Turismo virtual

14 de agosto de 2026

Exigiríamos cidades melhores se soubéssemos o que anda acontecendo de bom nas cidades dos outros.

Viver é acumular repertório. “Convivi anos com uma pessoa assim. Reconheço de longe esse tipo de comportamento”; “Este prato está bom, mas já provei melhores”. De relacionamentos a sabores, passando por várias searas, à medida que o tempo avança, temos a oportunidade de nos tornarmos mais competentes e críticos.

Em muitos casos, obtemos repertório no nosso próprio dia a dia. A gente nasce num determinado meio, vai conhecendo gente diferente, se relaciona de formas variadas, obtém comportamentos distintos a depender de situações… e vai acumulando experiência a partir daí. A gente se alimenta em casa, come na casa dos outros, compra comida na feira, aprende a cozinhar… e vai conhecendo o gosto das coisas, os temperos, os preparos.

Em outros casos, porém, a vida cotidiana, por si só, não nos permite ampliar nosso repertório. A gente, então, precisa estudar, ler, se informar, buscar um conhecimento que nos ajude a compreender, por exemplo, nossa situação no Brasil e no mundo, em comparação à de outras pessoas, em outros lugares.

O repertório urbano é esse tipo de conhecimento. Precisamos visitar lugares além dos que costumamos frequentar – outros bairros da nossa própria cidade, outras cidades – para ver o que existe por aí, para ter a oportunidade de conhecer novas realidades, boas práticas. Para saber que existe algo melhor, que é possível fazer algo melhor, e reivindicar uma melhor condição para nós mesmos.

Infelizmente, a maioria da população brasileira não tem condição de viajar. Segundo o módulo “Turismo” da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua/PNAD Contínua, do IBGE, nenhum morador dos 80,7% dos domicílios do Brasil (62,8 milhões de domicílios) viajou em 2024. Os principais motivos: falta de dinheiro (39,2%) e falta de tempo (19,1%).

É uma pena. Não que viajar seja algo de primeira necessidade, mas conhecer outras realidades nos ajuda a ser menos tolerantes com o descaso e a precariedade, nos torna cidadãos mais preparados.

Mas… não sendo possível transportar nosso corpo a outros locais, já há algum tempo é plenamente possível “viajar” pela internet.

Lembro claramente quando vi o Google Earth pela primeira vez. Era 2006, e meu queixo caiu ao ver a Terra à disposição da minha curiosidade! Lá estava Brasília, meu prédio, a UnB. Lá estavam não sei quantas outras dezenas de cidades que eu, empolgadíssima, quis ver de cima (não havia ainda a vista da rua). Eu fiquei – e fico, até hoje – horas e horas visitando lugares, aprendendo com eles, ampliando meu repertório. As calçadas contínuas de Lima, no Peru; os quintais arborizados de Mérida, no México; o enlace de uma malha antiga com a nova, preservando identidades e continuidades, em Barcelona, na Espanha; a linda relação do Rio de Janeiro com a praia…

A PNAD Contínua, no módulo “Acesso à Internet e à televisão e posse de telefone móvel celular para uso pessoal 2024”, levantou que 88,9% das pessoas com mais de 10 anos possui um celular para uso pessoal. Considerando que praticamente todos os celulares têm acesso à internet, essa ferramenta gratuita de viagem pelo planeta está disponível a aproximadamente 167,5 milhões de pessoas! Seria o máximo se, ao invés de passar o tempo só vendo fotos e vídeos dos outros, nós tivéssemos a curiosidade de viajar de forma virtual, conhecendo outras cidades, vendo como elas estão se transformando para responder a problemas urgentes, passeando por suas ruas, munindo-nos de exemplos e de argumentos. Nessa época de eleição, isso nos seria bastante útil. Exigiríamos cidades melhores se soubéssemos o que anda acontecendo de bom nas cidades dos outros.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. ([email protected])
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