Ser pedestre em Paris

5 de junho de 2026

Não há nada bom que não possa melhorar

Desde que fiz 18 anos, fiquei apenas um ano sem um carro à minha disposição. Foi entre 2009 e 2010.  “Eu sei, podem me julgar”, como disse o Vitor Meira França, em mais um dos seus deliciosos textos. Nessa época, estava sem dinheiro para manter um carro, e aproveitei para saber como era ser pedestre em Brasília, já que estava fazendo doutorado em espaços públicos.

Foi uma das grandes experiências que já tive, em termos de pesquisa e de vida cotidiana. Ela me ajudou a reconhecer o privilégio de ter tido um carro, ampliar minha empatia, ver o impacto do desenho da capital na vida das pessoas e constatar os reais problemas que precisam ser enfrentados para que a mobilidade ativa e por transporte público possam ser dignos de seus cidadãos.

Ainda assim, era uma experiência de exceção. Não tinha compromissos com horário de trabalho, pois estava de licença; meus destinos cotidianos (escola dos meninos, supermercado etc.) estavam a distâncias razoáveis para serem alcançados a pé; e eu tinha um certo dinheiro para, se meu ônibus estivesse demorando demais para chegar, pegar um ônibus mais caro, ou mesmo pedir um táxi.

Aqui em Paris também sou pedestre numa situação de exceção. Meu único compromisso de horário são as aulas de francês, e pensando justamente nisso, arrumei um apartamento ao lado da escola, a uma caminhada de 5 minutos. Então, como eu não dependo tanto da confiabilidade e da eficiência do transporte público para meus parcos compromissos, não tenho muito como avaliá-las. Mas posso dizer que, até o momento, não houve um só lugar aonde eu quisesse ir que eu não pudesse chegar por transporte público: metrô, ônibus, trem, bonde ou alguma integração entre eles, combinados com caminhadas curtas.

Mais importante que isso: nunca me senti insegura. Mesmo à noite, mesmo em alguns bairros mais distantes, onde havia gente aglomerada em esquinas e saídas de metrô, mesmo onde não havia ninguém e as ruas estavam mortas. Até agora eu não precisei evitar nenhum lugar, nenhum trajeto, nenhum horário. Isso é libertador.

(Em nossas cidades deveríamos poder fazer nossas escolhas de deslocamento baseadas em nossa conveniência, não no nosso medo.)

Mas, depois da primeira impressão que tive ao chegar aqui, vejo que muitas coisas podem ser aprimoradas.

A primeira é a acessibilidade no metrô. É uma dificuldade e, para alguns, uma impossibilidade utilizá-lo. Tem estação que não tem nem escada rolante, nem uma plataforma para cadeirantes, nem mesmo aquelas calhas na escada para facilitar a descida/subida de malas ou carrinhos de bebê. Não me lembro de ter visto nenhuma pessoa em cadeira de rodas no metrô. Sendo um meio de transporte tão rápido e frequente, com uma rede tão completa, é vergonhoso isso ainda ser assim.

Os bondes e ônibus, por sua vez, são adaptados. No caso dos ônibus, eles parecem ser os favoritos das senhorinhas e senhorzinhos, que normalmente estão aposentados e talvez não tenham tanto compromisso de horário. Digo isso porque, se por um lado é incrível os ônibus circularem mesmo em ruas mais locais e estreitas, o que significa que têm boa penetração, por outro lado isso os deixa mais lentos, ainda mais por nem sempre possuírem faixas preferenciais.

Quanto aos cruzamentos, muitos já foram reestruturados, mas muitos ainda estão precisando de redesenho. Com tantas ruas diagonais no traçado urbano da cidade, é muito comum cruzamentos complexos, na confluência de 5 ou 6 ruas. Há um monte de asfalto no meio, faixas de pedestres distantes, longos tempos de espera para nós. Mas nada impossível de se resolver.

Depois de dois meses aqui, ando agora por Paris descobrindo seus problemas, atenta ao que precisa ser melhorado, mas sem deixar de reconhecer o imenso privilégio de ser pedestre nesta cidade linda, viva e generosa.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. ([email protected])
VER MAIS COLUNAS