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Cercar parques é errado
Imagem: Anthony Ling

Cercar parques é errado

Parques e espaços públicos cercados podem ser seguros no seu interior, mas transferem e aumentam a insegurança externa.

15 de junho de 2022

Cercar parques e espaços públicos é errado. Quanto à segurança, a gestão pública deve olhar para a cidade como um todo, e não para um espaço específico. O cercamento de um parque gera áreas desertas ao seu redor, perdendo a visibilidade do espaço e a conectividade com os edifícios.

Se perde a vigilância natural daqueles que circulam, o que a célebre urbanista Jane Jacobs chamou de “olhos da rua”. Este é o problema enfrentado por parques como o Ibirapuera, em São Paulo, e o próprio Germânia, em Porto Alegre, parques cercados que podem ser seguros no seu interior, mas que transferem e aumentam a insegurança ao exterior.

O Project for Public Spaces, uma das principais consultorias globais em espaços públicos, defende que a alta visibilidade, abertura e permeabilidade são chave para o sucesso e a segurança de praças e parques. Foi essa estratégia usada no redesenho de Bryant Park, em Nova York, no auge da sua criminalidade nos anos 80.

Ao invés de gastar em cercamento, se qualificou o espaço e, ao contrário, se fez uma abertura radical, convidando à entrada. Também instalaram quiosques e criaram uma agenda de eventos abertos ao público, tornando a praça um sucesso, com vida o ano inteiro.

A perda da qualidade urbana com o cercamento também reflete nos valores imobiliários, sendo os vizinhos imediatos os maiores prejudicados: enquanto hoje possuem acesso direto e ruas vivas no entorno, uma cerca exigiria chegar ao portão de acesso, passando junto ao ermo da cerca. Este custo “invisível” para centenas de imóveis deveria ser contemplado na avaliação da medida.

Custo visível, no entanto, são os gastos diretos do próprio cercamento, na escala de R$3 a 6 milhões para grandes parques de Porto Alegre. Estes recursos, sem evidências de que trariam melhorias, deveriam ir para melhor iluminação e equipamentos que convidam ao uso adequado do espaço, além do aumento da fiscalização, medidas que trariam benefícios evidentes com menor custo.

Seria trágico perder a relação espetacular que nossos parques possuem com seus entornos, um decreto final da completa falência do nosso urbanismo.

Publicado originalmente em Zero Hora em 2 de junho de 2022.

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