Se pelo espaço público que você estiver estudando passar uma grande quantidade de gente, o mais importante você já tem.
Em agosto de 2010, eu estava na plataforma rodoviária, centro de Brasília, contando gente para meu doutorado. O objetivo era levantar os fluxos de pedestres em 12 pontos e conhecer as atividades estacionárias ali existentes.
Jan Gehl sempre fala que as cidades têm muitos dados sobre carros, mas nada sobre pessoas. Pois fui produzir esses dados. No caso do fluxo de pedestres, a técnica, aprendida com ele, consistia em ficar, a cada hora, num ponto fixo, por 10 minutos, contando ininterruptamente todo mundo que passava à minha frente, independente de direção. Em seguida, multiplicar o resultado por 6, para se ter a média daquela hora.
Descobri que, provavelmente, o local mais movimentado do DF fica entre a saída da Rodoviária do Plano Piloto e o Setor de Diversões Norte, conhecido como Conjunto Nacional. Contei 60.348 pessoas entre 7h e 19h, num dia de semana.
Para se ter uma ideia do que isso representa, vou comparar esse volume de gente com o de outros lugares do mundo, usando as informações do relatório World Class Streets, que o Gehl Architects produziu em 2007. Ele ajudou a subsidiar as intervenções viárias na cidade de Nova York, com destaque para a abertura de Times Square para os pedestres, em 2009.
Guardadas as diferenças de período das contagens — as deles foram de 8h às 20h e, as minhas, de 7h às 19h — no centro da capital modernista passa tanta gente quanto na Regent Street, em Londres (57.320), na Drottninggatan, em Estocolmo (55.830), na parte sul da Swanston Street, em Melbourne (51.580) e na George Street, em Sydney (57.320).
Se clicarem em cada um dos links para ver essas ruas no Street View do Google Maps, poderão perceber os tipos de espaços públicos que recebem essa quantidade de pessoas e comparar com o trecho da minha contagem.
São ruas bem configuradas por edifícios sem recuos frontais ou laterais, térreos ativos, muitas portas e janelas, calçadas de boa largura, bom desenho de piso e mobiliário urbano e ausência de estacionamento de superfície.
A plataforma rodoviária não tem nada disso e, ainda assim, tem muita gente. OK, tem as vistas lindas da Torre de TV e da Esplanada, mas não é por elas que a enorme maioria das pessoas está lá.
O que há de comum entre a plataforma e as demais ruas é que todas são centrais e facilmente acessíveis por transporte público.
Como já falei no texto sobre permeabilidades, a presença de gente passando por um lugar tem muito a ver com a posição dele na malha viária da cidade (característica de nível global). Some-se a isso facilidade de acesso por transporte público, e temos que mesmo um lugar árido e desinteressante na escala do pedestre vai ter gente circulando (pelo menos no horário comercial). A configuração de um lugar (característica de nível local), portanto, não é preponderante para atrair público.
Mas… ela é fundamental para reter esse público que já está passando por lá. E a gente quer reter esse público. A gente quer que as pessoas permaneçam no lugar, que desenvolvam atividades nele, que combinem de se encontrar lá, voltem com mais tempo, em outros dias e horários, com outras pessoas, para fazer coisas distintas. Só que, para isso, o desenho do lugar precisa ajudar.
Na mesma época em que eu contei o fluxo de pedestres na plataforma, fiz o levantamento das atividades estacionárias das duas praças lá existentes. A técnica, também aprendida com o Gehl, foi mapear quem estava no lugar, como, com quem, onde, fazendo o que, de duas em duas horas. A média de pessoas permanecendo na praça em frente ao Conjunto Nacional? 47! Isso mesmo: 60 mil pessoas passando, e menos de 0,1% permanecendo. A explicação é uma só: uma praça absolutamente sem atrativos. Não tem nela nada que faça valer a pena eu atrasar minha volta pra casa, ou me fazer retornar no fim de semana.
Se pelo espaço público que você estiver estudando passar uma grande quantidade de gente, o mais importante você já tem. Resta trabalhar para fazer esse espaço ser acolhedor e interessante o suficiente para que as pessoas queiram permanecer nele. E voltar.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.