Almocei dia desses com velhos amigos no restaurante localizado no térreo do Edifício Paquita, na Praça Buenos Aires, em Higienópolis (que térreo maravilhoso, por sinal).
Fui, é claro, de metrô, desci na Estação Higienópolis-Mackenzie da Linha 4-Amarela e caminhei pela Rua Piauí até o restaurante. No caminho, lembrei da recente polêmica envolvendo um novo empreendimento exatamente naquela rua, que será construído junto a um casarão tombado.
Segundo reportagem da CBN, “um dos motivos da polêmica está na arquitetura desses novos prédios. Um grupo de moradores considera que ela destoa do restante da região, que tem a paisagem composta, em sua maioria, por edifícios de estilo modernista, com janelões e pastilhas na fachada”.
Ainda que Higienópolis concentre uma enorme quantidade de ícones modernistas como os edifícios Lausanne (Franz Heep), Louveira (Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi), Prudência (Rino Levi) e Bretagne (Artacho Jurado), é preciso dizer que há também por ali muita coisa genérica e cafona construída nos anos 1980 e 1990, inclusive na própria Rua Piauí. Ou seja, o novo empreendimento definitivamente não será o primeiro a “estragar” a paisagem.
Esse tipo de discussão, porém, por mais que seja válida e até desejável, desvia a atenção do que realmente importa para a criação de uma cidade agradável e acolhedora. E isso se revelou para mim quando, naquela mesma caminhada, passei em frente ao charmoso edifício projetado pelo Artacho Jurado que leva o nome daquela rua.
O Edifício Piauí, mais do que por sua “beleza” arquitetônica, chama atenção pela forma como, mesmo depois de tantos anos, segue lindamente integrado à rua. Ao contrário de vizinhos já citados como o Bretagne, hoje cercado por grades, ele não sucumbiu ao crescente medo da pobreza e da violência, mantendo intactos jardins e pilares que não deixam tão evidente a separação entre o espaço público e o privado.
Pois bem. Acabei levando a polêmica para o almoço, até porque meus amigos são moradores da região. Inclusive provoquei-os, dizendo que em Higienópolis de fato há prédios lindos, maravilhosos, mas que, com suas grades, recuos e grandes térreos vazios, pouco contribuem para a vitalidade urbana.
As “fachadas ativas” viraram uma espécie de “bala de prata” para essa questão da vitalidade, mas o planejamento urbano (que as incentiva) e os empreendedores imobiliários parecem não estar levando em consideração o fato de que seu pleno funcionamento depende de diversos fatores como fluxo de passantes, densidade demográfica e potencial de consumo. Ou seja, nem sempre novos prédios comportarão comércio no térreo.
A contribuição para a qualidade de vida do entorno, contudo, não precisa se restringir a comércio no térreo. Permeabilidade visual, entra e sai de moradores, jardins vistosos e mobiliário urbano também podem colaborar bastante para uma boa relação do empreendimento com a rua. O Edifício Piauí não conta com comércio no térreo, mas seus jardins e pilares criam uma ambiência muito agradável para quem vive ou apenas caminha por ali.
Voltando ao novo empreendimento, segundo reportagem do G1, houve até manifestação dos moradores de Higienópolis contrários à construção. Como disse anteriormente, acho esse tipo de iniciativa não somente válida como bastante louvável. Arquitetura de qualidade sem dúvida deveria ser pauta no debate sobre a cidade que queremos.
Esse debate, contudo, não deveria dar tanto peso a questões estéticas. Para a vida urbana, afinal, mais importante do que o estilo ou a “beleza” arquitetônica (ainda mais em uma paisagem já bastante heterogênea) é a integração do empreendimento ao seu entorno, sua capacidade de estimular e valorizar o vai e vem de pedestres. Nesse sentido, o Edifício Piauí, na mesma rua – e mesmo sem comércio no térreo –, é um ótimo exemplo a ser seguido.
Que essa questão da integração ao entorno, pois, seja apontada como prioridade em futuras manifestações de moradores de Higienópolis. As quais, por sinal, poderiam ter até trilha sonora, com Juca Chaves cantando “Hey-hey, gee-gee / Take me back to [Edifício] Piauí”.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.