A forma urbana compõe-se através da articulação entre elementos diversos. A rua, a quadra e o lote se destacam entre os mais fundamentais. Dentre os três, a quadra oferece a maior flexibilidade para a atuação do arquiteto, pois viabiliza o projeto e a articulação de espaços públicos por entre os edifícios. Ela oferece potenciais ainda pouco explorados! Vamos falar sobre alguns? Mas antes…
A Quadra na História
De acordo com Noto e Silva (2019), a quadra de ocupação perimetral atravessou três momentos históricos relevantes. Primeiro, o seu redesenho no final do séc. XIX. Depois, sua negação/dissolução, ora parcial e ora total, pelo urbanismo moderno. E por fim, sua retomada pós-moderna no final do séc. XX.
No primeiro mantinha-se a matriz compositiva da quadra tradicional, com edifícios alinhados à rua, a ocupação da testada do lote (ou de linha paralela a esta) e o agrupamento de blocos em conjuntos de dada dimensão. É o período da cidade pré-industrial. A ordem do conjunto advinha do modelo de rua corredor: edifícios dispostos como ilhas rodeadas de vazio; rua e quadra indissociáveis, configurando-se mutuamente.
Neste arranjo há certa diversidade, mas a dimensão coletiva do urbano se restringe ao que não é ilha. Resulta daí uma escassez de espaços coletivos livres, com poucos espaços entre edifícios e inclusive más condições de iluminação e de ventilação das unidades habitacionais.

Questionar esse modelo marcou o início da segunda fase. Rejeitou-se a rua como modelo de ocupação da cidade, e a diversidade deu lugar à racionalidade: os edifícios tornaram-se objetos autônomos e precisos, sem atribuições relativas à construção do espaço público. É o período da cidade moderna e funcionalista.
A cidade, por milênios ordenada pela diferenciação plana entre cheios e vazios, agora via a concentração dos cheios (em altura) e a multiplicação dos vazios. Separaram-se ainda as funções por áreas: de habitação, de lazer, de trabalho e de circulação. A transição de modelo se completou com a chegada do automóvel, que trocou o foco do urbanismo ao viabilizar e priorizar novos sistemas de deslocamento no interior da cidade.
A partir daí, a rua não era mais o único lugar do pedestre e se pôde criar maiores e mais numerosos espaços públicos. Na prática, caiu a obrigação de construir edifícios na face dos lotes, respeitando ordenamentos que limitavam o desenvolvimento das inovações construtivas da modernidade. Por outro lado, o modelo reduziu drasticamente a diversidade construtiva e submeteu o espaço à primazia dos automóveis, com enorme prejuízo aos pedestres. E depois?
A Quadra Hoje e Suas Possibilidades
Para escapar das dificuldades da quadra tradicional e de sua negação moderna, contemporâneos como Christian de Portzamparc (1944-) sugerem a solução híbrida da quadra aberta, na qual se reocupam as franjas das quadras redefinindo a noção de rua quarteirão, mas agora com suficiente liberdade para experimentações arquitetônicas desvinculadas da face dos lotes. Os espaços públicos podem se multiplicar, mas tomando ou compartilhando áreas com o domínio privado; os objetos continuando autônomos, mas ligados entre eles por regras que impõem vazios e alinhamentos parciais: formas individuais e coletivas coexistem!
A quadra aberta oferece muitos caminhos de inovação! O planejamento urbano brasileiro se pautou na escala do lote, definindo dimensões mínimas e máximas. Já as comunidades planejadas, novos bairros onde o desenvolvedor também desenvolve as edificações, trazem a oportunidade de pensar a quadra, e não mais o lote, como principal elemento da forma urbana.
Eu, pelo menos, tenho um montão de ideias e muita vontade de executá-las… Ah, se essa quadra fosse minha!
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.