A transformação silenciosa de Moscou

29 de julho de 2026

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, boa parte das análises econômicas apontava para um longo período de retração provocado pelas sanções internacionais. Quatro anos depois, uma pesquisa divulgada pelo Council on Vertical Urbanism (CVU) revelou um cenário que me chamou atenção: Moscou consolidou-se como a principal cidade europeia na construção de edifícios altos

Em uma coluna publicada meses atrás, mostrei que a ideia de uma Europa predominantemente baixa já não corresponde mais à realidade. Londres, Varsóvia, Roterdã e Frankfurt vêm transformando seus skylines nas últimas décadas. O novo levantamento do CVU reforça essa tendência, mas evidencia Moscou superando o fenômeno londrino.

Confesso que o resultado me surpreendeu. Esperava encontrar Londres liderando esse movimento ou, no máximo, alguma cidade do Leste Europeu despontando entre os destaques. Em vez disso, os dados apontavam de forma contundente para a capital russa. Foi essa surpresa que me levou a buscar informações para entender como Moscou havia passado por uma transformação em um intervalo relativamente curto. 

O gráfico divulgado pelo CVU mostra uma ascendente transformação. Em 1975, Moscou possuía apenas 13 edifícios acima de 100 metros. Em 2005, eram 53. Cinco anos depois, esse número já havia dobrado para 105 e chegou a 154 em 2020. Hoje, pela a projeção da pesquisa, são mais de 200 edificações.

Quem observa apenas o distrito financeiro Moscow City pode imaginar que essa transformação esteja concentrada em poucas quadras. Não é o caso. Grande parte desse crescimento ocorreu por meio de edificações residenciais distribuídas por diferentes regiões da cidade, impulsionada por um amplo programa de renovação urbana que substitui antigos conjuntos habitacionais soviéticos por novos empreendimentos de maior altura e densidade. Paralelamente, antigas áreas industriais vêm sendo convertidas em novos bairros de uso misto, ampliando a verticalização para muito além do centro financeiro. 

À primeira vista, esse crescimento parece contradizer o contexto geopolítico recente. As sanções internacionais restringiram investimentos externos, afetaram diferentes setores da economia e aumentaram as incertezas sobre o futuro do país. Ainda assim, o setor imobiliário manteve um ritmo elevado de produção durante boa parte desse período. A explicação parece estar menos nos acontecimentos dos últimos anos e mais em uma estratégia urbana iniciada muito antes da guerra, sustentada por políticas públicas de renovação urbana, projetos já contratados e um mercado residencial que continuou aquecido durante parte do conflito. 

Isso não significa que a construção civil russa tenha permanecido imune aos efeitos da guerra. Nos últimos dois anos, o mercado começou a desacelerar diante da redução dos subsídios habitacionais, do aumento das taxas de juros e da queda nas vendas. Ainda assim, o skyline que hoje redefine Moscou é resultado de decisões tomadas ao longo de décadas, e não apenas de circunstâncias recentes. 

As cidades raramente acompanham o ritmo das manchetes. Enquanto guerras, crises econômicas e mudanças políticas acontecem em questão de meses, a transformação urbana costuma ser construída ao longo de décadas. Provavelmente seja justamente esse o maior ensinamento do caso de Moscou. Em meio às notícias sobre conflitos, sanções e isolamento internacional, uma das maiores transformações urbanas da Europa acontecia quase em silêncio.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Mestre em Arquitetura e Urbanismo (UniRitter/Mackenzie) e Doutor em Arquitetura (UFRGS). Membro do Council on Tall Buildings and Urban Habitat (CTBUH) e líder do CTBUH Brazil Chapter. ([email protected])
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