Semana de 4 dias para quem deixa o carro em casa

22 de setembro de 2026

Um antigo chefe muito querido acreditava, como Keynes, que os ganhos de produtividade advindos dos avanços tecnológicos deveriam ser revertidos em mais tempo livre para os trabalhadores aproveitarem a vida. Por isso, estudava implantar em nosso departamento a semana de apenas quatro dias de trabalho.

Empresas que adotaram a medida em países como Reino Unido, Bélgica e Holanda constataram ganhos de bem-estar e produtividade dos trabalhadores resultantes da medida.

Também sou a favor de jornadas de trabalho menores e mais flexíveis, sinto falta de mais tempo para passar com a família, fazer coisas que eu gosto como ler, ver filmes, viajar, andar por aí ou simplesmente não fazer nada.

Por outro lado, entendo que medidas relacionadas à redução da jornada de trabalho poderiam ser ainda mais eficientes se fossem adotadas não apenas para premiar o mérito (o atingimento de metas, por exemplo), mas também como incentivo a ações que gerem benefícios públicos.

Mas que tipo de ações seriam essas? Deixar o carro em casa e ir ao trabalho a pé, de bicicleta ou de transporte público, por exemplo. 

O projeto “Shared Streets”, da FGV Cidades, buscou medir os custos sociais associados a cada modo de transporte. Segundo as estimativas, em São Paulo, automóveis responderiam por um custo das externalidades negativas de R$ 472,23 (em valores de 2021) por 1.000 km rodados, contra apenas R$ 23,46 dos ônibus.

Os próprios avanços tecnológicos, por sua vez, já permitem identificar os trajetos que os trabalhadores fazem todos os dias e, com isso, mensurar o impacto social associado a cada escolha de transporte.

Ante o reconhecimento das mudanças climáticas como um dos principais desafios do nosso tempo, é preocupante constatar que, em São Paulo, por exemplo, segundos a última edição da Pesquisa Origem e Destino, entre 2017 e 2023 o transporte individual motorizado superou o coletivo, com sua participação saltando de 30,9% para 36,1% no total de viagens diárias. Segundo o mesmo estudo, as bicicletas ainda representam apenas 1,3% desse total.

A semana de quatro dias é apenas uma das possibilidades de benefício para tentar reduzir os impactos sociais negativos do automóvel. Outra possiblidade seria transformar o menor impacto da escolha pela bicicleta ou transporte público em prêmios (ingressos de cinema, teatro e exposições, por exemplo) ou mesmo benefícios financeiros diretos, proporcionais aos menores impactos gerados.

Na outra ponta, para incentivar empresas a adotarem tal medida tendo em vista os benefícios públicos gerados, prefeituras poderiam oferecer descontos em impostos municipais, como já ocorre em medidas como o IPTU Verde.

Aumentar a oferta e a qualidade do transporte público ou da infraestrutura cicloviária, sem dúvida, é fundamental para incentivar a adoção mais frequente de meios de transporte alternativos ao automóvel. Tais medidas, porém, precisam ser acompanhadas por outras que não apenas desincentivem o uso do automóvel (redução de velocidade nas vias e restrição de vagas de estacionamento, por exemplo), mas também incentivem a ida ao trabalho a pé, de bicicleta e utilizando o transporte público.

Ainda que gerem benefícios públicos e sejam opções mais em conta do que o automóvel, o transporte por bicicleta, ônibus ou trem tem custos implícitos importantes na percepção de quem os utiliza, relacionados ao menor conforto e ao maior tempo de deslocamento. Daí a importância de se pensar em incentivos que compensem, em alguma medida, essa percepção de custos privados.

A semana de quatro dias defendida pelo meu antigo chefe, reduções das jornadas de trabalho ou outros tipos de benefícios associados ao meio de transporte utilizado poderiam ser alguns desses incentivos.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos ([email protected]).
VER MAIS COLUNAS