Palmas: planejada para negar a cidade

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Vista da Avenida Teotônio Segurado em Palmas. Foto: Wikipedia

Em julho de 2015, tive a oportunidade fascinante de conhecer uma cidade com menos de 30 anos de existência, inteiramente planejada, incrustada no centro geográfico do Brasil. Surgida da demanda de uma capital para o recém-criado estado do Tocantins, Palmas tem quase todo seu perímetro urbano planejado (a exceção de suas bordas). Tem avenidas gigantes e espaçadas (em boa parte sem calçadas), rotatórias até onde não há cruzamento, marginais em vias onde não há muito trânsito, quadras em desenhos excêntricos e com muitos espaços vazios entre elas como, por exemplo, “a maior praça da América Latina”, exagerado para uma cidade com pouco mais de 250 mil habitantes. Estranhamente, para uma capital, a cidade tem poucas pessoas à vista. O eixo central é composto da principal atividade econômica da cidade, a administração pública (55% dos empregos), que dá a tônica do comércio e serviços, e também é pouco ocupado.

Subproduto da visão modernista, onde o mote era planejar, segregar e fatiar para a cidade “funcionar” em perfeita “ordem”, a capital do Tocantins exemplifica teorias que julgavam possível dominar toda a dinâmica humana (social, econômica, cultural e política) por “mentes brilhantes” com planos infalíveis. No papel, poderia parecer uma grande ideia (claro, porque não corrigir todos os problemas que as cidades brasileiras expunham nos anos 70 e 80, em meio a suas explosões demográficas?), mas na prática não me senti em uma cidade – nem em um povoado, na verdade. Os benefícios de se morar no urbano – a proximidade, a criação espontânea, a conveniência, a economia de escala, a diversificação – me pareceram ausentes. Mesmo considerando pequenas cidades ou povoados, as grandes distâncias e a segregação extrema não parecem configurar o urbano.


“No papel, poderia parecer uma grande ideia, na prática não me senti em uma cidade – nem em um povoado, na verdade”


O comércio é esparso e pouco diversificado, desconcentrado. Não me pareceu algo fora do dia-a-dia da cidade levar minutos para atravessar de um a outro lado de uma avenida e, analisando o desenho de Palmas, não me surpreende a sensação de vazio ou a baixa dinamização comercial. O autoritarismo do planejamento centralizado e segregador impôs uma chaga nas cidades e nos projetos habitacionais com planos urbanos modernistas ao longo de todo o século XX, com problemas que, com tempo, ficaram evidentes no mundo todo. Palmas é uma Brasília em menor escala, como bem pontuaram diversos amigos. As distâncias entre locais comuns ao cidadão – a casa, as lojas, a universidade – parecem muito distantes umas das outras em Palmas e, sob temperaturas beirando os 40 graus, as caminhadas pareciam sacrifícios, ainda que, com lindas visões de pôr-do-sol nas margens do Rio Tocantins, inegavelmente valiam o esforço.

Ao questionar alguns sobre as peculiaridades de Palmas e seu plano, me argumentaram: “a cidade está desocupada agora, mas logo cresce e, sob o planejamento, será um crescimento ordenado”. Brasília veio a baila novamente: a perfeição do Plano Diretor foi trocada pelo caos atual do vai-e-vem das cidades satélites, expondo a gritante desigualdade espacial e social na sede do Governo Federal. Em Palmas, não me pareceu diferente, especialmente ao passar pela entrada da cidade (bairro de Aureny III), no limite à sudeste do Plano, localidade claramente diversa ao resto da cidade: ruas de larguras normais, calçadas (!), comércio mais vibrante e dinâmico (um do lado do outro, com a presença de ambulantes), fluxo contínuo de pessoas. Os elementos que esperamos encontrar numa cidade aqui funcionavam muito melhor que o resto. No entanto, percebi aqui a constituição de um padrão extremo de desigualdade espacial engendrado no próprio planejamento da cidade e em seu plano urbanístico, cuja prática leva a continuidade do padrão de desigualdade social: tal qual ocorre na capital federal, é negado o acesso ao polo de oportunidades que se configuram os supostos centros dinâmicos das cidades.

Pouco para minha surpresa, aquele era o equivalente da cidade satélite: “pobre não tem dinheiro para os preços da parte planejada e vive aqui”, me disse um morador local. Originalmente, toda de terrenos da União, a cidade tem um imenso código urbanístico, típico de uma cidade planejada (obrigatoriedade de recuos gigantescos, restrições legais, limites ao adensamento e quadras espaçadas), que orienta o Plano aos funcionários públicos do aparato administrativo que se criou com o Tocantins. Ademais, a pouca oferta imobiliária é resultado também do baixo dinamismo econômico, contribuindo para manter preços altos por toda a área planejada.

Caso cresça como Brasília, Palmas me pareceu fadada ao mesmo caminho, de um movimento pendular diário enorme de trabalhadores das áreas satélites para a parte central, onde se concentram os empregos. Além disso, as grandes distâncias e baixo adensamento verificados dentro do próprio plano apontam também para os mesmos congestionamentos terríveis da capital federal. Resultado de uma ficção que nega o urbano para manter a ilusão de cidade para os permitidos na parte planejada, talvez se mostre adequada para montadoras de carros, para a vaidade de urbanistas utópicos, para políticos e burocratas – como novo cabide de empregos – e para quem gosta da emoção de rotatórias. Certamente, pouco contribui para a cidadania que se constrói com o contato, para movimentos dinâmicos sociais e econômicos, para o funcionamento do comércio, e para o dia-a-dia de quem tem que se locomover e viver pela cidade. O caso de Palmas exacerba a falha do planejamento imposto, sem construção com seus habitantes e sem pensar-se nas dinâmicas urbanas de deslocamentos, produção e convívio mutuo – no fim, uma negação da cidade que prejudica seus mais proveitosos mecanismos.

Luiz Eduardo Peixoto é estudante de economia da FEA-USP e pesquisador do Núcleo de Economia Regional e Urbana

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