Fronteiras (ou bordas) suaves no uso residencial
Há alguns anos, orientei um trabalho teórico encantador que se chamava “Olhar Interpretativo”, desenvolvido pela então estudante Natália Valadão. Ela queria especular sobre o que se poderia imaginar a respeito da vida dos moradores a partir de elementos existentes na frente de suas casas. Para isso, tirou fotos de residências unifamiliares, todas recuadas da rua e com jardins frontais visíveis a partir dela. Ou seja, suas fronteiras secundárias não eram muros nem elementos opacos, permitiam permeabilidade visual, e por isso se podia ver o espaço privado à frente da casa. Depois, mostrou cada foto para duas pessoas (separadamente, para depois comparar os relatos) e as deixou falar o que achavam sobre quem morava ali. As respostas foram distintas, algumas sendo mais poéticas, imaginando toda uma trama para os moradores, outras sendo mais pragmáticas, fazendo uma inferência lógica a partir do que havia na frente das casas.
E o que havia na frente dessas casas? Coisas cotidianas: brinquedos, sapatos, móveis, plantas, resquícios de alguma comemoração, bicicletas, guarda-chuvas, ferramentas, objetos em composições diversas, em diferentes estados de conservação, formando cenários que pareciam que em breve seriam preenchidos por seus protagonistas, que poderiam retomar suas atividades a qualquer momento, para deleite do espectador.
O exercício da Natália mostrou que o caminhar ao longo de fachadas residenciais recuadas pode atrair nosso olhar, despertar nosso interesse, aguçar nossa imaginação, desde que um pedacinho da vida privada possa ficar visível para apreciação de quem passa na rua.
A literatura, a pesquisa e a experiência nos mostram que a ausência de recuos laterais e frontais é extremamente benéfica para a urbanidade, como já defendi aqui. Falando especificamente de ausência de recuos frontais, isso funciona às maravilhas quando o térreo é comercial – porque o comércio sempre vai querer se abrir para a rua –, mas nem sempre funciona quando o térreo é habitacional.
Nos tempos atuais, é mais difícil as pessoas morarem num térreo sem recuo frontal e permitirem que se vislumbre seu ambiente privado, como já se fez mais antigamente, e como ainda se faz, em algumas localidades do Brasil, onde “portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar”, como canta Marisa Monte em “Vilarejo”. Assim, fecham-se para a rua e desenvolvem um microcosmos introvertido.
Por isso é que penso que vale a pena uma pequena ressalva para o uso residencial, onde um jardim frontal pode servir de zona de transição entre o privado e o público, trazendo um pouco de privacidade ao morador do pavimento térreo (seja de uma casa ou de um edifício), ao mesmo tempo em que enriquece a experiência do pedestre que passa.
No livro Life Between Buildings, Jan Gehl diz que tornar espaços e atividades privados visíveis a partir dos espaços públicos favorece a vida pública, e isso acontece no que ele denomina fronteiras (ou bordas) suaves (soft edges). O mais legal é que, sendo o ser humano curioso, existe tanto um interesse pelo que acontece dentro, por quem está fora, quanto pelo que acontece fora, por quem está dentro, e a mútua visibilidade – cociência – estimula a vida pública. É aí que a fronteira suave pode ser uma ferramenta para unir os dois, já que o morador, de dentro do seu lote, pode presenciar o que acontece na rua. Assim, ocupar a frente da casa com alguma atividade, como cuidar do jardim frontal, ao mesmo tempo em que atrai o olhar de quem passa, pode ser apenas um pretexto para estar do lado de fora, espiando o mundo.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.