As cidades brasileiras estão envelhecendo e adoecendo juntas.
Entre praças abandonadas, calçadas quebradas e muros altos, cresce uma epidemia silenciosa: a solidão urbana. Ela não aparece nas planilhas de investimento, mas está nos corredores de hospitais e nos relatórios do SUS.
A Organização Mundial da Saúde criou, em 2025, a Comissão sobre Conexão Social, que reconheceu a solidão e o isolamento como ameaças à saúde comparáveis ao tabagismo e à obesidade. O relatório estima que uma em cada seis pessoas no mundo viva em isolamento social.
Na América Latina, a taxa entre idosos chega a 32%, segundo estudo do International Journal of Public Health (2021). No Brasil, dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Fiocruz) apontam que idosos que vivem sozinhos têm três vezes mais sintomas depressivos e duas vezes mais chances de inatividade física.
Nas periferias, o isolamento não é escolha. Lá — onde o ônibus demora, a praça virou estacionamento e a iluminação mal chega —, o espaço urbano reforça o afastamento. O desenho das cidades, que deveria aproximar, passou a produzir distância, e esse distanciamento custa caro. A solidão está associada ao aumento da mortalidade e à sobrecarga do sistema público de saúde, que gasta mais tratando suas consequências do que prevenindo suas causas.
Contudo, não se trata de algo insolúvel, de “trânsito em julgado”, para usar uma expressão em voga. Há caminhos. Cidades que usam inteligência territorial, cruzando dados de saúde, demografia e espaço urbano, começam a mapear territórios vulnerabilizados ao isolamento. Esses “mapas da solidão” orientam políticas públicas de convivência e bem-estar.
Medellín, na Colômbia, é referência. O programa Medellín Me Cuida integrou dados de saúde, moradia e vulnerabilidade social para guiar intervenções urbanas. Em três anos, reduziu em 21% os atendimentos de emergência por causas evitáveis entre idosos. Fortaleza, no Brasil, segue trilha semelhante. O plano Fortaleza 2040 monitora indicadores de saúde, mobilidade e bem-estar como base para o desenvolvimento urbano. É um modelo embrionário de como o urbanismo social pode funcionar como política de saúde preventiva.
Entretanto, o antídoto contra a solidão é a convivência. Um trabalho do Harvard Joint Center for Housing Studies (2024) mostrou que comunidades mistas, que unem jovens e idosos em espaços compartilhados, reduzem em até 30% os sintomas de depressão e ampliam o senso de propósito e pertencimento.
Programas de moradia intergeracional, escolas que abrem nos fins de semana para uso comunitário e centros de saúde que abrigam atividades de lazer são estratégias de baixo custo com alto impacto social. Não se trata de romantizar o convívio e sim de reconhecer que relações sociais produzem saúde.
O Brasil tem estrutura para isso. O SUS e suas bases de dados são o coração da política pública mais capilar do país. Falta apenas conectá-los às secretarias de Urbanismo, Habitação e Assistência Social.
A cidade saudável do século 21 será aquela capaz de transformar dados em cuidado, ruas em encontros e gerações em comunidades. Porque a solidão não se combate com aplicativo, mas com bancos, sombra e presença humana.
Gabriela Vasconcelos
Economista, urbanista social e coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, é mestranda em Saúde Pública na FSP-USP.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.