigem sozinho, como os que estão sendo desenvolvidos pelo Google e até mesmo pela própria Tesla. Esse cenário promete uma diminuição significativa de congestionamentos por uma série de motivos, em especial pela redução no número de acidentes e pela resposta instantânea ao que acontece ao redor do veículo — carros autônomos não demoram para acelerar e para frear, tornando o trânsito muito mais fluido que o conhecido “anda e para”. É evidente que isso pode levar décadas para se materializar, mas completar uma rede de túneis também, resultando em visões de futuro do transporte conflitantes.


“Criar uma tecnologia para melhorar o transporte de automóveis individuais é ignorar a origem do problema e o que leva à existência do congestionamento em primeiro lugar.”


Quem conhece Musk sabe que seus empreendimentos são socialmente motivados, tentando resolver problemas difíceis enfrentados pela humanidade. É neste momento que seu equívoco fica mais evidente. Criar uma tecnologia para melhorar o transporte de automóveis individuais é ignorar a origem do problema e o que leva à existência do congestionamento em primeiro lugar. Além disso, criar uma rede tridimensional de túneis em cerca de 40 níveis diferentes é significativamente mais custoso do que a implementação de um sistema de tarifação de congestionamento, onde motoristas pagam para andar em determinadas ruas em determinados horários. Singapura, que possui o sistema mais avançado desse tipo, conseguiu praticamente eliminar o congestionamento.

Elon Musk dirige todos os dias da sua casa no bairro de Bel Air, um subúrbio de Los Angeles, até o escritório da SpaceX, passando pela Sepulveda Pass da 405 Freeway, considerada uma das vias mais congestionadas dos Estados Unidos na cidade com o pior trânsito do mundo. Sem o conhecimento de sistemas de transportes em outros lugares do mundo e vindo de uma carreira como engenheiro, onde soluções para problemas envolvem tecnologia e não mudanças políticas, é natural que Musk veja os problemas de transporte sob a ótica de uma inovação para o transporte individual.

Além disso, é evidente que, como empreendedor por trás de uma empresa que fabrica automóveis, Musk provavelmente tenha uma solução ideologicamente enviesada. Tanto o sistema de tarifação de congestionamento quanto o incentivo a cidades mais compactas, menos zoneadas e mais amigáveis ao transporte a pé e por transportes de massa seriam contrários ao objetivo de negócio da sua principal empresa, Tesla Motors.Somando isso à identificação de uma nova tendência — que novas gerações querem evitar a compra de um automóvel, buscando morar em regiões mais caminháveis — a Boring Company pode ser a maneira que Musk encontrou de garantir o futuro da Tesla, e não o futuro das cidades.

Será que Musk acredita que a sua solução é realmente ótima para a sociedade, ingênuo da origem dos problemas de mobilidade urbana ou das suas soluções alternativas? Ou estaria ele ciente de que The Boring Company é uma manifestação puramente empresarial, deixando de lado o seu objetivo social?

É difícil saber até que ponto Musk está pensando sobre estas questões. Seja como for, não acredito que sua ideia tenha sucesso no modelo apresentado atualmente. Eu não investiria meu dinheiro na Boring Company, dados os riscos construtivos e burocráticos que ela certamente enfrentará. Também não acredito que essa seja uma boa solução para a mobilidade urbana de uma cidade. Musk não ataca a origem do problema, nem busca uma forma eficiente de resolver o congestionamento.

  1. Victor

    Baita artigo! Parabéns! Concordo 100%, acho que as motivações por trás do projeto são exatamente as levantadas no texto.

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