Praças que cuidam: envelhecer na cidade
Foto: Ciro Férrer

Praças que cuidam: envelhecer na cidade

Em Fortaleza, Ceará, estudo mostra como as praças públicas influenciam a saúde mental de pessoas idosas. Entre falhas de acessibilidade, resiliência ao desconforto térmico e experiências de afeto, esses espaços revelam seu potencial como infraestrutura de cuidado urbano.

2 de abril de 2026

Desde 1950, o crescimento populacional, a urbanização e o aumento da expectativa de vida transformaram rapidamente países como o Brasil. De acordo com as projeções demográficas da Organização das Nações Unidas, o número de brasileiros com 60 anos ou mais deverá ultrapassar a população de jovens entre 0 e 14 anos em 2029. Consequentemente, tal cenário encurtou o tempo para que políticas públicas e o próprio desenho das cidades ou interferências espaciais incorporem aspectos que respondam às necessidades e à compreensão do corpo envelhecido. 

As praças sempre ocuparam um lugar central na vida urbana. Desde a Antiguidade, foram concebidas como espaços de encontro, convivência e circulação. Em cidades brasileiras, continuam sendo a “sala de estar” coletiva, especialmente para quem já se aposentou e encontra no espaço público uma extensão da própria casa.

Em Fortaleza, a pesquisa “Longevidade, Acessibilidade Urbana e Conforto Ambiental” investigou como três praças aparentemente distintas influenciam a saúde mental de pessoas idosas. A pesquisa combinou medições técnicas (quantitativas), como acessibilidade, iluminação, ruído, qualidade do ar e conforto térmico, junto a entrevistas (qualitativas). O resultado, que contou com a participação de 236 pessoas idosas, revela uma relação complexa: mesmo com problemas de acessibilidade e manutenção, as praças seguem sendo espaços de afeto, espiritualidade, pertencimento e vitalidade.

Leia mais: Envelhecimento solitário: é possível influenciar a socialização por meio do planejamento urbano?

Entre obstáculos e vínculos

Durante a pesquisa, os participantes apontaram falhas objetivas: calçadas danificadas, raízes expostas, desníveis e lixo no chão. Esses elementos aumentam o risco de quedas e limitam a circulação segura. Em uma cidade onde o envelhecimento avança de forma acelerada, tais barreiras têm impacto significativo tanto na autonomia quanto na independência das mais de 261 mil pessoas idosas residentes em Fortaleza.

Ainda assim, a maioria dos entrevistados relatou sentimentos positivos. O convívio social apareceu como fator central. Caminhar, sentar ao fim da tarde, conversar com conhecidos e observar o movimento foram descritos como práticas que mantêm “o corpo ativo” e “a mente viva”.

Na Praça Santo Afonso, por exemplo, a proximidade com a igreja intensificou a dimensão espiritual da experiência. A fé foi mencionada como elemento que fortalece o sentido de pertencimento e continuidade. O espaço físico, nesse caso, não é apenas ambiente de passagem: ele possibilita encontros, atividades físicas, rituais e memórias.

Praça Santo Afonso, também conhecida como Praça Igreja Redonda, em Fortaleza. Imagens: Ciro Férrer

Corpo, sentidos e cidade

O envelhecimento pode reduzir a acuidade de sentidos como visão e audição, além de afetar equilíbrio e coordenação motora. No entanto, a experiência urbana é multissensorial. Quando o ambiente oferece estímulos adequados, como sombra, ventilação, sons agradáveis, texturas reconhecíveis e calçadas sem obstáculos, diferentes sentidos podem se complementar e tornar a funcionalidade do cidadão longevo possível.

A pesquisa em questão mostrou que, embora aspectos como poluição sonora e carência de iluminação adequada tenham sido detectados por equipamentos técnicos, esses fatores foram pouco mencionados nas entrevistas. Já elementos visuais, como irregularidades no piso e acúmulo de lixo nas ruas, foram prontamente identificados. Isso sugere que parte da percepção ambiental ocorre de forma automática, enquanto outra depende de sistematização do conhecimento e pesquisa que exigem reflexão para responder questões não perceptíveis pelos entrevistados.  

O conceito de affordance, termo que pode ser entendido como as possibilidades de ação que o ambiente oferece, ajuda a explicar esse processo. Uma praça com bancos acessíveis e ergonômicos, caminhos contínuos e áreas sombreadas “convida” ao uso. Já um espaço fragmentado e inseguro tende a afastar o corpo envelhecido.

Análise das condições dos bancos na Praça Argentina, em Fortaleza. Imagens: Ciro Férrer

A ideia de “cidadania mutilada”, compreendida a partir da obra de Milton Santos, analisa como a urbanização desigual limita as possibilidades de acesso real das pessoas aos benefícios da vida urbana. Afinal, conforme defende o próprio autor, a cidade deve ser compreendida como o espaço onde se concretizam oportunidades de trabalho, mobilidade, cultura, serviços, convivência e participação social. 

Na cidade de São Paulo, por exemplo, a expectativa de vida entre um bairro e outro pode variar até 24 anos. Já em Fortaleza, a variação pode chegar a 21 anos. Dessa forma, o desenho da cidade molda comportamentos cotidianos e impacta diretamente a saúde mental, a autonomia e a forma como diferentes corpos vivenciam e participam da vida urbana. 

Saúde além da ausência de doença

Em 2020, a Organização Mundial da Saúde lançou a Década do Envelhecimento Saudável (2021–2030). A proposta é clara: não basta viver mais, é preciso viver melhor. 

As evidências observadas durante a pandemia, por exemplo, reforçaram esse entendimento: os piores desfechos estavam associados à fragilidade e às comorbidades, e não simplesmente aos anos vividos. Entende-se, assim, que o envelhecimento saudável depende da interação entre capacidades individuais e ambientes favoráveis. 

Em Fortaleza, ficou evidente que a presença de natureza, sombreamento e espaços de encontro contribui para reduzir o isolamento social e estimular a participação comunitária. A permanência frequente na praça foi associada a sentimentos de alegria, acolhimento e segurança, ainda que esta última tenha variado conforme o horário e o fluxo de pessoas.

Ao mesmo tempo, a pesquisa identificou episódios de insegurança durante medições técnicas realizadas em períodos de menor movimento. Isso reforça que infraestrutura física e gestão urbana caminham juntas. Iluminação adequada, policiamento comunitário e programação cultural regular possuem a capacidade de ampliar a sensação de proteção.

Transição de atividades diurnas e noturnas na Praça Argentina. Imagens: Ciro Férrer

Planejar com quem envelhece

O envelhecimento não é um fenômeno periférico. Ele ocorre no centro das cidades, nos bairros consolidados, nas áreas de expansão. Planejar praças acessíveis não é apenas efetivar a norma técnica, mas garantir o direito de permanecer e circular com segurança, dignidade, autonomia e independência.

Superfícies regulares, rampas com inclinação adequada, bancos ergonômicos, áreas sombreadas e equipamentos de atividade física ao ar livre são soluções concretas. Medidas de moderação de tráfego no entorno das praças públicas ampliam a segurança de quem atravessa a rua com mobilidade reduzida. Além disso, ouvir atentamente as pessoas idosas deve fazer parte do planejamento e da gestão dos espaços urbanos. 

Leia mais: Como tornar uma cidade amigável para os idosos?

Praças como infraestrutura de cuidado

Os resultados demonstram que as praças vão além de sua função recreativa: configuram-se como verdadeiras infraestruturas de cuidado urbano. Ao promover encontros, incentivar a mobilidade e possibilitar o contato com a natureza, esses espaços contribuem diretamente para a preservação da saúde mental. 

Evidências científicas associam a permanência frequente em áreas abertas à redução de sintomas de ansiedade, à melhora do sono e ao fortalecimento da memória e da atenção. Em um país como o Brasil, marcado por desigualdades no acesso aos serviços de saúde, a qualificação e o fortalecimento do espaço público constituem também uma estratégia preventiva.

Cuidar da cidade é, portanto, cuidar das pessoas que nela envelhecem.

Em Fortaleza, apesar das limitações identificadas, as praças analisadas mantêm relevante valor simbólico e afetivo. Mesmo a frequência esporádica favorece a manutenção de vínculos sociais e reforça o sentimento de pertencimento urbano. Envelhecer, nesse contexto, não deve significar retraimento, mas continuidade da participação na vida da cidade.

Assim, o cuidado ultrapassa a dimensão exclusivamente social: é também político, espacial e ecológico. O envelhecimento deve ser compreendido como uma responsabilidade coletiva, que precisa se materializar na arquitetura e no desenho urbano. Cuidar da cidade é, portanto, cuidar das pessoas que nela envelhecem.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é arquiteto e urbanista, mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Também é pós-graduado em Gerontologia, Neuroarquitetura e Neurociência pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Está como conselheiro titular no Conselho Municipal do Direito à Pessoa Idosa (CMDPI) na cidade de Fortaleza, Ceará.

Zilsa Maria Pinto Santiago é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e doutora em Educação pela UFC. Possui especialização em Neurociência pelo Instituto de Desenvolvimento Educacional (IED). Está como docente associada do Instituto de Arquitetura, Urbanismo e Design (IAUD), vinculado à UFC. 

Este artigo ficou em 2º lugar no Concurso de Artigos do Caos Planejado de 2026.

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