Uma cidade que parece realmente saber o que está fazendo.
Estou em Paris. Uma necessidade de me justificar vem imediatamente em seguida.
Vou me aproveitar da justificativa do Luís Fernando Veríssimo, no delicioso “Traçando Paris”, onde há lindos desenhos de Joaquim da Fonseca: “Quando perguntaram ao Mário Quintana por que não saía de Porto Alegre, ele disse que não havia nada mais provinciano que querer morar no Rio. Querer morar em Paris é provincianismo internacional, agravado pela falta de imaginação.”
Vim para uma licença para capacitação de 3 meses, e poderia ter ido a qualquer outro lugar, ou mesmo não ido a lugar nenhum. Mas escolhi morar aqui porque venho há tempos sendo bombardeada por postagens nas redes sociais e reportagens sobre como Paris vem valorizando a mobilidade ativa, transformando seus espaços públicos, trazendo mais verde para a cidade.
Eu queria conhecer, estudar, ver se é tudo isso mesmo. Entender melhor alguns conceitos que vêm sendo veiculados, como eles se materializaram em políticas públicas e compreender seu real poder, impacto e abrangência. Separar a propaganda da realidade.
A propaganda de uma cidade não é necessariamente ruim. Ela dá a conhecer boas práticas, desperta o interesse, mostra um mundo possível. Ela também ajuda a derrubar preconceitos, a desmistificar, a mudar uma imagem negativa que se instalou no imaginário das pessoas, e que não faz sentido. Mas ela também pode iludir, ao selecionar a informação desejada e omitir a indesejada.
A propaganda me fez querer vir. E eu estou torcendo para que seja tudo verdade, para confirmar que não me enganaram, que é possível (olha que incrível!!!) uma cidade ter à frente dirigentes que se importam verdadeiramente com o meio ambiente, com o conforto das pessoas nos espaços públicos, com a valorização do pedestre, com a mobilidade urbana que não prioriza o carro, porque isso me daria um alento enorme. Estou torcendo para constatar que a visão de mundo e a postura de intervenção da prefeitura de Paris, iniciadas em 2001 com as iniciativas e transformações urbanas do governo de Bertrand Delanoë, continuadas no governo de Anne Hidalgo e, daqui pra frente, esperamos, no de Emmanuel Grégoire, realmente estão alinhadas com a cidade contemporânea de que o mundo necessita.
Estou aqui há 11 dias, e já caminhei o suficiente para cruzar o Distrito Federal de norte a sul. Andei de trem, de metrô, de ônibus, uma vez de uber, e só não andei ainda de bicicleta porque ando muito mal, e fico insegura. Mas vou andar e dou notícias.
Como pedestre, me sinto acompanhada, considerada, respeitada. Como pedestre estrangeira, me sinto autônoma. A cidade me informa, me sinaliza, e eu consigo me deslocar tranquilamente para onde quero. Os trajetos são contínuos, o transporte é abrangente e integrado, as calçadas estão perfeitas, os cruzamentos são seguros, praças e parques estão bem mantidos, há mesmo muito verde. Vejo pessoas de todas as idades, origens e grupos sociais no metrô, na rua, gente com carrinho de bebê, idosos andando de bicicleta, jovens nas praças, famílias na beira do rio ou do canal. Aqui e ali vejo demonstrações de urbanidade.
Vi muita coisa. Gostei de quase tudo. No espaço público limitado de uma cidade absolutamente consolidada, o povo vem fazendo milagres.
Daqui a 15 dias, volto aqui para contar mais.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.