A morte dos encontros

Av. 23 de maio, em São Paulo. Foto: lu @ Flickr

Av. 23 de maio, em São Paulo. Foto: lu @ Flickr

A cidade é feita de encontros. Humanos se aglomeram em cidades para se relacionarem, para potencializarem suas redes sociais.

Nossas cidades cresceram para atender essa vontade – necessidade? – de estar próximos uns aos outros.

O passado é uma herança de bons exemplos, nas antigas cidades europeias, nos nossos centros históricos anteriores às utopias. Neles, tudo parece próximo, são “caminháveis”, o espaço público é vivo e a verticalização ocorreu como uma resposta natural a uma demanda por solo urbano.

Algo aconteceu de lá pra cá.

Nossas cidades se tornaram “paliteiros”, uma infinidade de torres isoladas umas das outras. As torres pouco respondem às demandas por espaço, pois ocupam a cidade com garagens e  áreas condominiais esquecidas e empoeiradas. Cada vez mais o que liga esses espaços não é mais a rua, mas o carro – uma moderna cápsula de isolamento.

O resultado não foi por acaso, mas por consequência: o urbanismo modernista, obsessivo pelo controle humano da natureza, tentou “organizar” o que é o organismo vivo cidade.

A verticalização em edifícios soltos – os tais palitos – era pregada como forma de liberar a cidade para áreas verdes, tentando garantir, de forma ingênua, uma quantidade de sol e de espaço de lazer para todos.

A tentativa de controle da natureza desta vez não foi inconsequente.

O isolamento inviabilizou o contato das edificações com a calçada e umas com as outras. O comércio no térreo sumiu. Não por falta de interesse, mas pelo afastamento do pedestre. Não só as atividades ficaram mais distantes como elas parecem ainda mais, dado o ambiente inóspito da rua vazia. Em um ciclo destruidor, a insegurança gerada pela falta de vida levou as torres a se isolarem ainda mais, com suas cercas e seus muros.


Em uma triste ironia, a tentativa de promover sol e espaços de lazer resultou justamente no contrário, cidadãos presos nas suas salas, nos seus carros.”


O isolamento dos espaços edificados incentiva o isolamento no trânsito entre eles. Em uma triste ironia, a tentativa de promover sol e espaços de lazer resultou justamente no contrário, cidadãos presos nas suas salas, nos seus carros.

A acessibilidade do pedestre é muito mais importante do que as pessoas imaginam. O pedestre é a raiz de todas as formas de transporte além do carro. É preciso caminhar para chegar na parada de ônibus, na estação do metrô, para guardar a bicicleta, pra entrar na loja. Cidades que inviabilizam a caminhada inviabilizam todo o resto do sistema de transporte – e, por sua vez, o encontro, mesmo que desproposital e inusitado.

Isolamento não deve ser confundido com privacidade. Privacidade é nossa relação com o ambiente privado, preferência totalmente natural de termos nosso canto, nosso espaço na selva metropolitana. Já isolamento se refere à nossa relação com o ambiente público.

O isolamento, a falta de contato com pessoas e ambientes diferentes, eliminando as surpresas positivas que a cidade constantemente nos oferece, deixa o cidadão cego ao que acontece ao seu lado. Leva a segregações tribais e, no limite, reforça os preconceitos apesar da vida cosmopolita da metrópole. Leva a críticas sobre o espaço e transporte urbano das próprias pessoas que contribuem para que os problemas existam, sem sequer imaginarem que isso seja possível. Ter privacidade não requer tal isolamento.

A privacidade, no entanto, deve ser balanceada, com o seu limite de abrangência no próprio cidadão, já que a sua extrapolação pode comprometer a própria existência da cidade. A metrópole é, por definição, um massivo organismo social, que tem seu bônus e seu ônus. É contraditório querer o bônus –  uma vasta gama de oportunidades, atividades, opções, relações – enfim, pessoas – e, ao mesmo tempo, pregar por características rurais de privacidade total – silêncio, paz e falta de contato humano. Nenhuma opção é melhor ou pior, mas o cidadão deve estar pronto para escolher qual o seu ponto de preferência, e pronto para aceitar as consequências da sua decisão, pois cidade não existe sem gente.

A vida gerada por esse planejamento inconsequente, nos tornando dependentes do uso do carro, é ainda pior. O paulistano que anda de carro gasta três horas dentro dele por dia. Um quinto do seu tempo acordado ele está preso. Preso pois está sozinho atrás da direção, obrigado a executar uma única atividade para evitar assassinatos com a sua grande máquina de metal.

O que já foi um símbolo da liberdade se tornou o do isolamento, e o que era pra ser planejado se tornou um caos – ou pelo menos provou que com o caos não se brinca.

A cidade nos deu uma privacidade muito além do que se esperava, pois a morte dos encontros é a morte da própria cidade.

Este artigo foi publicado originalmente na Edição 21 da revista Amarello.

  1. No caderno | Small Space

    […] A morte dos encontros. Um texto que encontrei no Caos Planejado e que foi retirado da Revista Amarello. […]

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  2. FPS3000

    Mas as pessoas querem mesmo conviver com o diferente? Querem compartilhar o espaço? Ou isso foi mais consequência, do medo de lidar com aquilo que não se pode controlar de fato?

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    • Anthony Ling

      Anthony Ling

      Olá FPS, entendo isso mais como uma consequência do planejamento, e não uma vontade direta das pessoas. Pessoas se aglomeram em cidades para aumentar a sua interação, e não o contrário. Obrigado pelo comentário! Abs

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      • Antônio

        Este comentário “Pessoas se aglomeram em cidades para aumentar a sua interação, e não o contrário” é insuficiente para explicar as relações humanas. Para usar sua linguagem, a “interação” humana não é uma coisa homogênea. As oportunidades existentes em um lugar adensado não tem relação alguma com a busca de silêncio, mais característico de lugares não adensados. A natureza da interação humana relacionada aos negócios são geralmente precárias: não se quer criar uma grande amizade na fila de um banco, ou com o caixa de um mercado, ou com em qualquer outra espera para ser atendido por um prestador de serviços. A própria existência dos deslocamentos pendulares intermunicipais (Campinas – São Paulo, Mogi – São Paulo, etc) já revelam que sua tese não é compartilhada por muitos. Para essas pessoas, o valor do silêncio ou qualquer outra característica interiorana vale mais que 3h/dia no trânsito. As pessoas fazem o possível para compatibilizar seus gostos com suas necessidades. Elas precisam da oportunidade havida das cidades adensadas, mas preferem a urbanização de cidades interioranas, e não não há nada de errado em contestar esta sua fala: ” É contraditório querer o bônus – uma vasta gama de oportunidades, atividades, opções, relações – enfim, pessoas – e, ao mesmo tempo, pregar por características rurais de privacidade total – silêncio, paz e falta de contato humano.”

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      • Antônio

        Aliás, eu acho que o que aconteceu foi que você percebeu uma conexão entre urbanismo e isolamento e a maximizou. Fazendo um mea culpa: isso é algo que inclusive me acomete quando se trata de economia. Eu tenho uma tese diferente: a própria escala gigante das maiores cidades provoca um certo isolamento. Como argumento, dê uma olhada nos gráficos das votações em legendas partidárias das capitais brasileiras neste link http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2016/blog/eleicao-2016-em-numeros/post/proporcao-de-votos-por-legenda-para-vereador-cai-em-25-das-26-capitais.html

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        • Antônio

          Continuando: note que justamente as grandes cidades, justamente onde há maior número de candidatos e onde justamente é mais fácil encontrar alguém que coincida o mais possível com sua preferência política nos mais diferentes temas, é justamente onde o maior número de pessoas vota para legenda partidária. Não é estranho isso? O urbanismo tem também a ver com isso? Eu não sei dizer a causa, mas me parece que o que gera este efeito que descrevi também contribui para que haja o que você nomeou como isolamento.

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  3. Antônio

    Continuando: como sou economista, tendo a ter um pensamento economicista. Se me perguntassem a causa principal da ocorrência do isolamento nas grandes cidades, eu chutaria que tem a ver com o custo de aprendizado: o maior número de possibilidades de “matching” político, ou de “matching” de socialização de alto nível (amizade, por exemplo) provocado pelo aumento do conjunto universo da interações possíveis – efeito positivo, é mais do que compensado pelo custo de se obter essa informação com a qualidade necessária – efeito negativo. Esse efeito negativo tende a provocar o fenômeno dos guetos, em as pessoas se unem em nichos ideológicos para diminuir o custo de aprendizado, substituindo o real aprendizado sobre o comportamento dos indivíduos pelo aprendizado simplificado do estereótipo a que pertencem os indivíduos. Se o pressuposto estiver correto, não só as grandes cidades tenderiam a ser desumanizadoras como também tenderia a provocar uma polarização inversa ao que se entende como “cosmopolismo”.

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