Balneário Camboriú atrai os jovens. Mas consegue fazê-los morar na cidade?

23 de setembro de 2026

No 4º Encontro Cidades Responsivas, em Porto Alegre, Alain Bertaud lançou uma provocação: as cidades vão disputar os jovens. 

Num cenário de envelhecimento populacional, baixa natalidade e desaceleração demográfica, a capacidade de atrair moradores passa a ter um peso cada vez maior no desenvolvimento econômico das cidades.

É justamente aí que Santa Catarina chama atenção. Enquanto boa parte do Brasil se aproxima da estagnação ou redução populacional, o estado segue crescendo pela combinação entre dinamismo econômico e migração. Teve o maior saldo migratório interestadual do país entre 2017 e 2022 e, segundo as projeções do IBGE, será um dos últimos estados a interromper seu crescimento populacional.

O litoral norte aparece entre as regiões mais dinâmicas desse movimento, e Balneário Camboriú está no centro dele. Atrai investimentos, empresas, profissionais e pessoas em busca de trabalho e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, cresce menos do que municípios colados a ela, como Camboriú, Itapema, Porto Belo e até Itajaí.

Isso, quem sabe, merece atenção. Não porque BC tenha parado de crescer, mas porque parte da população atraída por sua força econômica encontra moradia fora dela. 

Na última coluna sobre Balneário Camboriú, tratei desse ponto. A cidade possui um mercado imobiliário extremamente ativo, mas com forte presença de unidades grandes, de alto padrão e tíquete elevado. Esse produto atende uma parcela importante da demanda, mas não representa todos os perfis que hoje trabalham e constroem sua vida na cidade. 

Um profissional de 25 ou 30 anos que chega a BC para trabalhar em tecnologia, arquitetura, engenharia, turismo, mercado imobiliário ou serviços não precisa de um apartamento de 150m², três suítes e várias vagas de garagem. Na imensa maioria dos casos, também não consegue pagar por ele.

Apartamentos de 30, 40, 50, 60 até 80m² cumprem outro papel. Não são solução universal nem sinônimo automático de moradia acessível. São parte de um estoque residencial mais diverso, capaz de atender jovens, solteiros, casais sem filhos e famílias menores. 

Isso faz ainda mais sentido em uma cidade compacta. Comércio, serviços, restaurantes, praia, espaços públicos e lazer complementam a moradia. Quanto mais compacta é a cidade fora de casa, menor pode ser a necessidade de concentrar tudo em um condomínio. 

Quando essa diversidade de produto é insuficiente, parte da demanda procura alternativas nos municípios vizinhos. Quem trabalha em BC passa a morar nessas cidades “coladas”. A questão habitacional passa a ter efeitos sobre a mobilidade regional, aumentando deslocamentos diários e a pressão sobre uma infraestrutura já exigida. 

O novo Plano Diretor de Balneário Camboriú aponta para esse tema. Os Corredores de Desenvolvimento ampliam as possibilidades de adensamento em eixos estruturantes e abrem espaço para unidades menores e maior diversidade de produto fora da faixa mais valorizada da orla. 

É uma mudança importante. BC não precisa deixar de produzir imóveis grandes ou de alto padrão. Precisa ampliar o leque de possibilidades para que seu crescimento econômico também se traduza em maior diversidade de moradores. Agora, resta observar como o mercado responderá às novas possibilidades abertas pelo Plano. 

Se as cidades vão disputar os jovens, a capacidade de atraí-los continuará importante. Mas a disputa não termina quando eles encontram emprego ou oportunidades. 

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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