Precisamos repensar os cemitérios

Cemitério São João, Porto Alegre-RS. (Imagem: Lívia Stumpf/Flickr)

“No dia seguinte ninguém morreu”. Assim começa o romance As Intermitências da Morte, do Nobel em literatura José Saramago. Nele, a morte suspende seus serviços e por algum tempo todos se mantêm vivos em um país imaginado. A metáfora magistral pensada pelo autor português, já em seus últimos pares de sapato, é base para discutir os dilemas e conflitos do fim da vida.

O mundo anda bastante inverossímil, mas a ficção de Saramago continua sendo apenas isto: ficção. Invariavelmente, portanto, ainda precisamos pensar na morte e suas implicações. Para os interessados em políticas públicas e vida urbana, como os deste espaço, a conversa é inexorável. Parte da própria ideia da fixação do ser humano (e o que de nós sobrará) em um determinado lugar, eternizada e estabelecida nos locais de sepultamento. Fincamos comunidades para estarmos perto dos nossos antepassados — e, assim, de nós mesmos.

Aderindo ao pragmatismo imposto pelo cotidiano, cabe também pensar na gestão de cemitérios e crematórios, no mercado ao seu redor, suas desigualdades desumanas, sempre de maneira racional, mas sem perder a sensibilidade necessária para o tema. Olhando para o setor no Brasil, sobram exemplos da falta desses princípios, com raras exceções. Corrupção, chantagem e extorsões, descaso na manutenção de cemitérios e privilégios aos mais ricos são exemplos cotidianos.

João José Reis mostrou em seu A Morte É uma Festa o passado distante dessa história. No século dezoito brasileiro, quando enterros ainda eram feitos em igrejas, famílias ricas pagavam fortunas para ter seus queridos sepultados ao lado dos altares, mais próximos a Deus. Isso não é nada novo: em Jerusalém, desde milênios o Monte das Oliveiras é um dos locais mais sagrados, disputados e caros do mundo. Ali, segundo à crença, se começará a ressuscitação. Muito longe da terra prometida, os escravos brasileiros eram relegados ao lado de fora das igrejas, longe da nobreza. Isso para deixar claro: sempre houve um mercado valiosíssimo ligado à morte, como Reis detalha. As grandes desigualdades sempre existiram também do lado de lá — e continuam existindo.

Monte das Oliveiras, em Jerusalém. (Imagem: Jbdodane/Flickr)

Em São Paulo, por exemplo, o Cemitério da Consolação, um dos primeiros da cidade, é conhecido por seus nobres residentes, muitas vezes enfeitados com lápides de artistas renomados. Há até passeio guiado, uma maravilhosa iniciativa. Há quinze quilômetros dali, na Vila Formosa, está um dos maiores cemitérios do mundo, espaço de ilustres desconhecidos. Ao invés de esculturas, um cenário desolador. Além dos furtos constantes, também um problema no Consolação, há falta de sinalização, covas abertas, contêineres com ossos sem marcação.

 

Áreas verdes ao léu

Os problemas da gestão cemiterial não se resumem à corrupção ou desigualdade. Cemitérios representam grandes áreas verdes e abertas, muitas vezes as únicas nos bairros onde estão. Só os cemitérios públicos em São Paulo somam mais de quatro milhões de metros quadrados — quase três vezes o tamanho do Parque Ibirapuera, por exemplo.

Cemitério da Consolação, em São Paulo-SP. (Imagem: Wikipedia)

A falta de profissionalismo e cuidado básico, desrespeito maior, não são os únicos problemas. Sepultar um ente querido muitas vezes é a única opção, quando deveria ser uma escolha — e a cremação a alternativa número um. Esta deveria ser incentivada enquanto política pública, por ser melhor financeira, espacial e ambientalmente. Com ela, o custo de manutenção e o uso territorial são mínimos. Em São Paulo, por exemplo, o único crematório — administrado pela Prefeitura — ocupa área igual a menos de 5% à destinada aos cemitérios, mas representa quase um quinto de todos os serviços fúnebres realizados pela gestão municipal. Com a cremação tampouco há grande dano ambiental, diferente dos cemitérios, que podem até contaminar solos e lençóis freáticos.


Em São Paulo, por exemplo, o único crematório — administrado pela Prefeitura — ocupa área igual a menos de 5% à destinada aos cemitérios, mas representa quase um quinto de todos os serviços fúnebres realizados pela gestão municipal.


Por isso, crematórios deveriam ser a alternativa mais barata possível, cenário bem distante da realidade. Na capital paulista, há um custo sempre acima em relação ao sepultamento, de pelo menos R$ 200 — podendo chegar a R$ 2.000. Uma das causas para isso é a absurda restrição na oferta, sendo um único crematório pouquíssimo para o tamanho da cidade e sua demanda. A oferta pela iniciativa privada deveria ser liberada, como em muitas cidades brasileiras. No entanto, a nova legislação de São Paulo (ainda em votação) finalmente autorizará a concessão dos cemitérios, mas continuará excluindo as empresas dos serviços de cremação. Que ao menos as concessionárias (ou mesmo o setor público) possam construir novos crematórios na cidade. Se necessário, inclusive, o serviço deve ser subsidiado, diminuindo o custo final às famílias e ampliando seus efeitos positivos. Se hoje a religião pode afastar a opção pela cremação, os preços definem a escolha.


Na grande maioria dos cemitérios públicos do país, e até em alguns privados, não há sequer um inventário, e a gestão muitas vezes depende do conhecimento prático de coveiros.


A falta de informação e dados são outros pontos críticos. Na grande maioria dos cemitérios públicos do país, e até em alguns privados, não há sequer um inventário, e a gestão muitas vezes depende do conhecimento prático de coveiros. A consequência direta é o mau aproveitamento do solo, sem a reutilização dos espaços após decomposição.

Se esses pontos fossem endereçados, essas áreas verdes e abertas poderiam ter outros usos, sem desrespeito aos antepassados, para além dos importantes passeios guiados e das sessões de filme de terror. Raul Juste Lores, de São Paulo nas Alturas, sempre defende, por exemplo, o fim dos muros e uma melhor iluminação nos cemitérios, o que seria excelente. Com a melhor gestão, áreas subaproveitadas poderiam virar parques ou mesmo prédios, por exemplo. Ou até um Jardim Botânico, como propõe o artista plástico Pazé, em sua recém-aberta exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.

Não há inovação na ideia. A maioria dos seus visitantes nem sabe, mas o Washington Square Park, um dos parques mais alegres de Nova York, era um cemitério no século 18. Hoje, a cidade norte-americana discute o futuro de outros cemitérios que poderiam trazer maior retorno social. É um debate global, mas o tabu brasileiro na discussão dá lugar para a corrupção e o desleixo.

Na série Billions, magnatas nova-iorquinos conversam sobre quanto valeria (US$ 350 mil) o último jazigo em Manhattan. Um espaço a ser muito melhor aproveitado, tanto lá quanto nas cidades brasileiras.


João Melhado é economista, mestrando em administração pública pela Universidade Columbia, com foco em cidades e tecnologia.

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    Hugo Tanure

    Olá João boa noite. Parabéns por sua matéria. Gostaria de lhe propor uma visita ao nosso website(www.bioparquebrasil.com.br), assim como nosso Instagram (@Bioparquebrasil), para que possa conhecer um pouco sobre nossa ecológica iniciativa.

    Saudações

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    Paula

    Gostei do artigo, dá que pensar.

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