Palmas: planejada para negar a cidade

Em julho de 2015, tive a oportunidade fascinante de conhecer uma cidade com menos de 30 anos de existência, inteiramente planejada, incrustada no centro geográfico do Brasil. Surgida da demanda de uma capital para o recém-criado estado do Tocantins, Palmas tem quase todo seu perímetro urbano planejado (a exceção de suas bordas). Tem avenidas gigantes e espaçadas (em boa parte sem calçadas), rotatórias até onde não há cruzamento, marginais em vias onde não há muito trânsito, quadras em desenhos excêntricos e com muitos espaços vazios entre elas como, por exemplo, “a maior praça da América Latina”, exagerado para uma cidade com pouco mais de 250 mil habitantes. Estranhamente, para uma capital, a cidade tem poucas pessoas à vista. O eixo central é composto da principal atividade econômica da cidade, a administração pública (55% dos empregos), que dá a tônica do comércio e serviços, e também é pouco ocupado.

Subproduto da visão modernista, onde o mote era planejar, segregar e fatiar para a cidade “funcionar” em perfeita “ordem”, a capital do Tocantins exemplifica teorias que julgavam possível dominar toda a dinâmica humana (social, econômica, cultural e política) por “mentes brilhantes” com planos infalíveis. No papel, poderia parecer uma grande ideia (claro, porque não corrigir todos os problemas que as cidades brasileiras expunham nos anos 70 e 80, em meio a suas explosões demográficas?), mas na prática não me senti em uma cidade — nem em um povoado, na verdade. Os benefícios de se morar no urbano — a proximidade, a criação espontânea, a conveniência, a economia de escala, a diversificação — me pareceram ausentes. Mesmo considerando pequenas cidades ou povoados, as grandes distâncias e a segregação extrema não parecem configurar o urbano.


No papel, poderia parecer uma grande ideia, na prática não me senti em uma cidade nem em um povoado, na verdade.


O comércio é esparso e pouco diversificado, desconcentrado. Não me pareceu algo fora do dia-a-dia da cidade levar minutos para atravessar de um a outro lado de uma avenida e, analisando o desenho de Palmas, não me surpreende a sensação de vazio ou a baixa dinamização comercial. O autoritarismo do planejamento centralizado e segregador impôs uma chaga nas cidades e nos projetos habitacionais com planos urbanos modernistas ao longo de todo o século XX, com problemas que, com tempo, ficaram evidentes no mundo todo. Palmas é uma Brasília em menor escala, como bem pontuaram diversos amigos. As distâncias entre locais comuns ao cidadão — a casa, as lojas, a universidade — parecem muito distantes umas das outras em Palmas e, sob temperaturas beirando os 40 graus, as caminhadas pareciam sacrifícios, ainda que, com lindas visões de pôr-do-sol nas margens do Rio Tocantins, inegavelmente valiam o esforço.

Ao questionar alguns sobre as peculiaridades de Palmas e seu plano, me argumentaram: “a cidade está desocupada agora, mas logo cresce e, sob o planejamento, será um crescimento ordenado”. Brasília veio a baila novamente: a perfeição do Plano Diretor foi trocada pelo caos atual do vai-e-vem das cidades satélites, expondo a gritante desigualdade espacial e social na sede do Governo Federal. Em Palmas, não me pareceu diferente, especialmente ao passar pela entrada da cidade (bairro de Aureny III), no limite sudeste do Plano, localidade claramente diversa ao resto da cidade: ruas de larguras normais, calçadas (!), comércio mais vibrante e dinâmico (um do lado do outro, com a presença de ambulantes), fluxo contínuo de pessoas. Os elementos que esperamos encontrar numa cidade aqui funcionavam muito melhor que o resto. No entanto, percebi aqui a constituição de um padrão extremo de desigualdade espacial engendrado no próprio planejamento da cidade e em seu plano urbanístico, cuja prática leva a continuidade do padrão de desigualdade social: tal qual ocorre na capital federal, é negado o acesso ao polo de oportunidades que se configuram os supostos centros dinâmicos das cidades.

Pouco para minha surpresa, aquele era o equivalente da cidade satélite: “pobre não tem dinheiro para os preços da parte planejada e vive aqui”, me disse um morador local. Originalmente, toda de terrenos da União, a cidade tem um imenso código urbanístico, típico de uma cidade planejada (obrigatoriedade de recuos gigantescos, restrições legais, limites ao adensamento e quadras espaçadas), que orienta o Plano aos funcionários públicos do aparato administrativo que se criou com o Tocantins. Ademais, a pouca oferta imobiliária é resultado também do baixo dinamismo econômico, contribuindo para manter preços altos por toda a área planejada.

Caso cresça como Brasília, Palmas me pareceu fadada ao mesmo caminho, de um movimento pendular diário enorme de trabalhadores das áreas satélites para a parte central, onde se concentram os empregos. Além disso, as grandes distâncias e baixo adensamento verificados dentro do próprio plano apontam também para os mesmos congestionamentos terríveis da capital federal. Resultado de uma ficção que nega o urbano para manter a ilusão de cidade para os permitidos na parte planejada, talvez se mostre adequada para montadoras de carros, para a vaidade de urbanistas utópicos, para políticos e burocratas — como novo cabide de empregos — e para quem gosta da emoção de rotatórias. Certamente, pouco contribui para a cidadania que se constrói com o contato, para movimentos dinâmicos sociais e econômicos, para o funcionamento do comércio, e para o dia a dia de quem tem que se locomover e viver pela cidade. O caso de Palmas exacerba a falha do planejamento imposto, sem construção com seus habitantes e sem pensar-se nas dinâmicas urbanas de deslocamentos, produção e convívio mútuo – no fim, uma negação da cidade que prejudica seus mais proveitosos mecanismos.

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    1. Avatar

      Maurício Motta

      Este é um caso típico de um projeto urbanístico muito bonito no papel, porém sem efeito prático quando executado.
      Profissionais teóricos, que não fazem estudo de impacto social.
      É o mesmo caso de engenheiros de trafego que nunca usaram transporte público.

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