Au revoir, Paris!

31 de julho de 2026

Obrigada por três meses de aprendizado

Voltei de Paris este mês. Estive lá mais tempo que um turista e muito menos tempo que um residente. Morei num apartamento de 28 m² no 6º arrodissement, num prédio residencial, sem afastamento frontal, sem elevador. Minha rua tinha 85 m de comprimento por 10 m de largura, 4 prédios de um lado e 5 do outro, uma loja de decoração com bar de colágeno (sim, bar de colágeno), uma loja de fechaduras e cofres, uma farmácia, uma loja de ferramentas e utilidades para o lar, um estúdio de pilates e a sede de uma organização de gestão de direitos autorais para artistas visuais. Enquanto o meu prédio era simples, o prédio da frente era chiquérrimo, e se meu vizinho rico gostasse de copa do mundo, da minha janela conseguiria ver tranquilamente os jogos na sua televisão imensa.

Dessa ruazinha de sentido único, com calçadas estreitas, eu partia todos os dias para conhecer o que a cidade tinha a me oferecer de repertório. Percorri, segundo o meu marido, que tem um relógio que conta os passos da gente, mais de 1.100 km e conheci todos os 20 arrondissements. Vi as ruas das escolas, as florestas urbanas, a estrutura cicloviária, a preferência ao pedestre e o desestímulo ao transporte individual, a inserção do verde na cidade. Fui justamente para ver tudo isso, e não me decepcionei.

Enquanto eu via tudo isso, meus três meses de degustação urbana me permitiram também ver outras coisas.

Motoristas imprudentes, que entram na contramão para não terem que pegar o retorno no final da avenida. Pessoas que não recolhem as fezes que seus cachorros deixam nas calçadas. Manifestações. Turistas achando que o único propósito da cidade é servir de pano de fundo para suas postagens. Pedintes, normalmente parados em um canto, com um copo de papel na mão ou à sua frente, ou nos abordando discretamente na calçada, quase nunca quando estamos sentados em um café ou restaurante. Pessoas dormindo nas ruas e em estações de metrô, mas nada que surpreenda uma brasileira. Aliás, contrariando o que já ouvi por aí, pedintes e pessoas sem abrigo não necessariamente são imigrantes, e muitas vezes não dá para saber quem é imigrante ou quem é francês. A população é multiétnica, e todo mundo parece estar cuidando da sua própria vida.

Vi o enorme valor que se dá à cultura, às artes, à história. Vi bancas de revistas com revistas (!), vi dezenas de livrarias, cinemas e teatros, todos com relação direta com a rua. Vi gente de todas as idades lendo, vi propaganda de livros, filmes, exposições e espetáculos por toda a parte. Vi os nomes dos arquitetos em baixo relevo nas fachadas dos prédios, vi placas falando sobre artistas que frequentavam esse lugar ou moraram naquele edifício, ou fazendo referência a pessoas consideradas heroínas, algumas com um buquê de flores frescas ao lado, oferecidas pelo estado. A cidade informa, homenageia, reverencia.

Fui a feiras, mercados e galerias, passei por passagens cobertas, descobertas e elevadas (e eu que achava a High Line original, não conhecia a Coulée Verte), caminhei por praças, parques, bulevares e calçadões, flanei ao longo do Rio Sena, fotografei centenas de ruas com os mais distintos perfis para mostrar para os meus alunos. A variedade de espaços públicos e semipúblicos que conheci é enorme, e a cada momento me perguntava se aquilo funcionaria no Brasil.

Foi inesquecível, especialmente porque tudo isso foi compartilhado. Com meu marido Paulo, que esteve comigo em toda essa temporada, com parentes e amigos que foram para lá estar conosco, com pessoas que reencontramos e conhecemos. Mas também com as pessoas anônimas, que dividiram conosco as calçadas, os bancos dos parques, as sombras das árvores, os momentos de espera na lavanderia, as filas dos museus, os vagões de metrô, as águas do Canal St. Martin, de onde, disse um amigo, saí batizada como parisiense.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. ([email protected])
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