A definição matemática de uma cidade

Paris: exemplo de uso racional do espaço urbano. Foto: Carlos ZGZ

Paris: exemplo de uso inteligente do espaço urbano. Foto: Carlos ZGZ/Creative Commons

O urbanismo do século 20 é a história de uma guerra contra a complexidade para o controle da urbanização.

Os modernistas se rebelaram contra a “bagunça” da cidade. Colocaram cada coisa em seu lugar. Neste quadrado ficarão as casas. Neste quadrado ficarão os escritórios. Neste quadrado ficarão as lojas. De uma maneira ou de outra, este sistema, chamado zoneamento, é o sistema mais forte em 99% do continente Americano. Sua maior vantagem é que é incrivelmente preguiçoso.

Por mais de meio século os entre-espaços, aquilo que não é exatamente uma casa, uma loja ou um escritório, não tiveram lugar. As cidades de hoje que estão em rápido crescimento são infinitas redes de zoneamento de uso único.

A isso dão o nome de planejamento urbano. Controlaram o futuro da cidade o destruindo. Mas não conheciam realmente o que estavam destruindo.

Uma cidade não é redutível à partes. Uma cidade é uma malha de relações entre espaços. Começa quando um espaço é criado para fornecer uma função especializada que não é fornecida por outro espaço já existente, e os dois espaços são conectados através de um sistema de comunicação. Vamos chamar o primeiro espaço de “a” e o segundo espaço de “b”. Uma vez que a e b criem a relação a-b, a cidade “x” nasce. X é um arranjo que contém relações entre os espaços.

Quando a e b são deficientes em alguma maneira, um terceiro espaço, “c”, é adicionado ao arranjo. Aí então X torna-se a-b, c-b. Então, o espaço “d” talvez seja adicionado ao arranjo (a-b, c-b, c-d). Este processo continua à medida que mais espaços são criados e novos relacionamentos se formam. A cidade se torna uma malha bastante complexa, ou uma semirrede. Não é possível isolar parte desta malha do resto.

O jogo “Sim City 4” demonstra a forma destas relações quando você clica nos trajetos para qualquer edifício. Cada prédio tem uma rede que se estende pela cidade, e cada uma dessas redes se sobrepõe e se entrelaçam umas com as outras em um sistema único.

Não é possível separar as relações em grupos. Não é possível definir “sub-cidades”, grupos de relações independentes uns dos outros. Não é possível afirmar que a cidade A é feita de arranjos de edifícios B e C. Inevitavelmente alguns dos edifícios em um dos grupos precisará formar relações um com o outro. Mas isto é exatamente o que a ideia de zoneamento tenta prevenir! Fazendo isso, o zoneamento destrói muitas formas de troca e detém a complexidade da cidade.

O que exatamente são estas relações? Qualquer razão que te faça sair de casa. Pode ser uma ida à padaria. A sua casa “d” formaria uma relação com a padaria “f”, d-f. A padaria teria muitos clientes na vizinhança, e eles formariam relações f-g, f-h, f-i e assim em diante, mesmo que você nunca encontrasse muitos destes vizinhos. Estas pessoas teriam trabalhos que formariam relações g-m, h-n, i-n. Todos vocês, juntos, criariam a vida na cidade, mesmo que vocês nunca se esbarrassem. Sem o negócio “m”, a padaria “f” pode não ter clientes o suficiente para continuar aberta, então você perderia o acesso à padaria.

Às vezes um espaço perderá todas as suas relações e será destruído, mas todas as outras relações continuarão parte do arranjo. A malha contínua de relações é, por si, permanente. É por isto que cidades possuem nomes que atravessam o milênio, como Londres e Paris, mesmo que todos o edifícios que as iniciaram já não existam mais e tenham sido esquecidos. O arranjo de relações ainda está exatamente onde sempre esteve. Foi transformado e desenvolvido, mas nunca destruído. Em todos os pontos do tempo o arranjo existe, ainda que espaços sejam adicionados ou subtraídos deste arranjo, como um rio que não é definido como um amontoado de moléculas de água, mas pelo fluxo destas moléculas.

 

É por isto que cidades possuem nomes que atravessam o milênio, como Londres e Paris, mesmo que todos o edifícios que as iniciaram já não existam mais e tenham sido esquecidos. O arranjo de relações ainda está exatamente onde sempre esteve.

São as relações e não os espaços individuais que formam a cidade. Um bloco idêntico de casas não forma relações. Relações apenas serão formadas entre espaços que são complementares, ou seja, espaços que são adaptados de maneira diferente às suas funções específicas. Logo, não faz sentido que a criação de códigos de zoneamento para casas idênticas uma vez que não há razão para que estas casas estejam próximas umas das outras. No entanto, faz sentido que se crie diversas casas em torno de um playground, e estas casas formarão uma relação com o playground.

Definir uma cidade como uma série de relações nos permite diferenciar cidades que estão vivas e crescendo de cidades que estão mortas ou morrendo. Quando o número de relações em uma cidade é crescente ou estável, a cidade está viva. Quando o número de relações em uma cidade está encolhendo ou é zero, a cidade está morta, apesar do fato de ainda haver por ali edifícios. Uma cidade fantasma não possui relações.

O bom urbanismo é a criação de sistemas de suporte para construir relações. Ruas, espaços públicos, redes de transporte e códigos de construções atingem isto. Zoneamento os mata.

Os melhores sistemas de suporte, o melhor o urbanismo, permitirão uma grande densidade das relações (não densidade de pessoas), implicando em uma maior complexidade espacial e diversidade atingível.

 

Este artigo foi originalmente publicado no site Emergent Urbanism em 11 de junho de 2011. Foi traduzido por Cauê Marques, revisado por Anthony Ling e publicado neste site com autorização do autor. 

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