Ruas das escolas

17 de julho de 2026

Um espaço público para acolher a vida na porta da escola não pode ser qualquer coisa.

Todas as escolas maternais (3 a 6 anos) e elementares (6 a 11 anos) pelas quais passei em Paris eram públicas e tinham relação direta com a rua. Suas portas abrem diretamente para a calçada, onde cuidadores deixam e buscam as crianças. Nunca presenciei congestionamentos perto das ruas onde elas estão. As pessoas levavam a meninada de bicicleta, na garupa, em cadeirinhas simples ou duplas, ou indo cada um em sua bicicleta, o que indica um tráfego seguro. Mas é mais comum as pessoas as levarem a pé, os pequenos caminhando arrastando suas mochilas de rodinha, ou indo em patinetes ao lado dos adultos, ou sendo empurradas pelos adultos em bicicletas e carrinhos de bebê. Vão conversando, contando casos, fazendo perguntas, suas vozinhas ecoando por essas belas ruas. Uma alegria.

As calçadas em frente às escolas têm uma grade ao longo do meio fio. Não raro, nela são amarrados bicicletas e patinetes, na hora da entrada, e nela se apoiam os adultos enquanto esperam, na hora da saída. Sempre é um momento especial, esse da entrada e da saída. Há pequenas aglomerações, encontros, despedidas, conversas, combinados, risos, choros, brincadeiras, e tudo isso acontece na calçada, no espaço público.

Um espaço público para acolher essa vida toda, tão particular, não pode ser qualquer coisa. Por isso é tão bonita a iniciativa das ruas das escolas (rues aux écoles).

Ruas das escolas é um programa da prefeitura de Paris, iniciado em 2020, para transformar ruas onde estão localizadas escolas maternais e elementares em ruas pedestrianizadas ou compartilhadas. Os objetivos são dar mais espaço para as crianças brincarem e para as pessoas socializarem, melhorar a qualidade do ar e trazer mais segurança para o trajeto casa-escola. Segundo o site da prefeitura, em 2025 havia mais de 300 ruas transformadas, distribuídas por todos os bairros, número bem inferior ao número total das escolas da cidade (nem toda rua se presta ao programa, pois isso depende do seu papel na malha viária da cidade), mas muito significativo.

Dependendo da rua, ela pode cortar completamente o tráfego motorizado; permitir acesso a certos veículos (carros dos residentes, de entregas, de emergência e da limpeza urbana); ou interromper o tráfego apenas nos horários de entrada e saída da escola (nesses 2 casos, há cancelas próximas às esquinas). A sensação é de um espaço mais tranquilo, seguro e saudável, onde adultos podem ficar conversando sem medo de as crianças se arriscarem próximas a veículos motorizados, respirando suas fumaças. É uma sensação, pois não achei números que mostrassem se realmente os sinistros de trânsito nos arredores diminuíram, mas há estudos de ar mais limpo e mais frescor nesses locais, em comparação com outros que não receberam essas transformações.

Meu contato no Atelier Parisiense de Urbanismo me indicou 5 ruas para visitar, mas eu já tinha passado por várias ao longo dessa minha estadia em Paris. Fui a todas, e as intervenções têm três coisas em comum: a mudança do revestimento do piso; a eliminação dos estacionamentos sempre que a via original os possuía; e a desimpermeabilização de parte da via, com criação de canteiros de arbustos. Outros elementos dependem do contexto e, provavelmente, das demandas e iniciativas da própria comunidade escolar: cancelas, árvores, pinturas coloridas no piso, bancos, brinquedos, bebedouros, vaporizadores, banheiro público.

As ruas das escolas não são um programa original da prefeitura parisiense. Inspirado em iniciativas de outros locais, foi avaliado como uma boa ideia e implementado com sucesso na cidade. Uma boa ideia, como um bom exemplo, pode vir de qualquer lugar, já disse isso antes. Funcionou, ficou bonito, fresco, há relatos de as crianças quererem voltar para as ruas das suas escolas fora do período de aulas, para brincar. 

Não têm pipoqueiro, é verdade. Pena para elas. 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. ([email protected])
VER MAIS COLUNAS