Patinete elétrico: resolvendo o problema da última milha

Os patinetes elétricos da Yellow já estão presentes em mais de 10 cidades brasileiras. (Yellow/Divulgação)

Os sistemas de aluguel sem estação fixa (dockless sharing) de patinetes elétricos têm incomodado muita gente e agradado tantas outras. Este fantástico meio de transporte veio para ficar e os municípios devem reconhecer seus benefícios e tentar mitigar seus custos e externalidades.

Os sistemas de patinetes elétricos sem estações vêm crescendo exponencialmente pelo mundo afora em pouco mais de um ano de atividade. Nos EUA, a Lime alcançou, em um ano, seis milhões de viagens em bicicletas e patinetes. Em outras cidades, acabam por surgir concorrentes locais, como é o caso da VOI em Estocolmo ou a Iomo em Lisboa. No Brasil, algumas cidades já começam a ter esses serviços.

O patinete (ou trotinete, em Portugal), especialmente o elétrico, oferece grandes vantagens nos deslocamentos curtos urbanos, podendo ser alternativa para quem não quer ou não gosta de pedalar, mas aprecia a praticidade da bicicleta. Somado a isso, ajuda a resolver os problemas first/last mile, sendo um complemento para os sistemas de transporte público. Ele também apela muito para o pedestre, que busca acelerar um pouco sua viagem sem perder a comodidade de andar a pé. No entanto, surgem duas questões: por onde elas devem andar e onde devem ser estacionadas (visto que são um sistema dockless).

 

Repensando as ciclovias

Antes do boom dos patinetes elétricos nos EUA, os parisienses já estavam acostumados a vê-los percorrendo a cidade. Utilizados geralmente nas ciclovias, esses pequenos veículos já fazem parte do cenário de Paris há muito tempo. Diferente do que se vivencia em São Francisco, onde os patinetes são elétricos e de aluguel, os franceses eram mecânicos e de uso privado.

Importante notar que estes pequenos veículos são mesmo veículos, e não devem circular na calçada. A calçada é um espaço urbano muito importante que deve ser guardado para o pedestre. No entanto, o uso dos patinetes elétricos nas calçadas é muito comum, visto que muitos de seus usuários são pedestres que apreciam a simplicidade de uso associada a este pequeno veículo: a pessoa facilmente monta e desmonta do patinete, voltando a andar a pé e carregando-o debaixo do braço. No entanto, um volume excessivo de patinetes circulando nas calçadas é incompatível com o tráfego de pedestres.

Carteiros experimentando os novos patinetes Autoped do Serviço Postal dos EUA em 1915. Autoped, o primeiro scooter motorizado, também contava com uma versão elétrica. (Imagem: Mashable)

Mas então onde eles devem circular? O melhor lugar é (quando existente) a ciclovia.  Alguns especialistas apontam a necessidade de repensarmos o propósito da ciclovia: além de mudar o seu nome, devemos também repensar suas especificações de projeto, de forma que esta infraestrutura esteja preparada para este novo meio de transporte. A empresa Bird já se ofereceu para pagar essa nova infraestrutura em algumas cidades americanas.

Mas e onde não há ciclovias? Se a convivência das bicicletas com os carros já é perigosa, com os patinetes — com movimento e nível de segurança semelhante ao de um pedestre — os problemas podem ser ainda maiores. Como de costume, muitas especialistas tentam culpar “a vítima” (o patinete) e não o verdadeiro causador das situações inseguras, o excesso de tráfego. Em situações como essas, a redução de velocidades e conceitos como shared spaces, ou “espaços compartilhados”, podem ser implantados.

 

Estacionando o patinete

Os sistemas dockless podem trazer um grande incômodo para os cidadãos: como não há uma “doca” (dock) própria para estacionar seus veículos, eles acabam por ocupar lugares inapropriados, atrapalhando os pedestres. Assim como, logo no início da massificação do automóvel, alguém teve a ideia de organizar/regular o estacionamento do automóvel, chegou a hora de fazer o mesmo com os patinetes elétricos.

Lisboa passou a ser recentemente um novo mercado da empresa Lime. Como a cidade ainda não possui regulação específica para esse tipo de sistema, é uma cena comum patinetes ocuparem as calçadas desordenadamente. Algumas ideias endereçando a este problema começam a surgir e passam, exatamente, por criar “docas” demarcadas no chão, onde esses veículos podem ser deixados à espera do próximo cliente. No fim das contas, o sistema “dockless” não é tão “less” assim.

 

Modelo de negócio x Uso pessoal

É um sistema economicamente sustentável? Essa questão permeia todos os novos sistemas compartilhados (shared mobility). Mesmo empresas como a Uber, que parecem referência de sustentabilidade econômica, estão constantemente operando no prejuízo. A aquisição que a Ford fez da Spin passa uma ideia de que “o negócio promete”, mas a mesma Ford em 2017 adquiriu a Chariot que, recentemente, anunciou o encerramento das operações.

A Grin conta com a colaboração (remunerada) de moradores para carregar seus patinetes. Eles recebem por recolherem os patinetes sem bateria, carregá-los e devolvê-los às estações. (Imagem: Grin/Divulgação)

Ainda é muito cedo para dizer se estes negócios são viáveis. No entanto, o preço final para o utilizador é ainda caro, especialmente no contexto brasileiro, e a taxa de manutenção e substituição desses patinetes deve também ser alta, considerando o elevado volume de patinetes destruídos, roubados e vandalizados (algo também verificado nas bicicletas sem estação) e também a pouca resistência ao clima severo do inverno. No Brasil há startups acreditando neste modal, já especialistas apontam o contrário, e questionam a viabilidade financeira desses modelos de negócio. O dinheiro de investidores nesses modais pode estar sendo jogado fora por uma falta de entendimento dos use cases do patinete no sistema de mobilidade. Assim como a bicicleta sem estação, o patinete entrou em cidades sem qualquer legislação específica, causando ainda mais transtorno que o esperado. A legislação é importante, mas deve ser feita de tal forma que possibilite o sucesso do negócio, não o matando logo no início.

Um fator que essas startups devem considerar é que ninguém vai deixar de comprar um carro por causa desses serviços. Exceto em centros urbanos muito congestionados ou com custos elevados de estacionamento, as famílias vão continuar comprando carros. Elas podem usá-lo meno ou mais racionalmente devido à disponibilidade desses novos modais. Essas empresas devem focar em um preço final para o cliente mais baixo que o custo de uso diário do carro, sem levar em consideração o custo de aquisição ou manutenção que, para um carro, seria muito maior. Isso vale para várias questões relacionadas com o planejamento e gestão da mobilidade urbana.

Outra questão relevante diz respeito ao método de carregamento das baterias, um procedimento complexo considerando a dinâmica de uso dos patinetes. Como não há uma estação ou doca para carregamento, uma pessoa precisa rodar pela cidade e recarregar as baterias dos patinetes para estarem prontas para o próximo cliente. Esse trabalho acaba sendo não apenas caro por si só, mas gera muita poluição, pois obriga que um carro circule pela cidade à procura dos patinetes sem carga.

Já para uso pessoal, não necessariamente compartilhados por startups, os patinetes são muito interessantes, elétricos ou não. Eles são relativamente baratos e muito versáteis, pois podem ser facilmente transportados debaixo do braço ou no transporte público. E, assim como a bicicleta, esses pequenos veículos têm um potencial tremendo se existirem infraestruturas adequadas de circulação e estacionamento nas nossas cidades.

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