Reassisti dia desses ao filme “A hora da estrela”, de 1985, disponível na Netflix (ok, reconheço, as plataformas de streaming também oferecem algumas vantagens…). Desta vez, me chamou particularmente atenção a fala da ingênua protagonista Macabéa sobre o que gostava de fazer em São Paulo no seu tempo livre. “Eu gosto mesmo é de passear no metrô nos dias de domingo”. No que suas colegas de quarto rebatem (“Eu, hein! Quem gosta de buraco é tatu!”), Macabéa diz com ar sonhador: “Eu acho tão bonito o metrô”.
Aquela cena me lembrou de uma conversa com um antigo colega de trabalho, que, assim como Macabéa, também era um jovem migrante vivendo na “cidade grande” (ele tinha vindo do interior de Minas Gerais há cerca de três anos). Como ainda não o conhecia bem na época, perguntei por que ele havia migrado para São Paulo, já esperando, é claro, as respostas de sempre (“as oportunidades estão aqui”, “as melhores faculdades estão aqui”, “a diversidade está aqui”, “a grana está aqui”, “cinemas, museus, teatros, shows, bares, restaurantes, tudo o que você precisar, a qualquer hora, vai encontrar aqui”).
Sua resposta, contudo, me surpreendeu. “Sei que pode parecer meio bobo, mas sempre me imaginei indo e voltando de metrô”. Ante a minha expressão de espanto e incompreensão, ele me explicou que via o metrô como uma espécie de roleta de cassino. “Escolher um horário. Escolher um vagão. Escolher em que porta entrar. O que nos espera até a próxima estação? Um conhecido? Um mistério? Uma música? Uma confusão? Tudo? Nada? Qualquer coisa!”.
Entendi, então, que, para ele, o metrô talvez fosse a melhor representação do caráter aleatório, fora de controle, que a vida pode ganhar em uma metrópole como São Paulo. Afinal, são milhares de pessoas indo e vindo todos os dias, infinitas possibilidades de encontros e desencontros. Se, para tantos, o metrô não passa de um meio de transporte, uma forma de chegar de um ponto a outro, para meu colega ele era um lugar de fantasia. Andar de metrô, para ele, era uma forma de estar na cidade e viver suas possibilidades.
O filme e a lembrança me fizeram pensar no prejudicial predomínio do automóvel… É claro que oferta, integração, tempo, qualidade e previsibilidade são fatores determinantes na escolha pelo transporte público. Será que o fortalecimento de um imaginário positivo em torno dos trens e ônibus (como o de Macabéa e do meu colega), contudo, também não poderia ter um papel importante para incentivar a troca do automóvel pelo transporte público? Digo isto porque não há como negar o impacto de décadas de publicidade na transformação do automóvel em um verdadeiro símbolo cultural, sinônimo de liberdade, identidade e progresso.
Ainda hoje, a despeito dos constantes congestionamentos e altos custos de manutenção, o automóvel continua associado à ideia de autonomia, fuga da rotina, velocidade, modernidade, sucesso e sofisticação, quando, na realidade, ele é um dos principais responsáveis pelo tempo perdido em congestionamentos, emissão de poluentes e acidentes de trânsito, além de ocupar um espaço desproporcional na cidade e tornar as ruas cada vez mais inseguras para as pessoas. Apesar de todas essas externalidades, ele também mantém seu protagonismo nas políticas urbanas dos municípios brasileiros.
A boa notícia é que já se observa uma nova tendência entre os mais jovens, que têm demonstrando menos interesse em tirar carteira de motorista e comprar carro, optando por um estilo de vida mais urbano em áreas próximas de empregos, serviços e transporte público (meu antigo colega de trabalho e Macabéa talvez estivessem, pois, à frente de seu tempo).
Voltando ao filme, por sinal, como não falar do final, em que Macabéa é trágica e ironicamente atropelada por um automóvel importado logo após a consulta com uma cartomante (que previra um futuro de riquezas envolvendo casamento com um estrangeiro).
E não é que “A hora da estrela” também é sobre urbanismo?!
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.