Bicicletas em Paris

22 de maio de 2026

Sim, é um exemplo a ser seguido.

Conversando com um brasileiro que vive aqui há 18 anos e só anda de bicicleta, perguntei: “Você percebeu alguma mudança positiva na cidade, quanto à mobilidade?”. “Sim”, ele respondeu. “Há muito mais espaço para os ciclistas. Esta rua aqui antes era de mão dupla, um faixa para cada lado. Agora é de mão única, e na outra faixa fizeram a ciclofaixa. Ficou muito melhor!”

Há anos, Paris vem investindo em infraestrutura cicloviária, criando uma rede para o deslocamento por bicicletas, prática que se intensificou após 2007, quando inauguraram o sistema de aluguel (Vélib’). Nesta, e na maioria das cidades, só tem um jeito de fazer isso: diminuindo o espaço dos automóveis privados.

Infelizmente, minha programação aqui não me permite fazer uma pesquisa e um levantamento de campo mais sistemáticos. No entanto, agora que já caminhei o suficiente para cruzar o DF de norte a sul e de leste a oeste, posso pelo menos dizer o que vi.

Vi todo tipo de gente andando de bicicleta, mesmo no frio, mesmo na chuva. Pessoas idosas com compras na cestinha; pais e mães levando um ou dois filhos nas cadeirinhas, ou voltando da escola com suas crianças maiorzinhas, cada uma em sua bicicleta; gente indo trabalhar, ou voltando para casa; entregadores de comida.

Vi em todas as ruas, mesmo as mais estreitas, sinalização para bicicleta. Várias, para acomodar as ciclofaixas, tornaram-se vias de sentido único, como a do meu entrevistado. Outras, retiraram os estacionamentos de carro, ou “emagreceram” a faixa que era para estacionamento de carros para que ela se tornasse uma faixa de estacionamento de motos e bicicletas. Algumas impediram o tráfego de passagem e tornaram-se prioritárias para pedestres e ciclistas. Em outras mais largas, de mão dupla, vi ciclovias unidirecionais onde antes eram faixas de tráfego ou estacionamentos.

Em resumo, nenhuma situação viária parece ter sido desculpa para abandonar o propósito de tornar a cidade ciclável.

Junto com isso vem a estrutura complementar, porque tão importante quanto se locomover é poder parar onde se quiser. Há o sistema de bicicletas de aluguel, com estações por toda a cidade, há paraciclos bem distribuídos, vários locais protegidos (e pagos) para estacionar, muitos deles perto das estações de trem. E há também uns compartimentos fechados que ocupam uma vaga de carro, têm bomba de ar e comportam até 6 bicicletas. Assim, quem não tem espaço em casa pode guardar sua bicicleta nas redondezas por 75 euros ao ano. Não fica bonita, é verdade, aquela cápsula metálica na rua, mas é uma utilização nobre para uma vaga.

Há uma série de regras – não se pode andar falando ao celular (meu entrevistado foi multado por causa disso) ou com fones de ouvido, por exemplo – mas nem todo ciclista (assim como nem todo motorista ou pedestre) segue, infelizmente. Vi que muitos ciclistas não se sentem conduzindo um veículo, pois não costumam parar para o pedestre atravessar. E vi que muitos pedestres de certa forma também entendem assim, pois tampouco param para o ciclista passar, como parariam para um veículo.

Não raro, há sinistros graves. Os fatores são muitos, como o próprio fato de a bicicleta compartilhar a pista com os carros em várias ruas, ou o desenho viário problemático de alguns cruzamentos. Isso é agravado por descumprimentos às regras básicas e pelo desrespeito, mas também pela falta de uma cultura que ainda está em construção. Uma cultura que se estabelece com educação, sim, mas nunca sem fiscalização.

Apesar do caminho que ainda precisa ser percorrido para que Paris seja uma cidade onde pedalar seja 100% seguro e cada vez mais fácil e atraente, na qual ciclistas e pedestres se respeitem mais, tudo o que vi me deixa esperançosa. Vale insistir, vale aprimorar, vale continuar com essa visão de mundo, vale não esquecer o objetivo disso tudo: uma cidade mais humana, mais acessível, que impacte menos o meio-ambiente e contribua para a saúde de seus habitantes.

Os números estão aí para mostrar os avanços. Mas bom mesmo é ver a percepção das pessoas. Como me disse um casal de brasileiros que mora no sul da França após viver anos aqui: “Cada vez que voltamos a Paris, percebemos que o ar está mais limpo, e a cidade está mais silenciosa. As bicicletas não poluem e não fazem barulho.”

Você pode ver alguns números que referendam essa percepção aqui e aqui.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. ([email protected])
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