Em São Paulo, um bairro jardim promove o abandono da super mansão abandonada de um banqueiro falido
24 de agosto de 2023Na Rua da Gália, aninhada no prestigioso bairro do Morumbi, repousa a imponente mansão do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, figura proeminente por trás do Banco Santos, cujo legado ressoa nas curvas esculpidas por Ruy Ohtake. Hoje, esta estrutura outrora avaliada em R$ 78 milhões permanece silenciosa há 15 anos.
Os cômodos dessa propriedade de cinco andares, que se estende por 12 mil metros quadrados, testemunham a opulência de tempos passados: piscinas de formas sinuosas, um heliponto, duas bibliotecas e uma adega que acomoda cinco mil garrafas. Ademais, um gerador de energia de magnitude exponencial repousa, com capacidade suficiente para iluminar uma cidade com 20 mil habitantes. No entanto, este ícone arquitetônico se tornou epicentro de contendas judiciais, onde as visões divergem sobre sua potencial reconversão — de escolas a condomínios horizontais e edifícios verticais.
Edemar Cid Ferreira, detentor de um patrimônio substancial, enfrenta um dilema que transcende o âmbito monetário: as 200 árvores meticulosamente planejadas por Burle Marx, conferindo ao terreno uma riqueza ecológica e estética que desafia a quantificação.
A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo, ao designar o local como “bairro-jardim”, qualificando-o como patrimônio ambiental, negou intervenções substanciais. Esta categorização, ao impedir reconfigurações significativas, ecoa a relevância das 200 árvores no ambiente urbano. Essa relação compartilhada entre elementos naturais e sociedade ganha maior destaque em parques e praças. Surge então a pergunta: qual é o propósito de um “patrimônio ambiental” de 200 árvores aprisionado numa mansão abandonada?
Quando uma mansão do tamanho de um quarteirão urbano é transformada para acolher várias famílias, não apenas a infraestrutura, mas a própria urbanidade floresce. Em meio a este turbilhão de debates e impasses, a trajetória desta mansão emblemática se entrelaça com os dilemas contemporâneos do urbanismo, com a complexidade dos vazios urbanos, com a ostentação desgastada e com a busca ininterrupta pela sustentabilidade nas cidades.
Testemunha silenciosa das passagens do tempo na urbe, a mansão na Rua da Gália transcende sua função arquitetônica para se tornar um microcosmo eloquente das dinâmicas e desafios que delineiam o desenvolvimento das metrópoles modernas. O desafio de promover a densidade habitacional equilibrada em meio a um ambiente natural protegido reflete o embate entre a evolução urbana e a preservação do meio ambiente.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.