Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar o conteúdo. Saiba mais em Política de privacidade e conduta.
A resiliência é tradicionalmente relacionada à elasticidade e possibilidade de um material retornar à sua forma original após uma tensão ou deformação. Etimologicamente, o termo resiliência deriva da palavra latina resilio: recuperar. Embora tenha sido difundido na física, ao longo do tempo esse conceito passou a ser utilizado em áreas diversas, como comportamento humano, gestão organizacional e até mesmo na área urbana.
Modelo da OECD define que uma cidade resiliente é aquela com “capacidade de absorção, recuperação e preparação para choques futuros”, sejam eles de natureza econômica, ambiental, social ou institucional. Assim, a resiliência urbana está ligada à continuidade e sobrevivência de uma cidade, passando por uma reinvenção se preciso, diante da emergência ou desastre. É a capacidade de resposta em momentos de adversidade que definem um novo “antes e depois”, uma ruptura que se sobreponha à visão de futuro daquela cidade e mude seus rumos.
As cidades são sistemas complexos, mas também vulneráveis, que precisam se transformar para enfrentar novos e incertos desafios que influenciam a qualidade de vida dos cidadãos no espaço urbano, os quais vão da desigualdade econômica e conflitos geopolíticos às mudanças climáticas e degradação ambiental. Isso quer dizer que, diferente de um material resiliente, uma cidade resiliente não retorna ao seu estado anterior após o processo de ruptura sofrido. Uma cidade resiliente se torna diversa.
Ao longo da história, cidades em diferentes regiões e continentes foram afetadas por guerras, crises e desastres, conseguindo se metamorfosear e sobreviver, como: Hiroshima, Berlim, Hong Kong, Medellín e Nova York. Esta última, após o Onze de Setembro, foi o centro de uma crise internacional. A economia foi paralisada, houve uma crise imobiliária, a violência urbana se intensificou com a diminuição de policiais nas ruas — especialmente roubos, furtos e homicídios, o turismo sofreu com a perda de cerca de um milhão de turistas e, em pouco meses, foram necessários bilhões de dólares em obras de reconstrução que transformaram a paisagem urbana. Houve ainda o impacto emocional na comunidade, com o medo, a angústia, a insegurança e a sensação de que o mundo havia mudado para sempre. Apenas após um trabalho de longo prazo, sob uma liderança definida e com base na revitalização urbana, a maior cidade dos EUA pôde se recuperar.
Na década seguinte, em 2012, Nova York sofreu o impacto de um desastre natural: o furacão Sandy. Além de deixar vítimas fatais, milhões de cidadãos ficaram sem água e energia elétrica, inundações interromperam o transporte público, milhares de pessoas foram retiradas de áreas de risco, casas foram destruídas e os danos resultaram num prejuízo estimado em US$ 19 bilhões.
Após o desastre foi preciso fazer mais do que reconstruir. Esse acontecimento provocou o desenvolvimento de novos planos, políticas e ações voltadas à redefinição de sua infraestrutura para prevenir futuros incidentes e mitigar riscos de desastres, além de repensar a habitação, as características das construções em diferentes áreas, revisar zonas de evacuação, o sistema de atendimento à população e seus instrumentos reguladores. A necessidade de mudança em diferentes aspectos de sua infraestrutura tornou-se um consenso e os antigos modelos de planejamento urbano adotados na cidade passaram a ser vistos como causa das vulnerabilidades do momento. Os efeitos das ações conjuntas realizadas após o furacão Sandy transformaram Nova York.
Com uma ruptura de natureza diversa, Medellín, segunda maior cidade colombiana, é mais uma das que utilizaram a resiliência urbana para se reinventar. Na década de 90, sob a influência do narcotráfico, a cidade era considerada a mais violenta e insegura do mundo. Duas décadas depois, em 2013, totalmente transformada, foi premiada como a mais inovadora.
Foi apenas após o início dos anos 2000 que a visão sobre essa cidade, fortemente influenciada pela violência e corrupção, começou a ser transformada. Utilizando soluções inovadoras em mobilidade como o Metrocable e as escadas rolantes da Comuna 13, novas políticas para inclusão social, recuperação de espaços públicos, melhorias nos bairros periféricos, investimento em transparência e engajamento cidadão, foi possível transformar o espaço urbano e atrair a atenção internacional para o modelo de sucesso da cidade. Uma nova Medellín.
Agora o mundo enfrenta um desafio que impacta diretamente as cidades: a pandemia do coronavírus (COVID-19). O vírus se espalhou rapidamente por todos os continentes nos últimos quatro meses e o número de casos se aproxima de dois milhões, paralisando um terço da população.
A indicação de governantes e cientistas é mantermos distância, enquanto uma das características principais da cidade é estarmos juntos, convivermos. Pesquisas apontam que as medidas restritivas impostas à população, como distância social e quarentena, podem se prolongar por anos até que haja um tratamento adequado para a doença. Apesar de algumas cidades despontarem no momento, como Bergamo, Wuhan e Teerã, esse é um problema global.
Por um lado, a disseminação do vírus expõe vulnerabilidades e provoca a reflexão sobre características específicas das cidades que poderiam ou não ter propiciado a disseminação do vírus, tais como densidade, faixa etária da população, condições de habitação e circulação de viajantes; por outro, nos desperta para uma realidade conhecida, mas subestimada pelas cidades até então.
Distância social e a mobilidade urbana
Algumas situações em curso já começam a alterar o cenário atual como, por exemplo, a mobilidade urbana. Enquanto algumas cidades passaram a adotar rapidamente medidas para permitir maior distanciamento social, tais como novas ciclovias, alargamento das calçadas, fechamento de ruas e criação de espaços sem carros para que os pedestres possam circular com uma distância de pelo menos um metro e meio, outras sentem um profundo impacto no transporte público.
Budapeste sofreu uma redução de 90% no uso de ônibus e 50% no tráfego rodoviário. Nas cidades chinesas, após o fim das restrições e quarentena, o medo de contágio na população fez com que o uso de transporte público fosse reduzido pela metade e corridas de táxis se tornassem menos frequentes, duplicando o uso de carros particulares nas ruas. Isso indica que com a pandemia há um movimento em direção ao transporte individual, como carro e bicicleta, abandonando o transporte público e opções de compartilhamento. O resultado dessa mudança será sentido negativamente no tráfego urbano, nos índices de poluição, na crise climática global e na saúde da população. Fica claro que expandir a caminhabilidade urbana, nesse contexto, torna-se cada vez mais urgente.
Em favelas brasileiras, onde muitos vivem em barracos e cortiços, não há rede de esgoto e acesso à água para todos, dificultando o cumprimento de medidas básicas para contenção do vírus. NY pedirá aos desenvolvedores de moradias acessíveis que reservem mais apartamentos aos sem-teto em edifícios que serão concluídos nos próximos meses para reduzir seu risco de contágio nas ruas. A chegada do coronavírus trouxe à tona problemas de habitação que há muito tempo precisam de resposta.
Quarentenas, lockdown e a estadia prolongada em casas e apartamentos também estimularam parte da população a repensar a qualidade e características de habitação. Em cidades italianas há indivíduos e famílias confinados há mais de quarenta dias num único espaço, o qual se torna espaço de lazer, trabalho, estudo, atividade física, confraternização e quase todas as atividades rotineiras dos moradores. Como está o bem-estar físico e mental dos confinados? As necessidades e desejos dos moradores mudaram.
Enquanto passava-se boa parte da jornada diária fora de casa, apenas condições mínimas de moradia pareciam ser suficientes para muitos na escolha de um espaço para viver. Agora, abarcando essas mudanças, o número e as dimensões das janelas, a disponibilidade de sacadas ou jardins para acessar o exterior, boa ventilação e acesso ao sol pelo menos parte do dia, passam a ter um novo peso e exigem outros critérios de avaliação.
Talvez a pandemia provoque o surgimento de uma nova arquitetura residencial, o abandono da vida vertical ou a saída de grandes centros para o interior. Há ainda a possibilidade de que parcela da população adote o home office definitivamente, empregadores estimulem o trabalho remoto, o desemprego provoque o surgimento de mais empresas domésticas e que estudantes passem a ter mais atividades virtuais, diminuindo seu tempo em sala de aula nas escolas e universidades. Nesse novo contexto, ainda fará sentido morar perto do trabalho? E da escola? Sem a necessidade de deslocamento diário à um escritório ou sala de aula, a escolha de uma região para morar será flexibilizada e o lar passará a abrigar novas atividades.
A resiliência urbana e as cidades
Estes aspectos são apenas alguns envolvidos na crise do coronavírus. O impacto da pandemia nas cidades ainda não foi completamente compreendido e será necessário um balanço posterior que considere as características e os desafios de cada local, assim como em cidades que passaram por desastres e emergências.
Porém, mesmo ainda em crise, é necessário pensar e se preparar para as próximas semanas e meses em locais onde a Covid-19 teve maior choque. Exemplos de cidades na história mostram que é possível a recuperação e transformação do espaço urbano, inclusive aumentando a vitalidade urbana e a qualidade de vida da população. Algumas reflexões são possíveis e as cidades precisam ser parte da solução. Respostas rápidas são necessárias e deixarão mudanças no espaço urbano, daí a necessidade de resiliência urbana.
Parte importante do enfrentamento ao desafio da pandemia começa em aceitar que a vida não será como antes, mudanças são necessárias e, em alguns casos, inevitáveis. A partir disso, uma boa governança é a chave para a a tomada de decisão e elaboração de planos e políticas para a cidade pós-pandemia. A governança, por sua vez, deve ser orientada por uma visão estratégica e bom uso dos dados com transparência, aliando participação cidadã e engajamento civil para transformar as cidades. A população deve ter espaço e oportunidade para dizer qual cidade que deseja após a crise e como deseja passar por essa crise.
Ouvir e envolver os cidadãos é essencial na mudança de rumos de uma cidade, seja para sua recuperação ou para a criação de novas condições.
Sua ajuda é importante para nossas cidades. Seja um apoiador do Caos Planejado.
Somos um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de trazer o debate qualificado sobre urbanismo e cidades para um público abrangente. Assim, acreditamos que todo conteúdo que produzimos deve ser gratuito e acessível para todos.
Em um momento de crise para publicações que priorizam a qualidade da informação, contamos com a sua ajuda para continuar produzindo conteúdos independentes, livres de vieses políticos ou interesses comerciais.
Gosta do nosso trabalho? Seja um apoiador do Caos Planejado e nos ajude a levar este debate a um número ainda maior de pessoas e a promover cidades mais acessíveis, humanas, diversas e dinâmicas.
É consenso entre pesquisadores que investir em infraestrutura cicloviária atrai mais pessoas à rua. A bicicleta, além de ser um carro a menos, pode ser utilizada tanto para deslocamentos curtos como para longos.
Cabo Verde, na África, tinha uma política habitacional muito voltada para a construção de novas moradias, mas reconheceu que era necessária uma nova abordagem com outras linhas de atuação. O que o Brasil pode aprender com esse modelo?
Os espaços públicos são essenciais para a vida urbana, promovendo inclusão, bem-estar e identidade coletiva, mas frequentemente são negligenciados. Investir em seu projeto, gestão e acessibilidade é fundamental para criar cidades mais justas, saudáveis e vibrantes.
O conceito da "Cidade de 15 Minutos" propõe uma mobilidade facilitada sem depender do automóvel. Como a cidade de São Paulo se encaixaria nesse contexto? Confira a análise do tempo de deslocamento dos moradores para diferentes atividades.
A taxa de vacância indica a ociosidade de imóveis em uma cidade ou região. Para construir estratégias para equilibrá-la, é preciso entender o que esse número realmente significa.
COMENTÁRIOS