Há seis meses troquei Porto Alegre por Balneário Camboriú. Depois de 39 anos vivendo na mesma cidade, gaúcho e bastante bairrista, não foi uma mudança pequena. Vim para Santa Catarina a trabalho, para integrar a Talls Solutions, e pela primeira vez passei a morar em uma cidade que, até então, eu conhecia muito mais pelas visitas, pelos projetos e, claro, pelos arranha-céus construídos aqui.
Balneário Camboriú é a cidade dos edifícios altos no Brasil. Seu skyline virou praticamente sua marca registrada e sua arquitetura é frequentemente alvo de críticas de quem a observa de fora. Mas talvez uma das coisas mais curiosas desses primeiros seis meses seja perceber que minha experiência cotidiana da cidade é muito menos determinada pela forma dos edifícios do que pelo que acontece entre eles.
Minha rotina mudou bastante.
Em Porto Alegre, o carro fazia parte de praticamente qualquer deslocamento um pouco maior. Aqui ele passa boa parte da semana na garagem. Vou trabalhar de patinete, faço grande parte das coisas a pé e uso o carro principalmente quando quero sair da cidade no fim de semana.
Isso é possível porque Balneário Camboriú é extremamente compacta. A orla tem cerca de 6km e boa parte da vida cotidiana acontece em uma faixa urbana relativamente pequena entre a praia e a BR-101. Mercado, farmácia, academia, restaurantes, lojas e serviços estão quase sempre próximos.
A Avenida Brasil talvez seja o exemplo mais evidente. Em vários trechos, ela funciona como um grande shopping a céu aberto. São lojas, restaurantes e serviços praticamente sem interrupção, com fachadas ativas e muita gente circulando. Não é apenas uma avenida comercial. É um lugar onde as pessoas efetivamente caminham pela cidade.
Essa presença constante de gente também interfere diretamente na percepção de segurança. Costumo correr à noite e não é raro estar na orla às 21 ou 22h. Há iluminação, comércio funcionando e pessoas caminhando, correndo ou simplesmente usando a praia. O mesmo acontece em boa parte das avenidas centrais. A sensação é de uma cidade ocupada.
É curioso porque estamos falando de um município com cerca de 150 mil habitantes. No entanto, Balneário Camboriú raramente transmite a sensação de uma cidade desse tamanho. A população flutuante, o turismo e a enorme oferta de comércio e serviços produzem uma intensidade urbana normalmente associada a cidades maiores. Há uma quantidade de restaurantes, lojas e opções de consumo que dificilmente existiria apenas para atender sua população residente.
Essa provavelmente foi minha principal surpresa até aqui.
Antes de morar em Balneário Camboriú, eu provavelmente olhava para a cidade primeiro pelo skyline. Hoje presto muito mais atenção à intensidade do nível da rua.
Os edifícios continuam ali e certamente ajudam a explicar a enorme concentração de pessoas em uma área tão pequena. Mas, no cotidiano, são as calçadas ocupadas, o comércio, as distâncias curtas e a possibilidade de deixar o carro parado que mais mudaram minha relação com a cidade.
Depois de seis meses, continuo sendo um porto-alegrense bastante bairrista. Mas já consigo admitir uma coisa sem muita resistência. E isso sem ainda ter vivido a cidade no auge do verão. Dezembro e janeiro certamente vão acrescentar outro capítulo a essa percepção.
Há aspectos da vida urbana de Balneário Camboriú que eu gostaria que fossem muito mais comuns nas cidades brasileiras.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.