Como uma cidade nos Andes se integrou à natureza – e se tornou mais saudável
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Como uma cidade nos Andes se integrou à natureza – e se tornou mais saudável

A estratégia da cidade de Loja, no Equador, gerou ganhos em mobilidade ativa, infraestrutura, mitigação de inundações e bem-estar emocional.

26 de fevereiro de 2026

Na maioria das manhãs, antes do trabalho, Cati Ochoa percorre um corredor verde ao longo do rio Zamora, perto de sua casa, na cidade de Loja, no Equador. No momento em que ela está sob as árvores, sente os ombros relaxarem. “As áreas verdes nos dão paz”, diz. “Elas trazem calma, ar limpo, nos ajudam a nos sentirmos vivos.”

Em Loja, é quase impossível caminhar mais do que alguns quarteirões sem encontrar um parque, uma trilha à beira do rio ou uma encosta arborizada. Crianças andam de bicicleta ao longo da margem. Moradores mais velhos passeiam à sombra das copas das árvores. Funcionários públicos podam, plantam e limpam esses espaços todos os dias, cuidando de mais de 600 hectares de áreas verdes que se entrelaçam por essa pequena cidade dos Andes, na América do Sul.

Para Ochoa – assim como para os 200 mil habitantes de Loja –, esses espaços fazem parte da identidade da cidade. São lugares para respirar, relaxar e se reconectar com a natureza. E são espaços planejados – parte de uma estratégia de saúde pública e da rede de mobilidade, além de funcionarem como um amortecedor ecológico e uma fonte de identidade cívica, tudo integrado em um único sistema conectado.

Leia mais: Natureza e Cidades: harmonia ou conflito? A escolha é (em certa medida) nossa.

Uma transformação verde

Loja se tornou um exemplo de como soluções baseadas na natureza (SBN) podem transformar a qualidade de vida urbana, fortalecer a resiliência e criar um senso compartilhado de orgulho. Mas essa transformação não aconteceu de uma hora para a outra.

Durante décadas, foram construídos diversos parques nos bairros da cidade, mas esses espaços permaneciam isolados entre si. Os rios de Loja estavam poluídos e degradados, as encostas precisavam de proteção contra a erosão e a perda de habitat, e os espaços para caminhar eram desconectados e expostos a inundações. As autoridades municipais lembram como as ravinas transbordavam durante as chuvas sazonais, alagando bairros próximos e evidenciando a urgência de restaurar – e conectar – as áreas verdes em um sistema único e abrangente.

Em 2017, Loja estabeleceu uma parceria com a GIZ, uma agência alemã de cooperação técnica internacional, e com pesquisadores da Universidade Técnica Particular de Loja (UTPL) para conter a expansão urbana desordenada e a degradação ecológica. Os pesquisadores e planejadores municipais passaram a ver a cidade como uma estrutura ecológica e social em camadas, moldada por seus rios, ravinas e encostas. Ao conectar esses elementos por meio de corredores verdes, sabiam que isso ajudaria tanto as pessoas quanto a natureza a prosperar.

Juntos, criaram o Sistema Verde Urbano, uma estratégia que conectou parques, ravinas e corredores fluviais antes isolados em uma rede unificada, construída em torno de um princípio orientador simples, descrito por Diego Ramon, diretor de gestão territorial de Loja, como “é mais fácil prevenir do que remediar”.

A paisagem urbana verdejante de Loja é visível de qualquer ângulo. Foto: WRI

Corredores verdes usam a infraestrutura cotidiana para promover o bem-estar

Em Loja, o espaço verde se tornou uma peça fundamental para o funcionamento da cidade. O Sistema Verde Urbano se estende por três grandes corredores ecológicos ligados por rios, ravinas, florestas, parques e ruas arborizadas. Esses corredores reduzem o calor, absorvem a água da chuva e oferecem espaços seguros para a circulação das pessoas.

Em entrevistas, os moradores falam sobre ganhos em atividade física, bem-estar emocional e hábitos mais saudáveis. Mencionam que as crianças contam com caminhos seguros para chegar a parquinhos e quadras esportivas, enquanto idosos podem caminhar na sombra para socializar e se exercitar. As ciclovias não ficam mais alagadas durante tempestades, permitindo o deslocamento de quem as utiliza diariamente, e os passeios para pedestres se espalham por diversas áreas de relevância cultural. Rodrigo León, morador da cidade, explica o impacto de forma simples: “Quando você vem para esses espaços verdes, sua vida inteira muda – emocional, física e mentalmente”.

A função ecológica é igualmente significativa. A restauração da vegetação ciliar estabilizou as margens dos rios, reduzindo a gravidade das enchentes sazonais. O aumento da cobertura arbórea criou sombra para corredores importantes dentro da cidade e contribuiu para reduzir as temperaturas. Pelo menos 18 novas espécies de anfíbios e plantas foram identificadas e descritas na região, ressaltando o valor que os ecossistemas de Loja trazem para o aumento da biodiversidade.

Para uma cidade vulnerável aos impactos climáticos, especialmente inundações e calor, esses ganhos ecológicos se traduzem em benefícios reais no dia a dia da população.

Em Loja, “verde” é mais do que verde

Poucas cidades da região integram gestão hídrica e planejamento urbano de uma forma tão próxima quanto Loja. O Sistema Verde Urbano foi projetado para seguir o fluxo natural dos rios Zamora e Malacatos, que, além de serem o coração da cidade, drenam água para 40 córregos que influenciam a bacia hidrográfica andina como um todo. Os dois rios conectam a cidade, suas encostas, ravinas e margens fluviais em um único sistema ecológico contínuo e foram usados para definir a melhor localização de parques, rotas de transporte e áreas de restauração. Ao integrar os rios ao sistema verde, Loja conseguiu fazer com que deixassem de ser fontes de poluição e risco de inundações para transformá-los em componentes estruturantes de uma cidade mais segura e saudável.

Leia mais: Como as cidades podem se relacionar melhor com seus rios

Proteger os rios também implica gerenciar o que deságua neles – um compromisso refletido no sistema de saneamento da cidade. A estação de tratamento de esgoto de Loja, que processa quase todo o esgoto utilizando um sistema de filtragem biológica, devolve água limpa aos rios Zamora e Malacatos. O lodo é reaproveitado para regenerar solos em áreas de reflorestamento nas encostas. A estação se tornou um centro nacional de capacitação, inspirando outros municípios a adotarem abordagens semelhantes na gestão de suas bacias hidrográficas.

Os moradores veem tudo isso não apenas como infraestrutura ou um sistema hídrico, mas como parte da identidade cultural da própria cidade. Diversas trilhas ligam o centro urbano às encostas florestadas, convidando as pessoas a caminhar, desacelerar e se reconectar com a natureza.

Os rios Zamora e Malacatos, protegidos por uma cobertura arbórea preservada, formam a espinha dorsal do Sistema Verde Urbano de Loja, estruturando a gestão da água, o transporte, a circulação de pedestres e os parques urbanos da cidade. Foto: WRI

Uma base verde para a mobilidade

Uma das conquistas mais significativas de Loja é a integração da mobilidade ao planejamento ecológico. A cidade entendeu desde cedo que caminhar e pedalar só ganhariam espaço no dia a dia se estivessem associados à natureza, à sombra, ao conforto térmico, à segurança e a ruas pensadas para quem realmente as usa.

No pequeno centro da cidade, para cada carro, há mais de dois pedestres, em especial mulheres, crianças e idosos. Ainda assim, historicamente, as ruas foram projetadas para priorizar os veículos. “Nossos dados mostraram que as pessoas que caminhavam não eram aquelas para quem as ruas foram originalmente construídas”, explicou Maria Morales, professora da UTPL que trabalhou na frente de mobilidade do Sistema Verde Urbano de Loja.

Essas evidências embasaram a construção de calçadas mais largas, praças temporárias e a recuperação de espaço viário, tornando as rotas de pedestres mais seguras e conectadas. “Se existe uma coisa que estressa as pessoas, é o trânsito”, disse Luis Alonso Peña, diretor de mobilidade de Loja. “Criar rotas mais seguras para caminhar e se deslocar ajuda a reduzir esse estresse.”

A cidade entendeu desde cedo que caminhar e pedalar só ganhariam espaço no dia a dia se estivessem associados à natureza, à sombra, ao conforto térmico, à segurança e a ruas pensadas para quem realmente as usa.

Agora, Loja está aplicando essa mesma lógica à rede de ciclovias. Embora ainda em desenvolvimento, novos trechos já criam corredores contínuos que conectam bairros, parques e destinos importantes na cidade. Essas primeiras conexões proporcionam rotas mais seguras e frescas, contando com a infraestrutura verde em expansão – um passo importante em uma cidade onde muitos moradores caminham, usam a bicicleta e o transporte coletivo.

À medida que a rede cicloviária aumenta, o uso da bicicleta se torna uma opção cada vez mais viável para os deslocamentos diários, complementando as melhorias no transporte público. “O transporte inclusivo conecta os moradores mais vulneráveis ao trabalho, à educação e à saúde”, observa Morales.

As redes cicloviárias criam caminhos contínuos de deslocamento por toda a cidade. Foto: WRI

Uma cidade desenhada para as pessoas e pelas pessoas

Uma força por trás da transformação de Loja é a forte cultura cívica que se manifesta na cidade. Os bairros são liderados por líderes eleitos. Conversas cotidianas nas ruas revelam redes sociais coesas: funcionários municipais fazem referência a ex-colegas de escola, líderes comunitários cumprimentam planejadores pelo nome e moradores apresentam seus vizinhos como colaboradores.

Essa proximidade entre as pessoas deu origem a um senso de corresponsabilidade: as comunidades ajudam a identificar espécies de árvores para o plantio, instalam iluminação solar ao longo das trilhas de caminhada e organizam mutirões de limpeza. Professores locais também conduzem aulas ambientais ao ar livre, e os moradores reivindicam a proteção das encostas contra a urbanização.

Em Loja, trabalhadores ajudam a manter os espaços verdes públicos da cidade. Foto: WRI

“Estar nos parques ajudou nossas famílias a se reconectarem”, diz Galo Caraguay, presidente do bairro Colinas de Cucará. “Passamos a nos conhecer, conversar sobre problemas comuns e reconstruir o senso de comunidade.”

A credibilidade da UTPL também foi essencial para mobilizar o envolvimento e o sentimento de pertencimento da comunidade ao projeto. Como os moradores confiam na universidade, veem o Sistema Verde Urbano não como uma imposição externa, mas como um projeto compartilhado e de raízes locais. Em paralelo, os pesquisadores continuam o monitoramento, o desenho ecológico e o planejamento de longo prazo, garantindo que a expansão do sistema permaneça ancorada na ciência.

Uma nova forma de governar: integrar áreas para construir uma estratégia unificada

O Sistema Verde Urbano também criou uma estrutura de governança mais colaborativa.

Para coordenar os objetivos ecológicos, de mobilidade e de uso do solo, Loja criou um Grupo Técnico de Trabalho, no qual secretarias municipais que antes atuavam de forma isolada – como planejamento, meio ambiente, mobilidade, obras públicas e a concessionária de água – passaram a se reunir regularmente com os pesquisadores da UTPL para desenhar, priorizar e executar projetos de forma colaborativa. Por meio desse processo, foi criada uma estratégia unificada que garantiu a continuidade do projeto ao longo de três administrações municipais, incorporando a infraestrutura verde ao planejamento urbano e tornando o Sistema Verde Urbano o marco operacional da cidade. O projeto é financiado por um modelo de múltiplas fontes que combina receitas municipais, taxas pagas pela população e financiamento internacional.

O Sistema Verde Urbano também está formalizado no Plano de Uso do Solo de Loja, no Plano de Ação Climática 2040 e no Plano de Mobilidade Verde, tornando-se um marco orientador da cidade para as próximas décadas.

A manutenção é visível e constante. Os moradores costumam comentar sobre a confiabilidade das equipes da cidade, que varrem os corredores, consertam bancos, plantam árvores e mantêm os parques limpos. Tudo isso reforça a confiabilidade do Sistema Verde Único e o entendimento de que ele veio para ficar.

Ao mesmo tempo, ainda há muito a ser construído: calçadas, caminhos e vias precisam ser ampliados; algumas ravinas necessitam de restauração; e novos parques e equipamentos de bairro foram planejados para áreas menos atendidas. Mas os moradores veem esse trabalho como etapas de uma jornada de longo prazo, não como obstáculos.

Uma referência para outras cidades andinas e além

Apesar de ser uma cidade com apenas 200 mil habitantes, Loja se tornou uma referência em planejamento ecológico integrado em todo o Equador. Cidades como Cuenca, Riobamba e Ambato estão estudando o Sistema Verde Urbano como modelo, e programas nacionais liderados pela GIZ ajudaram a disseminar a metodologia de Loja por toda a região andina. Os atrativos são evidentes: um sistema que protege a água, refresca os bairros, melhora a saúde, apoia a mobilidade ativa, fortalece os vínculos comunitários e orienta o uso do solo, gera valor para os moradores e para a cidade.

“Cidades maiores podem até ter mais dinheiro, mas aqui nós temos uma vida rica”, afirma Ochoa.

A mensagem de Loja para outras cidades é simples: a natureza não é um luxo – é a base para um futuro mais saudável, mais resiliente e mais conectado.

O Sistema Verde Urbano foi um dos cinco finalistas do WRI Ross Center Prize for Cities 2025-2026, que reconhece projetos e iniciativas que promovem cidades saudáveis. O vencedor do Grande Prêmio, selecionado por um júri independente, será anunciado em abril de 2026 e receberá um prêmio de US$ 250 mil.

Este artigo foi originalmente publicado no WRI, em fevereiro de 2026.

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