Especial Tóquio | Dos samurais à Segunda Guerra Mundial

Mapa de Edo, atual Tóquio, 1849. (Imagem: Wikimedia)

Um castelo rodeado por campos de arroz, em uma sociedade feudal onde camponeses eram presos à terra e impostos cobrados em arroz. Samurais — uma das mais altas hierarquias sociais antes dos shoguns —, ocupavam a área central. Tóquio, então chamada de Edo, se desenvolveu ao redor de seu castelo, hoje a área do Palácio Imperial de Tóquio. Estima-se que Edo já possuía mais de um milhão de habitantes no século 18, sendo a maior cidade do mundo até ser superada por Londres e Pequim durante o século 19.

Nas áreas urbanas populares, onde a maioria das pessoas moravam, densidades demográficas chegavam a 58 mil habitantes por quilômetro quadrado, com cortiços de madeira de um ou dois andares e, em média, 15 metros quadrados, chamados nagayas. Nagayas eram normalmente construídas como casas de aluguel dentro de propriedades maiores, com espaço nos seus terrenos. Na região dos samurais, as densidades eram quatro vezes menores e, perto dos templos, dez vezes menores. Assim era a cidade de Edo até o fim do período Tokugawa, que durou três séculos até a restauração Meiji no final do século 19 e que coincidiu com a revolução industrial japonesa.

Fumihiko Maki entende que o período Tokugawa durou por tantos anos dada sua estrutura descentralizada (embora fortemente hierarquizada) de poder. E, segundo ele, “uma estrutura social que não é altamente centralizada produz uma estrutura urbana que também não é altamente centralizada.” Assim, desde este período, já era ausente um centro claramente definido como conhecemos na maioria das cidades ocidentais, e Edo seria melhor percebida como uma coletânea de vilarejos interligados entre si. Esta forma, assim como boa parte da estrutura viária urbana de Edo do período Tokugawa, perdura até a Tóquio contemporânea.


“Uma estrutura social que não é altamente centralizada produz uma estrutura urbana que também não é altamente centralizada.”


O ponto central da restauração Meiji foi a queda do regime dos shoguns — semelhante a ditadores deste antigo período — e a tentativa de implementação de um estado moderno no Japão. As áreas feudais dominadas pelos samurais foram então abertas. As edificações das altas hierarquias do shogunato foram ocupadas com instituições públicas, dando acesso ao espaço antes restrito, e vendendo terras adjacentes que eram de propriedade dos daimyo, os samurais de alto escalão. Por exemplo, a área de Marunouchi, em frente ao castelo imperial, ocupada por mansões, foi comprada pelo grupo empresarial Mitsubishi — já existente na época —, que desenvolveu a área e se manteve proprietária até hoje, ocupando boa parte dela com suas sedes.

Ao terminar com o regime feudal, também ocorreu a titularização da propriedade de camponeses, permitindo sua comercialização — antes uma transação proibida — e dando liberdade para deixarem a terra, muitas vezes em direção às cidades. O nível de transformação econômica e social foi estrondoso: para se ter uma ideia, em 1880, o Japão possuía cerca de 27 quilômetros de ferrovias, praticamente todos concentrados em Tóquio. Menos de 40 anos depois, Tóquio ultrapassava os 800 quilômetros de ferrovias, e o Japão, os 11 mil quilômetros.

Jardins do Palácio Imperial de Tóquio. Ao fundo, a área de Marunouchi.

Focado principalmente em obras ao redor do centro de Tóquio, o período Meiji foi marcado por grandes transformações sociais e urbanas. Algumas regulações do espaço privado foram iniciadas no final do século 19, como a regulação das nagayas para diminuir incêndios e, em seguida, a criação do primeiro sistema de zoneamento, base do sistema que funciona hoje. O zoneamento japonês funciona de forma inclusiva ao invés de restritiva como no mundo ocidental. O conceito do sistema mudou pouco em termos conceituais desde então, tendo apenas adicionado mais categorias e detalhes à legislação.

Ao invés de determinar “usos exclusivos” para separar atividades incômodas como é feito em muitas cidades brasileiras, o zoneamento japonês determina “níveis de incomodidade máximo”. Ou seja, uma zona comercial terá um nível de incomodidade máxima para uma série de atividades comerciais e, inclusive, pequenas indústrias, mas não irá restringir, por exemplo, o uso residencial.

Grande parte da cidade foi construída baseada no conceito de Land Readjustment, ou “Reajuste de Terra”. Pequenos proprietários rurais poderiam se organizar e construir uma rede viária entre suas propriedades. Esta foi uma das origens do desenvolvimento urbano relativamente não planejado, com pequenos lotes e ruas estreitas que até hoje fazem parte da estrutura da cidade.

Historicamente, o foco do urbanismo em Tóquio foi infraestrutura e espaços públicos. Entre 1888 e 1918, foi realizado o Tokyo City Improvement Ordinance (TCIO), construindo infraestruturas de água e esgoto. Desde então, já tinham descoberto que cólera e tifo eram transmitidas através da água e não da miasma, tendo dado o direcionamento correto no saneamento público. Neste mesmo período foram alargadas e alinhadas as fachadas das principais avenidas, que tinham sido construídas de forma espontânea, principalmente para introduzir a passagem de bondes, a primeira experiência do que viria a se transformar na mais completa rede ferroviária urbana do mundo.

Bonde em frente à Bolsa de Valores de Tóquio, em 1911. (Imagem: K. Ogawa/Wikimedia)

A expansão suburbana ocorria, em grande parte, direcionada pelo setor privado, que desenvolvia suas próprias linhas de bondes. O que hoje é conhecido como “Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável”, priorizando o adensamento ao longo de eixos de transporte de massa, acontecia de forma espontânea e era visto como uma oportunidade empreendedora: ao estabelecer as linhas se valorizava terrenos adjacentes, e ao se urbanizar estes terrenos era possível alimentar as linhas, em uma sinergia positiva.

Em 1906 o governo nacionalizou a maioria das linhas privadas, que então tinham mais que o dobro da malha ferroviária pública, no primeiro movimento entre público-privado da história ferroviária japonesa que durou até a década de 80. O desenho das rotas era regulado, a operação privada, e empresas ficaram com linhas menores ligando a projetos suburbanos.

Em 1928 veio o primeiro golpe do século: a cidade foi afetada pelo Grande Terremoto de Kanto que, com o alastramento de incêndios gerados após o terremoto, devastou 44% da área urbanizada. Se viu, no entanto, uma oportunidade para melhorar a estrutura urbana da cidade.

Desenvolvimento urbano espontâneo, que relembra as periferias brasileiras.

Segundo urbanistas como Alain Bertaud e Solly Angel, o maior desafio das cidades é reservar espaços públicos suficientes para permitir seu crescimento urbano. O desenvolvimento totalmente descentralizado e não planejado normalmente não reserva espaço público o bastante em grande escala, e Tóquio sofria deste problema. Usando o terremoto como justificativa, a tentativa de solução foi o “Ad Hoc Town Planning Act”, que passou em meio a grandes protestos. Ele eliminava a necessidade de compensar proprietários afetados pela reestruturação urbana se a perda fosse menor que 10% do valor do imóvel. Isto serviu não apenas para diminuir o custo destas reestruturações mas também o número de pessoas com quem o Estado deveria negociar.

A reconstrução de Tóquio permitiu a criação de uma rede viária hierárquica e moderna, que embora tenha mantido a estrutura viária não planejada no interior da maioria dos bairros, reservou mais espaço público comparado com a sua estrutura feudal pré-moderna. Um exemplo seria a abertura de Showa Dori (ou Rua Showa), nomeada em homenagem ao imperador da época e hoje a via principal da iluminada região em torno da estação Akihabara, conhecida pelos seus eletrônicos e fãs de anime.

Akihabara. (Imagem: Chuusan777/Flickr)

Neste período ocorreram tímidas iniciativas públicas de moradia popular, construindo blocos habitacionais modernistas em formato relativamente semelhante às experiências ocidentais na mesma época chamados Dōjunkai. Um exemplo seria o Dōjunkai Aoyama, um dos últimos que restaram na Tóquio contemporânea e hoje integrada ao shopping Omotesando Hills em projeto recente do arquiteto Tadao Ando.

Via de regra, o mercado habitacional no Japão se desenvolveu dirigido pelo setor privado, com poucos padrões habitacionais mínimos além de regulações contra incêndios e sem estabelecer tamanhos mínimos de lotes, comum no mundo ocidental: no Brasil, desde 1979, o lote mínimo é fixado em 125 metros quadrados.

Dōjunkai Aoyama (direita) integrado ao shopping Omotesando Hills.

A partir da década de 30, esforços foram colocados na Guerra com a China: o governo japonês tinha a intenção expansionista militar na Ásia, e por um breve período no início dos anos 40, durante a Segunda Guerra, conquistou boa parte do sudeste asiático. Mas houve retaliação dos Aliados, e o fim da Guerra não teve bom resultado para o Japão. O país não sofreu apenas os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, em 1945, o que alguns registram como o maior bombardeio da história da humanidade. No segundo grande golpe do século em Tóquio e menos de vinte anos após o terremoto de Kanto, mais de cem mil pessoas morreram e um milhão de pessoas foram realocadas. O fogo se alastrou pela cidade, destruindo cerca de 41 quilômetros quadrados, correspondendo a metade da produção industrial e cerca de 750 mil casas. O Japão inicia então outro projeto de reconstrução do país, embora já sofresse com a escassez severa decorrente dos esforços da guerra.


Este especial está dividido em quatro partes. Grande parte dos dados foram extraídos do livro The Making of Urban Japan: Cities and Planning from Edo to the Twenty First Century, de André Sorensen, e fontes alternativas foram linkadas ao longo dos textos.


Série Especial Tóquio

#1 – Dos samurais à Segunda Guerra Mundial

#2 – A (re)construção de uma potência mundial

#3 – O surgimento da Tóquio contemporânea

#4 – O que Tóquio pode ensinar para o urbanismo brasileiro

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