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Com as cidades em processo constante de desenvolvimento, "Qual o 'caráter original' de um bairro?" é mais difícil de responder do que parece.
16 de agosto de 2021A incrível pesquisa “A Long History of a Short Block”, de Bill Easterly, Laura Freschi e Steven Pennings, analisou o desenvolvimento de uma quadra na Greene St., no bairro do SoHo, em Nova York, ao longo de quatro séculos. Neste período, a cidade se mostrou em um constante processo de desenvolvimento, mostrando que a pergunta “Qual o ‘caráter original’ de um bairro?” é mais difícil de responder do que parece.
A começar que a Manhattan de arranha-céus que conhecemos hoje é relativamente recente na sua história. Antes dos holandeses chegarem ao que chamariam de “Nova Amsterdã”, em 1625, a região era tomada por florestas e pantanais, um ecossistema rico que incluía, inclusive, ursos e lobos.


O começo do desenvolvimento urbano de Nova York deu-se no extremo sul da ilha de Manhattan. No início do século 18, a área de Greene Street, objeto do estudo, ainda fazia parte da área rural, tendo sido comprada para a instalação de uma grande fazenda.

Com a epidemia de febre amarela no final do século 18, os moradores ricos da região central, como médicos, advogados, professores, pequenos artesãos e comerciantes, migraram para a área ainda periférica da Greene St., gerando um boom construtivo de residências entre 1820 e 1830.
A partir de 1840, com a instalação de companhias privadas de transporte de carruagens omnibus, os comerciantes se mudaram ainda mais para norte, levando a quadra ao declínio econômico, transformando-se em uma área de entretenimento noturno com teatros e casas de prostituição.
Até o final do século 19, as construções eram basicamente pequenas residências de tijolos. Nesta época, empreendedores demoliram quase todas as casas para erguer edifícios de 6–7 andares, que serviriam para abrigar o epicentro da crescente indústria têxtil de Nova York.
Essa demanda industrial triplicou os valores imobiliários de 1880 a 1890, subindo até 1910. Os edifícios tinham estrutura metálica pré-fabricada e eram considerados pastiches baratos de arquitetura neoclássica. Em 1911, um grande incêndio em uma das fábricas levou à modificação dos padrões de segurança contra incêndio nos prédios, inviabilizando praticamente todas as construções industriais nos arredores da Greene St. para esse uso.
Com a realocação das indústrias para o norte de Greene Street, a região passou por um longo período de declínio, com vacância nos prédios e até um acampamento de pessoas em situação de rua. Planejadores de 1940 consideravam a área “obsoleta” e planejavam demolir os prédios para construção de uma grande rodovia urbana que atravessaria o bairro.
Na década de 1950, Robert Moses propunha demolir 20 hectares para consolidar 27 quadras em 10 “superquadras”, acompanhado de uma grande rodovia chamada LOMEX (Lower Manhattan Expressway). A hoje célebre Jane Jacobs, na época, era uma das vozes contrárias a esse tipo de renovação urbana.

Na década de 1960, motivados pelos amplos espaços e preços acessíveis, artistas e galerias de arte começaram a ocupar os espaços industriais abandonados de forma irregular, ainda zoneados para uso industrial apesar de muitas décadas já sem essa vocação.
Essa mudança de público transformou o caráter do bairro mais uma vez, e o antes “obsoleto” SoHo passou a atrair uma elite criativa com o consequente aumento dos aluguéis. Nos 1990, a região começa a receber residências e varejo de luxo, dando início às características hoje presentes.

“A Long History of a Short Block” apresenta a contínua transformação de públicos, usos e valores imobiliários de um trecho da Greene St, mostrando que a preservação arquitetônica atual guarda apenas um período específico da sua história, sendo impossível traçar ou preservar um “caráter original” de bairro em uma cidade dinâmica como Nova York.

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