O trem vai se aproximando da estação e diminui a velocidade. Os passageiros, apressados, levantam-se — quando já não estão viajando de pé nas composições sempre cheias — e se aglomeram perto da porta.
Na plataforma, os passageiros também se apinham para o embarque. Há pinturas no chão indicando o lugar onde as portas de cada vagão se abrirão. Também há setas indicando que o fluxo de saída dos passageiros é pelo centro, enquanto quem vai entrar deve esperar dos dois lados.
O trem para. A ansiedade dos que estão dentro é grande: uns estão atrasados, outros querem chegar logo em casa e muitos ainda têm outras baldeações pela frente. Do lado de fora, idem.
As portas enfim se abrem e… ninguém entra nem sai. O grupo na plataforma se avoluma e impede o fluxo central de quem quer deixar os vagões. Há trombadas e empurra-empurra. Algumas pessoas se estranham. “Deixe as pessoas saírem!”, muitos falam.
Outro ponto que chama a atenção de quem vos escreve é a questão dos assentos preferenciais. Quem nunca se deparou com pessoas idosas de pé enquanto outros passageiros aparentemente não prioritários viajam sentados?
Para quem anda de metrô e trem em São Paulo, essas são questões frequentes — ainda mais em horários de pico. Situações como a lotação dos vagões, o cansaço dos passageiros e os problemas do serviço ofertado pelo poder público e pelas concessionárias marcam dramas do dia a dia paulistano. Em sequência à minha coluna anterior, senti ser necessário ampliar a discussão sobre a mobilidade na Região Metropolitana.
Andar de trem e metrô pode ser de fato estressante e pode revelar um grau de organização, desorganização, educação e falta dela por parte dos usuários da rede. Pode também apontar mazelas estruturais — afinal, a superlotação, as falhas no sistema e as grandes distâncias percorridas são culpa não da população, mas do planejamento e da gestão urbanos — e pode retratar momentos do cotidiano das cidades.
Para não dizer que só impliquei com esse dia a dia dos transportes sobre trilhos em São Paulo, tenho reparado em um hábito que me parece estar crescendo entre uma estação e outra. Tenho visto mais e mais passageiros lendo livros físicos nos vagões. Outro dia, vi um homem com um livrão; eu, curioso, entortei-me para ver a capa e me surpreendi: Crime e castigo, de Dostoiévski. Imediatamente, perguntei-me quantas viagens seriam necessárias para o término daquela leitura.
Lembro-me também que, há muitos anos, terminei de ler um livro enquanto percorria uma das linhas do metrô. Fechei o livro e eis que um homem sentado à minha frente, que me olhava curioso, perguntou: “E aí, gostou da história? Já li esse livro e me encantei.”
Seja quais forem as situações que este observador pôde notar, algo é certo: no extenso cotidiano dos trens, percorremos uma infinidade de realidades.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.