Quem caminha pelas avenidas de Paris costuma se encantar com a harmonia dos edifícios. Prédios colados uns aos outros, sem recuos, fachadas alinhadas e telhados na mesma altura. Essa fisionomia consagrada não nasceu de um plano diretor, tampouco de zoneamentos. Ela surgiu na década de 1850, na reforma conduzida pelo barão Haussmann, muito antes de existir a legislação urbanística como conhecemos.
A regra era puramente geométrica: um gabarito de altura atrelado à largura das ruas e a obrigação de colar as paredes vizinhas. Não havia burocrata proibindo padaria, alfaiate ou livraria no térreo. Paris tornou-se densa, caminhável e vibrante pela simples ausência de restrições funcionais.
A virada rumo ao desastre aconteceu nos Estados Unidos, na cidade de Berkeley, Califórnia, em 1916. Foi ali que nasceu o zoneamento exclusivamente residencial para casas unifamiliares, a invenção mais nefasta do urbanismo. Vendida com o falso pretexto de ordem e salubridade, a medida tinha um objetivo inconfesso, o de segregar. A elite local queria impedir lavanderias de imigrantes chineses, e barrar a chegada de famílias afro-americanas de baixa renda.
Ao proibir o comércio na esquina e banir edifícios de apartamentos, descobriram a arma perfeita. Não era preciso aprovar leis abertamente racistas; bastava proibir as tipologias de moradia acessíveis aos mais pobres.
A partir dos anos 1960, essa lógica de segregar usos e espalhar pessoas virou dogma nas Américas. No Brasil, ganhou sua maior vitrine na capital federal. Inspirada no modernismo de Le Corbusier, Brasília “inovou” levando o zoneamento ao paroxismo e fatiando a vida em gavetas estanques.
Ao mesmo tempo, criou a Disneylândia do automóvel. O pedestre foi banido, a calçada tradicional foi substituída por blocos isolados e descampados vazios em superquadras.
O projeto se vendia como vanguarda igualitária, mas era puro elitismo autoritário. Brasília nasceu segregada, e os candangos que estavam ali desde o início foram prontamente expulsos do Plano Piloto higienizado, e jogados nas cidades-satélites, a quilômetros do trabalho.
Olhando em retrospectiva, o que mais assusta é que uma visão de mundo sem comprovação prévia, sem dados, totalmente utópica e anticientífica, foi abraçada como se fosse ciência, com aquele fervor – e a cegueira – típico das seitas religiosas. Pior, justamente por quem detinha o pensamento crítico.
As universidades brasileiras canonizaram a visão lecorbusiana de cidade, e passaram a demonizar a história humana, a densidade, a cidade compacta, o uso misto, a cidade espontânea e abraçaram o oposto, sempre com muita regulação, muito regramento, muitas fórmulas, parágrafos, incisos, autorizações e licenças.
Enquanto a academia nacional repetia o mantra, unida, e prometia queimar nas fogueiras do ocaso social e acadêmico qualquer profissional ou gestor público que discordasse, Jane Jacobs publicava, em 1961, seu clássico – e genial – Vida e Morte das Grandes Cidades. Lá, explicava que a vitalidade urbana depende do uso misto, de calçadas ativas e dos “olhos da rua”, a vigilância natural da vizinhança que garante segurança e convivência. O Brasil fez o oposto, e apostou no espalhamento acelerado, em conjuntos habitacionais distantes e em regras que proibiam a densidade onde já havia saneamento e transporte.
Enquanto a Europa preservava suas cidades compactas e investia em redes densas de metrô e bondes, o Brasil louvava um modelo que gerou manchas urbanas desarticuladas, violentas, caras e feias. Destruímos o tecido comunitário e criamos metrópoles inviáveis, onde o trabalhador passa horas dentro de ônibus lotados.
Agora, eles investem em lazer, arborização, espaços de convivência e trocam carros por ruas de pedestre, humanizando a cidade e aproximando as pessoas. Enquanto isso, o Brasil segue desadensando as cidades, desaproveitando os lotes, construindo viadutos, trincheiras, alargando as ruas e expulsando a população para os municípios vizinhos.
Haverá saída?
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.