A incrível verticalização de Copacabana

A incrível verticalização de Copacabana

Quem pensa em Copacabana lembra de efervescência e diversidade, características que muitas cidades buscam atingir hoje em dia.

1 de março de 2013

Copacabana é, provavelmente, o bairro mais famoso do Brasil. Até mesmo internacionalmente é conhecido através do cinema de Carmem Miranda e Groucho Marx de 1947 e a música de Barry Manilow do final dos anos 70. Quem pensa no Copa lembra de efervescência e diversidade, características que muitas cidades buscam atingir hoje em dia. E talvez o que faz Copacabana ser a “Princesinha do Mar” esteja na história da sua urbanização.

Foi na década de 40 o início da transformação de Copacabana para a sua forma atual. Nas palavras de Maurício de A. Abreu, no livro Evolução Urbana do Rio de Janeiro:

“Numa área já totalmente ocupada, e onde os condicionantes físicos não mais permitiam a incorporação de novos locais ao tecido urbano, esse crescimento [86% em Copacabana e 48% na Gávea] só foi possível mediante a ocupação intensiva do solo, ou seja, através da verticalização das construções. Isto, por sua vez, foi facilitado a partir de 1946, quando a Prefeitura Municipal — talvez devido à grandes pressões imobiliárias — liberou o gabarito dos prédios de Copacabana para 8/10/13 andares, conforme a localização. Assiste-se, assim, a partir de 1946, ao boom imobiliário de Copacabana, com a substituição rápida e quase total das edificações construídas na fase de ocupação do bairro, por construções mais modernas, de vários pavimentos.”

Ele continua:

“Com efeito, embora houvesse lei federal determinando o que uma casa ou apartamento precisava ter, essa mesma lei não previa áreas nem formas. Nada impediria, então, que se construíssem edifícios com uma grande quantidade de pequenos apartamentos.”

E conclui:

“Assim, sob a égide da legislação então em vigor, proliferaram na zona sul os apartamentos de quarto-sala e os chamados conjugados, especialmente em Copacabana. E esse bairro — de início ocupado por classes de renda alta, e depois invadido pela classe média e pelas favelas — pôde ser também finalmente alcançado pela classe média-baixa, que para aí se deslocou em grande número, à procura não só de status, como de proximidade a fontes de emprego e a meios de consumo coletivo.”

Nesse contexto, além de permitir a entrada de uma nova classe social no bairro, a verticalização e a permissão do aumento densidade, tanto demográfica quanto construída, propiciaram uma ampla diversidade cultural e vida social ao bairro. David e Rogério Cardeman (pai e filho, respectivamente) tem interpretação semelhante no livro “O Rio de Janeiro nas alturas”:

“Com o fim da guerra, já consagrada pela voz de Dick Farney como ‘a princesinha do mar’, Copacabana começou a sofrer um processo de renovação imobiliária, com a substituição dos imóveis da ocupação inicial por outros dotados de equipamentos mais modernos e o aparecimento dos conjugados de dimensões mínimas (quitinetes)… Em 1951, os novos empreendimentos seguiram rapidamente os novos gabaritos, que liberaram as coberturas dos prédios com 20% da área construída do pavimento inferior, os acesso em pilotis abertos e a garagem subterrânea em toda área do lote. É deste ano o projeto do Edifício Chopin e de vários outros no seu entorno. E são do ano seguinte as inaugurações de dois restaurantes que transformariam a Rua Domingos Ferreira em ponto de ebulição social: a pizzaria Caravelle e a primeira loja da futura rede Bob’s.”

Outros autores ainda marcam a década de 50 em Copacabana como o nascimento oficial da Bossa Nova, com a gravação do disco “Canção do amor demais” em 1958, cantado por Elizeth Cardoso com arranjos de violão de João Gilberto, e composições de Vinícius de Moraes e Tom Jobim. O bairro não só era moradia como onde os jovens artistas circulavam e gravavam.

Fonte imagem: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/07.078/295
Evolução urbana de Copacabana a partir da legislação permitida, por David e Rogério Cardeman.

Hoje Copacabana é um dos bairros formais de maior densidade demográfica do país, atingindo cerca de 50 mil habitantes por quilômetro quadrado, cerca do triplo de seu vizinho Ipanema e cinco vezes um bairro paulistano como o Itaim Bibi ou Pinheiros. Tal densidade é atingida apenas pela forma já construída, dado a regulação atual da Zona Sul do Rio de Janeiro normalmente permite edifícios menores do que os que já estão construídos no local. Este é o motivo de que raramente edifícios são demolidos, sendo normalmente apenas reformados, além de ser uma restrição adicional à ampliação da oferta imobiliária da cidade, já comprometida pela sua inserção geográfica natural entre morros e o mar. Pela sua densa forma urbana, Copacabana se tornou hoje o único bairro relativamente acessível da Zona Sul do Rio de Janeiro, além de continuar abrigando uma ampla diversidade de moradores: jovens e velhos, estudantes e trabalhadores, turistas e moradores de longa data. Com sua história de desenvolvimento urbano dinâmico, talvez seja justamente a falta de rígidas regras para as suas edificações que faz Copa seguir sendo uma referência para o urbanismo do resto do país.

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