Como as cidades podem se relacionar melhor com seus rios
Enquanto continuarmos planejando cidades de forma desconectada de seus sistemas naturais, seguiremos surpreendidos por enchentes esperadas e perdas evitáveis.
Com a implantação de uma taxa de congestionamento, Nova York se tornou mais um exemplo que teve resultados positivos após a medida. O que as cidades brasileiras podem aprender com isso?
23 de fevereiro de 2026Em 2025, Nova York se tornou a primeira cidade dos Estados Unidos a implantar uma taxa de congestionamento. Também conhecida como “pedágio urbano”, essa é uma estratégia em que se cobra um valor para os automóveis circularem em uma parte da cidade, visando principalmente diminuir o volume de veículos e redistribuir de forma mais equilibrada e eficiente o uso do espaço viário. No caso de Nova York, são cobrados U$ 9,00 para um automóvel circular em uma parte de Manhattan entre 5h e 21h em dias úteis, com algumas mudanças dependendo do dia, horário e tipo de veículo.
A ideia, que pode causar certo estranhamento ou indignação para alguns, não é nova: Singapura inaugurou a medida ainda em 1975 e reduziu o congestionamento em 20% em apenas alguns meses. No início dos anos 2000, Londres e Estocolmo seguiram o mesmo caminho, e em ambas quase metade dos moradores eram contra a taxa de congestionamento quando ela foi implantada. Porém, foram necessários poucos meses para a opinião pública nas pesquisas mudar, diante de consequências como o alívio dos congestionamentos, o aumento da velocidade dos ônibus e o uso da arrecadação para melhorar a rede de transporte público.
Em Nova York, a história se repete. A oposição, que poderia ser esperada em qualquer cidade, ganhou uma forte repercussão em um país que teve o seu desenvolvimento urbano marcado pelo rodoviarismo. O próprio presidente dos EUA, Donald Trump, declarou que a medida era “um desastre”, que prejudicaria os empreendedores locais, e sugeriu acabar com as ciclovias, que, segundo ele, contribuem para o congestionamento. Suas tentativas de travar a taxa de congestionamento levaram a um processo judicial que ainda está em curso.
Mas há algo mais importante que as percepções individuais e as forças políticas para o planejamento urbano: os dados da vida real. E eles não negam: diante dos resultados alcançados, a taxa de congestionamento de Nova York se mostrou ser um sucesso, como era esperado. Não é preciso muito esforço para enxergar os benefícios.
Leia mais: Como a taxa de congestionamento torna as cidades mais acessíveis
Desde o início da taxa de congestionamento em Nova York, 11% dos veículos que circulavam no centro de Manhattan sumiram. Foram 27 milhões de viagens a menos ao longo de um ano, uma média de 73.000 veículos a menos por dia. Isso significa menos trânsito, menos poluição e menos barulho. E também aponta para a possibilidade de trajetos mais rápidos, seguros e confortáveis para pedestres, ciclistas e passageiros do transporte coletivo.

Uma pesquisa da Cornell University mostrou que houve uma redução de 22% na poluição do ar dentro da zona onde a taxa é cobrada. Mas o fenômeno não se limitou a Manhattan: as áreas ao redor da zona também apresentaram uma relativa melhora na qualidade do ar, o que indica uma mudança mais ampla nos padrões de deslocamento, que indiretamente beneficia bairros e cidades vizinhas.
O que também ajuda a explicar a queda no barulho e na poluição é a redução em 18% dos caminhões que adentravam a área. A taxa, que é mais cara para esse grupo (para veículos maiores chega a U$ 21,60), funcionou como um incentivo para a otimização da logística. Agora, para ter gastos menores, esses veículos precisam concentrar suas rotas e fazer entregas fora dos horários de pico.
Com menos carros nas ruas, a velocidade dos automóveis aumentou 23% dentro da zona. A dos ônibus aumentou 2,4%, o que pode parecer pouco expressivo e precisa ser acompanhado de outros tipos de política, mas representa a reversão de uma tendência de queda de velocidade que foi vista em 2023 e 2024. O estudo “The Short-Run Effects of Congestion Pricing in New York City” aponta que os tempos de deslocamento para os motoristas que circulam fora da zona também diminuíram.
O transporte público de Nova York, que (assim como em várias cidades) ainda não recuperou o número de passageiros antes da pandemia de COVID-19, viu a quantidade de viagens aumentar após a taxa de congestionamento. As viagens de metrô para entrar na zona cresceram 9%, as dos ônibus expressos subiram 7,8% e as dos ônibus locais, 8,4%.
O tráfego de pedestres na zona também aumentou 3,4%, o que beneficia diretamente os empreendedores locais, ao contrário do que Donald Trump previa. A vacância de espaços comerciais com fachadas viradas para a rua caiu 0,9%, refletindo uma demanda crescente. A receita de impostos sobre vendas subiu mais de 6% em Nova York, e a Broadway teve a sua melhor temporada da história, com um aumento de 23% nas vendas de ingressos. Isso indica que a taxa não leva ao fracasso comercial nem impede as pessoas de chegarem aos destinos que desejam, como os opositores recorrentemente alegam.
Além de mais numerosos, os pedestres também estão mais seguros. Os acidentes de trânsito dentro da zona onde a taxa é cobrada tiveram um declínio de 7%. Até julho de 2025, as mortes no trânsito na área haviam diminuído 40%, de acordo com a Polícia de Nova York. Esses números representam vidas de pedestres, ciclistas e até de motoristas que foram preservadas como consequência dessa medida.
O valor arrecadado com a taxa também é um elemento importante nessa estratégia. Em Nova York, ele superou as previsões, com U$ 562 milhões durante o primeiro ano. Esse valor está sendo usado para ajudar a financiar projetos amplos de melhorias na rede de transportes, incluindo novos trens no metrô, obras de acessibilidade nas estações e extensões das linhas. Uma crítica comum à taxa de congestionamento é que ela prejudica principalmente os trabalhadores que se deslocam de carro e que não conseguem arcar com esse custo adicional. Porém, se os recursos arrecadados com a taxa são usados para melhorar o transporte público, o resultado dela é favorecer um grupo ainda mais necessitado: quem depende desse transporte todos os dias.

Os dados até agora são um forte indicativo de que a taxa de congestionamento pode melhorar a qualidade de vida dos moradores, incentivar padrões de viagem mais sustentáveis e eficientes, além de beneficiar a economia local, a segurança e a saúde da população.
É comum pensar que esse tipo de medida seria politicamente inviável em qualquer cidade brasileira. Por outro lado, precisamos nos atentar para a cruel realidade de que a impopularidade de algumas decisões técnicas muitas vezes condenam boa parte da população a viver em condições piores. No caso da taxa de congestionamento, os benefícios ao longo do tempo são claros, amplos e até capazes de mudar a opinião pública, como os exemplos mostram.
Leia mais: São Paulo precisa de uma taxa de congestionamento
Olhando para o caso de Nova York, algumas lições se destacam:
A ideia da taxa de congestionamento sempre vem acompanhada de discussões que envolvem diversos pontos de vista. Porém, algo é certo: o caso de Nova York merece ser acompanhado, e até agora ele tem se mostrado promissor.
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